Mudanças nas paisagens por hidrelétricas colocam em risco populações de aves na Amazônia

O evento reúne especialistas de diferentes áreas para criar um projeto multidisciplinar que vai gerar dados, já pensando em integrá-los, no futuro, com o objetivo de mudar o planejamento do uso do recurso hidrelétrico na Amazônia

Quando altera a heterogeneidade da paisagem, instalando uma hidrelétrica, por exemplo, podemos potencialmente criar uma barreira entre grupos de aves, que estavam anteriormente conectados. Isso pode transformar essas populações, levando-as a se extinguirem localmente ou para sempre. Os dados foram mostrados pelo pós-doutorando Alessandro Martensen, durante o Simpósio “História e diversificação de comunidades de aves de áreas alágaveis na Amazônia: subsídios para um plano integrado de conservação”, que acontece no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC) até nesta terça-feira (11).

O governo Federal projeta a ampliação da geração de energia via hidrelétricas, termelétricas e parques eólicos e para isso espera construir e colocar em operação 34 novas usinas hidréletricas até 2030. Destas, 15 seriam instaladas na Amazônia, todas com elevados custos socioambientais.

Segundo a coordenadora do evento, a pesquisadora do Inpa, Camila Ribas, o evento reúne especialistas de diferentes áreas para criar um projeto multidisciplinar que vai gerar dados, já pensando em integrá-los, no futuro, com o objetivo de mudar o planejamento do uso do recurso hidrelétrico na Amazônia para que não seja feito um uso sem pensar no impacto que se terá mais à frente.

“A ideia é gerar conhecimento agora para que se tenham subsídios que possam ajudar no planejamento de qual é o arranjo que terá um impacto menor para as aves que ocupam os ambientes alagáveis na Amazônia”, diz Ribas ao comentar que esses ambientes serão bastante impactados pelo modelo de barragens que tem sido utilizado atualmente.

O modelo se baseia em reservatório “fio d’água”, que não origina vastos lagos – como ocorreu em Balbina (AM), mas que impactam longas extensões de ambientes alagáveis. “Os reservatórios das usinas, que têm sido construídas recentemente na Amazônia são de um modelo que impactam as áreas alagadas”, diz a pesquisadora.

“É um impacto concentrado em ambientes alagáveis e esses impactos se dão com as perdas de habitats, com a fragmentação desse habitat dos organismos adaptados a esses ambientes e com a mudança nos padrões de segmentação desses mesmos ambientes e da sua dinâmica”, ressalta.

De acordo com Martensen, que foi um dos palestrantes do simpósio, no Auditório da Ciência, e é integrante do projeto – que leva o mesmo nome do evento, o grupo trabalha com áreas alagáveis que estão sendo impactadas pelo desenvolvimento das hidrelétricas na Amazônia. Nessas áreas, existe uma série de espécies de aves que são exclusivas desses ambientes alagáveis, que têm um dinamismo de conectividade entres eles.

“O que significa que os diferentes padrões de paisagens facilitam um indivíduo ir de um lugar para outro, mantendo os fluxos gênicos, os padrões evolutivos e a dinâmica das comunidades”, diz.

Para ele, a preocupação do grupo é entender esses padrões de conectividade e quais os potenciais impactos que o desenvolvimento hidrelétrico podem causar, isolando populações em ambientes que anteriomente eram conectados.

Sobre o Projeto

O projeto “Hystory and diversification of flood plain forest bird communities in amazônia: towards and integrated conservation plan” foi concebido considerando a potencial ameaça aos ambientes alagáveis representada pelo modelo de reservatório “fio d’água” que vem sendo construído atualmente.

Segundo Ribas, o projeto foi um dois projetos brasieliros selecionados no ciclo 5 da chamada Partnerships for Enhanced Engagement in Research / United States Agency for Internacional Development (PEER/USAID). Iniciado em dezembro de 2016, o projeto estende-se até dezembro de 2018.

Saiba mais

O programa Partnerships for EnhancedEngagement in Research (PEER) é patrocinado pela United States Agency for International Development (USAID) para fomentar parcerias entre pesquisadores de países em desenvolvimento e pesquisadores com projetos financiados pelo Governo Americano com o objetivo de realizar pesquisa e capacitação em tópicos com grande potencial de impacto sobre o desenvolvimento.

O projeto foi proposto pela Curadora da Coleção de Recursos Genéticos do Inpa, Dra Camila Ribas, e pelo Curador da Coleção de Aves do MPEG, DrAlexandre Aleixo, em parceria com o Curador da Coleção de Aves do American Museumof Natural History, Dr. Joel Cracraft. A equipe inclui os pesquisadores Fernando d’Horta (Inpa), José Maria Cardoso da Silva (Univ. Of Miami), John Bates (Field Museum of Natural History), Michael Harvey (Univ. Michigan), Sergio Borges (Ufam), Thiago Silva (Unesp), André Sawakuchi (USP) e Edgardo Latrubesse (Univ. Texas). Já estão envolvidos no projeto também pelo menos três alunos de mestrado, dois alunos de doutorado e dois pós-doutorandos.

Fonte: INPA

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