Primeiro indígena formado em Antropologia pela UnB recebe prêmio por melhor monografia

O antropólogo Jósimo Constant, da etnia Puyanawa, recebeu o V Prêmio Martin Novion de Melhor Dissertação de Graduação do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB). O objetivo da premiação, que ocorreu no dia 23 de junho, é estimular novas carreiras e dar visibilidade à produção original e de grande qualidade acadêmica de pesquisas antropológicas desenvolvidas na graduação.

A monografia “A Terra é de Vocês e a Saúde Também! Compreendendo a Efetivação do Direito ao Território e a Saúde Entre os Puyanawa” ficou em primeiro lugar entre as defendidas em 2016 na conclusão do curso de Antropologia da UnB. “O meu objetivo era fazer um esboço da nossa história, principalmente nossas práticas médicas tradicionais e vincular isso com o período da colonização e período do cativeiro e chegar ao que hoje chamamos de Subsistema de Saúde Indígena, analisando como é a vida de um indígena que recorre a esse subsistema”, explica o autor. O trabalho busca compreender a visão dos Puyanawa em relação às políticas de Estado para efetivação do direito ao território e à saúde e o contexto de vida dos Puyanawa, incluindo as práticas médicas e os rituais xamânicos.

Para Constant, o Subsistema de Saúde Indígena só existe por causa das “sequelas” deixadas pela colonização. “O racismo, preconceito, alcoolismo e outras enfermidades contribuem para que recorramos a esse subsistema que ainda é tão precário”, avalia. “Na minha monografia, conto um pouco da vida do coronel Mâncio Lima (nome dado ao município acreano onde está localizada a Terra Indígena Poyanawa), que nos colonizou. Ele achava que estava nos fazendo bem, mas na verdade estava era aprisionando nosso povo e nos tornando escravos doentes, porque lá na floresta não tínhamos isso”, complementa, referindo-se às doenças surgidas com a colonização.

Vida acadêmica

josimo2Jósimo Constant veio do Acre para Brasília em 2012, quando passou no vestibular para a UnB. Participou de estágios, de projetos e de programas, como o de Iniciação Científica e o de Educação Tutorial. No início obteve auxilio financeiro da Funai, que à época firmava parcerias com universidades para apoiar os estudantes durante a graduação. Esse auxílio foi substituído em 2013 pela Bolsa Permanência, oferecida hoje pelo Ministério da Educação (MEC).

No 1º semestre de 2016, formou-se em dois bacharelados: Ciências Sociais e Antropologia, num período de apenas três anos e meio. Antes mesmo de defender a monografia de graduação, passou na seleção de mestrado em Direitos Humanos e está qualificando projeto sobre o Subsistema de Saúde Indígena de Mâncio Lima.

Além do mestrado, Jósimo ainda cursa uma terceira graduação em Sociologia, também na UnB, e prepara monografia sobre a Associação Agroextrativista Puyanawa.”Já estou pensando num doutorado, mas sempre com muita humildade e esforço e sempre valorizando a cultura do meu povo”, afirma o jovem Puyanawa.

Bolsa Permanência

Em maio de 2013, o Ministério da Educação criou o Programa Bolsa Permanência (PBP), por meio da Portaria nº 389, de 9 de maio de 2013. O Programa é uma ação do Governo Federal para concessão de auxílio financeiro a estudantes matriculados em instituições federais de ensino superior em situação de vulnerabilidade socioeconômica e para estudantes indígenas e quilombolas. O recurso é pago diretamente ao estudante de graduação por meio de um cartão de benefício.

Enquanto o MEC, em articulação com a Funai, trabalhava no desenvolvimento desse programa para o acesso de indígenas às políticas públicas do ensino superior, a Funai desenvolveu uma ação temporária de assistência aos estudantes indígenas fora de suas aldeias, considerando a grande demanda de estudantes indígenas. Essa assistência era concedida por meio de Termos de Cooperação e Convênios entre as Instituições de Ensino Superior (IES) e a Funai, com caráter provisório e temporário. Com a criação do PBP, do MEC, essa assistência foi encerrada na Funai.

