A polêmica do samba da Imperatriz entre os produtores agrícolas

Uma nota dissonante atravessou o samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense deste ano. Cahê Rodrigues, o carnavalesco da escola, faz críticas severas ao agronegócio, um dos setores mais poderosos e furiosos quando precisa fazer autodefesa. Mais do que a letra de “Xingu, o clamor que vem da floresta”, que será cantado na Avenida, a sinopse que acompanha o samba foi o que gerou a ira dos produtores agrícolas. O texto faz uma crítica feroz ao ataque do caraíba (homem branco) ao ambiente onde vivia o índio, povo que teria muito a ensinar aos brancos se houvesse uma consciência genuína e um desejo real de enfrentar os impactos ambientais que a industrialização desenfreada desencadeou.

Quem estuda o tema sabe que há evidências que mostram o quanto a expansão da agricultura e pecuária está submetendo o planeta a um estresse como nunca aconteceu. Uma boa opção, diante da polêmica, seria trazer à tona soluções criativas. Mas, em vez disso, o setor prefere baixar um véu, nublando a importância do papel dos índios na preservação do ambiente, e para reforçar a tese lançam sobre eles toda sorte de críticas.

Menosprezar a cultura de quem não necessita de maquinarias para plantar e colher, de quem tem uma relação de igual para igual com o ambiente do entorno, é condizente com um sistema que não enxerga um palmo adiante dos cifrões. Que os índios são preguiçosos, que estão querendo se aproveitar apenas do que a cultura ocidental tem de bom e confortável, que eles só pensam em dinheiro, são algumas das críticas mais ferozes. A poucos sensibilizam a história, a tradição desse povo.

O agronegócio não quer saber de argumentos que não dialoguem com seu “way of life”. No site da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) que tem 21 mil associados produzindo carne e leite, o samba-enredo recebe críticas ainda mais fortes. Um dos argumentos utilizados pelos membros da ABCZ na nota mostra, no entanto, a dificuldade de se conseguir um diálogo no mesmo tom. Para eles, é tudo uma questão de mercado:

“Antes de mais nada, é preciso esclarecer e reforçar que o país do samba é sustentado pela pecuária e pela agricultura. Chamados de “monstros” pela escola, nós, produtores rurais, respondemos por 22% do PIB Nacional e, historicamente, salvamos o Brasil em termos de geração de renda e empregos. Com o tempo e com o nosso talento de produzir cada vez mais – e de forma sustentável – trouxemos para nossa nação o título de campeã mundial de produção de grãos e de proteína animal”.

Por outro lado, como não contabilizar o quanto o setor exporta, tirando recursos da terra que machuca sem retornar para ela o que seria necessário para mantê-la produtiva? Numa rápida pesquisa, cheguei a uma cifra: as exportações do agronegócio brasileiro cresceram 1,4%, em dezembro de 2015, na comparação com o mesmo mês de 2014, saltando de US$ 6,76 bilhões para US$ 6,85 bilhões.

Vandana Shiva, economista indiana, há 25 anos começou um movimento chamado Navdanya e denuncia, a plenos pulmões, o que a escandalizou na produção do agronegócio, a ponto de conseguir unir forças para tentar livrar a si e a muitos indianos do jugo das mega corporações de alimento. Diz ela num discurso recente:

“Criei este movimento quando me escandalizei com o fato de que a vida na Terra, criada durante milênios pela própria Terra, diversificada por nossos ancestrais, agora estava sendo proclamada como inventada, criada por um punhado de corporações que nos trouxeram ainda produtos químicos, que trouxeram guerra, agora queriam possuir sementes de formas de vida. Para mim, era tão equivocado aceitar isso. E aí comecei a guardar sementes, e temos criado mais de uma centena de bancos de semente comunitários com mais de três mil variedades de arroz, temos conservado e distribuído centenas de ervas, as quais os fazendeiros estão me dizendo que estão ganhando três vezes mais e tendo mais o que comer porque há uma variedade incrível de nutrientes nelas”.

É do que se trata.

Belo Monte, a usina hidrelétrica que já foi mote até de filme (“Avatar”, dirigido por James Cameron) é chamada de “Belo Monstro” no samba da Imperatriz, alusão direta ao fato de que a megaobra incomodou muito e não cumpriu seu programa de mitigação dos impactos. Diz o texto da sinopse:

“Caraíba não mede consequências. Acredita na sua ciência, buscando o que chama de progresso. Derruba floresta, espalha veneno e acha o mundo pequeno para semear tanta arrogância. Invade nossas terras, liga a motosserra e no lugar dos troncos sagrados, planta ganância. Caraíba precisa de mais energia para alimentar os seus interesses. Cria verdadeiros monstros. Belos monstros… usinas que devoram rios, matam peixes, secam nascentes, inundam tabas e arrastam na lama o futuro de nossa gente. Não podemos deixar, guerreiro menino, que afoguem o nosso destino. Nossa casa é aqui! E não devemos nos curvar. Precisamos honrar cada dente do colar, cada palavra do irmão Raoni!”, diz o texto.

Cahê Rodrigues, na rede social, disse que seu propósito foi dar um alerta para a necessidade de se respeitar o índio:

“Quando a Imperatriz decidiu levar o Xingu para a Avenida, tinha uma razão muito forte. Ela quer dizer apenas: respeitem o nosso índio e aprenda, com ele, a amar o que chamamos de Brasil”.

As expressões são fortes e a polêmica, certamente, também será. Por enquanto, os jornalistas da região Amazônica é que estão se interessando mais pelo tema. Mas quando se aproximar o carnaval, certamente o assunto vai voltar à baila e será debatido incansavelmente. Até acabar o interesse.

O que me deixa inquieta é que ainda se tem, tanto aqui no Brasil quanto em outros lugares do mundo, um forte sentido de debate quando se fala sobre desmatamento e preservação. É como se não houvesse uma incompatibilidade entre esses dois temas. É como se ainda estivéssemos nos anos 70, quando se acreditava que os recursos naturais eram infinitos.

Nesse sentido, dá inveja ler uma notícia como a que foi divulgada em junho do ano passado, dando conta de que a Noruega é o primeiro país a banir o desmatamento e usou, para isso, uma forma muito clara. O parlamento norueguês prometeu que a política de compras públicas do governo se tornará livre de desmatamento depois que um comitê de parlamentares recomendou a imposição de regulamentos para garantir que o estado “não contribuiu para o desmatamento da floresta”.

Está certo, estamos falando sobre um país rico, que não tem grandes mazelas, por isso pode se dar ao luxo de regulamentar os cortes de árvores, fiscalizar e, mais do que isso, encontrar ressonância na população, que também quer um mundo melhor para se viver. Mas dá uma pena danada pensar que vamos precisar avançar ainda muitas casas para chegar lá.

Por: Amélia Gonzalez
Fonte: O Globo

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