Encontro no ICMBio discute desmatamento na Amazônia

Instituto quer estreitar os laços com as ONGs para reforçar o monitoramento e combate a esse crime ambiental que torna o bioma amazônico um dos mais vulneráveis do mundo

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) reuniu-se com organizações não governamentais (ONGs) da área ambiental para debater estratégias de monitoramento do desmatamento na Amazônia. O bioma é um dos que mais sofrem pressão no mundo por conta da retirada ilegal de madeira e garimpo, entre outras ações humanas.

O evento, que ocorreu nessa terça-feira (30), na sede do ICMBio, em Brasília, contou com a participação do Instituto Socioambiental (ISA), Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), WWF, The Nature Conservancy e Greenpeace. A iniciativa foi da Coordenação Geral de Proteção (CGPRO), do Instituto Chico Mendes.

Durante o encontro, o Instituto e as ONGs firmaram o compromisso de promover o Fórum Permanente de Discussão de Monitoramento da Amazônia. O objetivo, segundo o coordenador-geral de Proteção do ICMBio, Luiz Felipe de Luca, é o de aproximar ainda mais o Instituto da sociedade civil organizada.

“Este momento (a reunião com as ONGs) foi importante para o nivelamento de informações e as perspectivas são de ampliar os debates, a capacitação e a melhoria na comunicação entre nós (ICMBio) e demais órgãos que também atuam no monitoramento”, explicou.

A ideia é se reunir a cada ano nos meses de maio (antes do período crítico de desmatamento) para debater estratégias de enfrentamento e, nos meses de novembro, para avaliação dos métodos implementados.

Áreas críticas

Ainda durante o encontro, o ICMBio e as ONGs avaliaram áreas críticas, como a BR 163 (no trecho Cuiabá-Santarém), a região conhecida como Tríplice Fronteira Amazônica (Amazonas, Mato Grosso e Rondônia) e a Terra do Meio (Pará), dentre outras. Posteriormente também haverá oficinas e acordos de cooperação entre ICMBio e ONGs para monitorar mais fortemente essas áreas.

As ONGs destacaram, também, a preocupação com o recente cenário na região do Jamanxim, no Pará, e apresentaram projeções de desmatamento com os limites estipulados pela Medida Provisória (MP) 756. O Ipam é um dos que atuam bastante na região. “Com a redução das áreas protegidas recentemente aprovadas, estamos perdendo também 700 milhões de dólares em créditos de carbono”, alertou a pesquisadora do Instituto, Vívian Ribeiro.

O Ipam trabalha com análises de multicritério para avaliar a vulnerabilidade espacial. De acordo com esse método, a distância de estradas, das sedes municipais, mineração, hidrelétrica e desmatamento no entorno são os principais fatores de risco. A região do Jamanxim apresenta todos eles. Esses dados serão lançados futuramente numa plataforma que congrega os indicadores nas unidades de conservação.

O Imazon também fez projeções com base na MP 756, aumentando a pressão sobre a área do Jamanxim. A organização identificou a evolução dessa pressão não só comparando as taxas de desmatamento mas cruzando com informações de ocupação humana com os dados do Cadastramento Ambiental Rural (CAR).

Desafio

“O nosso primeiro desafio é o de obter dados melhores, pois as imagens de satélites possuem muitas nuvens, o que dificulta as detecções vistas em campo”, disse a chefe da Divisão de Monitoramento e Informações (DMIF) do ICMBio, Kelly Borges. A DMIF é responsável pelo processamento e análise dos dados ambientais voltados à proteção.

Atualmente, a Divisão trabalha e divulga externamente os dados do Programa de Estimativa de Desflorestamento da Amazônia (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe). O Prodes realiza o monitoramento por satélites do desmatamento por corte raso na Amazônia Legal e produz, desde 1988, as taxas anuais de desmate na região, que são usadas pelo governo brasileiro para o estabelecimento de políticas públicas

“Os dados do Inpe são muito importantes pois nos subsidiam com informações, tornando possíveis a análise e a produção do material que entregamos às unidades, mas é importante ter outras fontes de dados para acrescentar às nossas análises”, ressalta Kelly. Já os dados do Sistema de Detectação de Desmatamento em Tempo Real (Deter), Deter A e Deter B, são processados e enviados para os gestores das unidades com a finalidade de alerta e apuração.

Práticas e metodologias

Uma das ferramentas mais utilizadas pelas ONGs é o Google Earth Engineer, que traz algumas vantagens como o processamento na “nuvem”, reduzindo a sobrecarga na máquina pois as imagens de satélite e radar costumam ocupar muito espaço, o que dificulta o download dos arquivos. O ISA é um dos que utilizam a ferramenta em conjunto com scripts (programas) que auxiliam na redução de nuvens das imagens obtidas pelo satélite Landsat 8 e do radar Sentinel.

“Estamos dando outra utilização desses scripts para acompanhamento em tempo real do desmatamento”, explicou o representante do ISA, Juan Doblas Prieto, visto que a ferramenta desenvolvida pelo Google é utilizada com mais frequência para finalidade acadêmica. O seu uso é gratuito.

O Imazon gera dados primários, também utilizando o Google Earth Engineer, na metodologia SAD (Sistema de Avaliação de Desmatamento) cruzando com outros dados como o Prodes. “Em todas as nossas análises procuramos apresentar e disponibilizar os dados para serem usados pelo governo e para outros parceiros”, afirmou o pesquisador do Imazon, Heron Martins. O Imazon também atua no risco de desmatamento, ou seja, a probabilidade de ocorrer o desmate.

A WWF atua em conjunto com a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. “Queremos fortalecer e consolidar as unidades de conservação como fatores que ajudam a combater o desmatamento diante do atual cenário”, disse a analista em geoprocessamento do WWF, Mariana Soares.

As organizações não governamentais trabalham com dados de fontes diversas e muitas vezes utilizam tecnologia ainda não disponível para os órgãos do governo. “É importante estreitar relações com as ONGs a fim de enriquecer as nossas análises mas também esperamos, num segundo momento, reforçar as relações com órgãos parceiros como o Inpe, Ibama, Serviço Florestal e Funai”, concluiu Kelly Borges.

Fonte: ICMBio

Deixe um comentário