Leia alguns trechos do depoimento de Jósimo Constant

Nasci em 1989, nos costumes tradicionais Puyanawa, nossa terra ainda não era demarcada e enfrentávamos muitas dificuldades. Fui muito doente na minha infância, já tive dermatite, várias malárias, muitas feridas pelo corpo, e sofri muito com a saúde bucal. Com cinco anos de idade me mudei para Cruzeiro do Sul com minha família porque minhas irmãs já eram maiores e na aldeia só tinha até o Ensino Primário.

Na cidade enfrentamos muitas dificuldades, mas meu pai conseguiu se formar na Universidade Federal do Acre (UFAC). Depois resolvemos voltar para aldeia para ajudar no fortalecimento da nossa cultura e logo comecei a lecionar aulas de inglês na aldeia na escola Itxubãy Rabuy Puyanawa e no ano seguinte na creche Adêbaiki. Fui convidado para lecionar aulas de inglês na maior escola do município de Mâncio Lima. Fiquei por lá até 2012, quando fiz o vestibular para UnB e fui aprovado. Vim para Brasília em outubro de 2012, a vida aqui não foi nada fácil, lutei muito, passei fome, encontrei dificuldades nas disciplinas, mas com tudo isso consegui participar de inúmeros programas da UnB, Bolsista de Iniciação Científica, Programa PET, Auxílio Moradia, Estágio na Funai e outros projetos.

A vida aos poucos foi melhorando e eu propagando nossa cultura Puyanawa. Consegui um feito inédito de fazer dois bacharelados em três anos e meio, formei no 1º semestre de 2016 em Ciências Sociais e Antropologia. Fui o 1º indígena formado em Antropologia pela UnB, defendi a monografia no Centro de Convivência dos Povos Indígenas/Maloca.

Antes mesmo de defender, passei na seleção de mestrado em Direitos Humanos e já estou qualificando com meu projeto sobre o Subsistema de Saúde Indígena de Mâncio Lima. Além do mestrado, ainda faço o bacharel em Sociologia na própria UnB, onde estou fazendo minha monografia sobre a nossa Associação Agroextrativista Puyanawa.

Meu objetivo (com o trabalho de final de curso de Antropologia) era fazer um esboço da nossa história, principalmente nossas práticas médicas tradicionais e vincular isso com o Período da colonização/período do cativeiro e chegar ao que hoje chamamos de Subsistema de Saúde Indígena, analisando como é a vida de um indígena que recorre a esse subsistema. Eu quis entender quando e como chegaram os serviços de saúde estatal para nosso povo, porque primeiro tínhamos que ter nossa terra demarcada para depois pode demandar pelos serviços de saúde estatais. Por isso, é o título da minha monografia.

O Subsistema de Saúde Indígena ainda é cheio de precariedade, por isso eu quis entender todo o processo, mas o Subsistema de Saúde Indígena só existe porque carregamos ainda os fortes traços das sequelas deixadas pela colonização. O racismo, preconceito, alcoolismo e outras enfermidades contribuem para que recorramos a esse subsistema que ainda é tão precário. O meu maior objetivo foi pesquisar e mostrar algo que ainda é totalmente desconhecido da realidade brasileira. Fiz muitas entrevistas, etnografia e muitas outras observações, pois ali seria um futuro antropólogo indígena pesquisando sobre nós mesmos e como está a nossa saúde.

Voltei para aldeia para fechar minha entrevista com nosso pajé Luís Puwê e ver todas as belezas que ainda temos e que devemos preservar, manter nosso povo unido, cultivando nossas ancestralidade para não recorrermos ao Subsistema de Saúde Indígena.

Por: Ana Heloisa d’Arcanchy
Fonte: Funai

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