Jornalista de São Paulo escreve blog sobre vivências no interior da Amazônia

Para alicerçar o jornalismo à empreitada, ela criou o blog “Eu na Floresta”, hospedado no portal do Estadão, onde conta a sua empreitada

Na verdade, a jornalista paulista Maria Fernanda Ribeiro, 36, nunca quis dar uma pausa na carreira, mas sim encontrar algo que a satisfizesse dentro do jornalismo e que pudesse também ser útil à sociedade. “Antes de eu decidir viajar para a Amazônia, eu já planejava em algum momento sair para uma viagem, mas que não fosse um mochilão apenas. […] quando estive na Amazônia pela primeira vez, em janeiro de 2016, para visitar um primo em Alter do Chão, no Pará, após a morte do meu pai, percebi que tinha encontrado o meu lugar”, diz ela.

Para alicerçar o jornalismo à empreitada, ela criou o blog “Eu na Floresta”, que hoje está hospedado no portal do Estadão (acesse aqui), onde conta toda a sua empreitada. “A ideia do conteúdo é abordar sobre quem são os povos da floresta, quem são as pessoas que moram na selva e ajudam a preservar esse grande tapete verde em que o mundo todo está de olho e que o brasileiro ignora, seja por omissão ou falta de interesse”, declarou Maria, que trocou a cama pelas redes, os carros pelas canoas e as estradas pelos rios.

O trajeto

Maria começou a viagem pelo Acre porque o primo que mora em Alter do Chão a chamou para ir ao Festival Mariri, dos índios Yawanawa. “Meu plano era começar a viagem pelo Tocantins e o Acre seria o último estado, mas depois do convite dele mudei o trajeto. Mudei porque preferi começar a viagem acompanhada de alguém da família. E foi a melhor opção porque muitas portas se abriram por lá e eu tive a oportunidade de conhecer outros povos indígenas que nem estavam nos meus planos”, assegura.

No dia 12 de janeiro, ela completou sete meses de viagem e já passou pelos estados do Acre, Rondônia e Amazonas. “No Acre conhece sete aldeias, de seis diferentes etnias, além de reservas extrativistas e comunidades ribeirinhas. Em Rondônia fiquei com os índios Paiter Suruí e depois em uma comunidade quilombola. No Amazonas ainda só comecei a viagem, mas já passei um tempo na RDS Rio Negro e fui para Presidente Figueiredo. Em março volto para o Amazonas para ir até Santa Isabel do Rio Negro e também São Gabriel da Cachoeira”, declara ela.

Dados na web

O blog “Eu na Floresta” foi criado uma semana antes de Fernanda embarcar. “Os conteúdos são os mais diversos e vão desde dicas de viagem até entrevistas com líderes e relatos bem pessoais e alguns até muito sentimentais. E os acessos também variam muito, com alguns posts chegando a 3 mil compartilhamentos e outros que não ultrapassam os 200. Mas eu tento não me apegar muito a isso na hora de escrever. Escrevo o que tenho vontade. A minha preocupação maior com os textos é o de tomar cuidado com as palavras para não reforçar estereótipos em relação à Amazônia e seus povos”, pondera.

Sobre as percepções que teve, ela afirma que cada comunidade tem a sua peculiaridade. “Os indígenas costumam receber com mais festa do que os ribeirinhos, mas as recepções são sempre cordiais e calorosas e há bastante troca de conhecimento”, coloca. Em relação ao Norte, de modo geral, o que mais a engrandeceu foi o senso de solidariedade.

“Sobre o Amazonas especificamente, ainda conheci pouco e posso parecer leviana no meu comentário, mas o que me pareceu é que as comunidades estão muito atreladas ao turismo e aos adventos dele e algumas já estão deixando de lado as atividades tradicionais, como a pesca, o extrativismo etc. Isso é uma característica bem forte do Amazonas e que se diferencia dos demais estados que conheci (Acre e Rondônia)”, encerra.

No momento, Maria Fernanda está em São Paulo, e ela voltou para lá no intuito de arrumar algumas coisas, antes de retornar ao Amazonas e dar seguimento ao projeto. “Vim entregar meu apartamento, terminar de doar alguns objetos e partir novamente. Já não consumo mais do mesmo jeito, já não me alimento mais da mesma maneira e já não enxergo mais o mundo e o Brasil com os mesmos conceitos. Descobri que é possível viver com pouco e que ser feliz é viver em paz”.

Mais perguntas

BV: Da culinária típica local do Amazonas – e da culinária indígena também – quais pratos mais te impactaram e porquê?

MF: Do Amazonas o que mais me impactou foi a abundância de peixes e os pratos com tucumã. Gostei tanto do tucumã que se eu fosse em algum lugar que não tivesse a iguaria, eu ia para outro estabelecimento para encontrar. A culinária indígena varia muito de aldeia para aldeia e na verdade se come o que tem, sem muita abundância, desperdício ou variedade. Eu, que iniciei a viagem como vegetariana, já tive que comer macaco, anta, tatu e algumas larvas enquanto estava com os índios. E foi ótimo.

BV: Qual foi o primeiro grande choque cultural que você recebeu durante sua jornada? E porque? Pode citar também outros que te impactaram?

MF: Os choques culturais são inúmeros e existem a todo momento. Em cada comunidade, em cada povo, em cada estado é um aprendizado diferente. Da comida ao jeito de dormir. Dos relacionamentos interpessoais aos valores. Tudo me impacta profundamente, mas no sentido de aprendizado, de entender como o ser humano vive de maneira diferente e de entender que não devemos nos fechar no mundo em que vivemos na hora de pensar em mudanças políticas, econômicas e sociais. Cada lugar do país funciona de uma maneira e devemos ter noção dessa grandiosidade cultural antes de debatermos qualquer política pública. O maior impacto foi entender que o meu mundo não é o mundo dos outros.

BV: Você chegou a participar de algum ritual indígena ou ribeirinhos? Como foram as suas impressões?

MF: Participei de diversos rituais indígenas, em diferentes aldeias. Os rituais são momentos especiais e sagrados para os seus povos, onde eles celebram a vida, os ancestrais e pedem pela colheita, caça e pesca. Muitas vezes essas ocasiões duram uma noite inteira e só param quando o sol nasce, mas também pode continuar mesmo após o nascer do sol. Além disso, os rituais são agregadores e dele participam todas as gerações e você encontra na mesma roda desde os anciões, como adolescentes e crianças bem pequenas.

BV: Como foi para você trocar a cama pela rede, os carros pelos barcos e canoas e as estradas pelos rios?

MF: Foi muito mais fácil do que eu imaginei. Descobri com essa viagem pela Amazônia que o ser humano se adapta mesmo às situações mais adversas, seja por questão de necessidade ou de sobrevivência. Além do mais, trocar o carro pelos barcos e canoas traz uma sensação enorme de liberdade. Digo que as horas que passamos navegando valem por sessões e mais sessões de terapia ou algumas horas de meditação. E dormir em rede foi mais fácil do que imaginava. Atualmente, mesmo quando há a opção de um colchão, eu prefiro a rede.

Fonte: A Crítica

Deixe um comentário