O avanço da bancada ruralista é ruim para o País

Entre os “feitos” dessa turma estão a suspensão de demarcação de terras indígenas e o desmonte da Funai e do Incra. E como fica a agricultura?

Devo aos leitores do site duas notícias sobre a agricultura brasileira. Uma boa e outra ruim. Primeiro, a boa: estudo BNDES e Embrapa (título e autores já citados aqui) mostra a possibilidade de economizarmos mais de um bilhão de dólares anuais, caso se incentive o uso de resíduos orgânicos/organominerais na agricultura, reduzindo as maciças aplicações de agroquímicos, de que somos 80% dependentes de importação. A ruim: o avanço em número e força da ação deletéria da bancada ruralista no Congresso Nacional.

Há um potencial enorme de resíduos sólidos e líquidos provenientes dos setores sucroalcooleiro, bovinos de corte e leite, suínos e aves que, além de representarem passivos ambientais, incômodo para as sociedades rural e urbana, podem cobrir parte das necessidades de nutrientes das plantas.

Fora isso, outros materiais de constituição orgânica e origem natural hoje são fabricados de forma regionalizada, baixo custo, em processos de produção pouco complexos. Contra eles, apenas o jogo rasteiro da cadeia de produção de agroquímicos e o poder de massificação de suas tecnologias, o comodismo dos técnicos e agrônomos, o tradicionalismo do agricultor, e a pouca importância que têm com seus próprios bolsos.

Em 2017, o setor químico deverá entregar às lavouras perto de 35 milhões de toneladas de fertilizantes, o que representará faturamento de cerca de 50 bilhões de reais.

Até uns anos atrás, reconhecido como responsáveis pelo crescimento da produção sem necessidade de aumento proporcional de área, hoje em dia, sobretudo nas principais culturas, chega próximo ao seu teto, e a partir do qual, decresce em efetividade e cresce em custos por hectare plantado.

Daí ser natural a necessidade de redução em favor de materiais de origem orgânica e natural, como “resíduos de origem vegetal e animal, estercos, restos de cultura que permaneçam no campo, palhadas, folhas, cascas e galhos de árvores, raízes (…) insetos, fungos, bactérias e outros microrganismos benéficos já existentes no solo, ou adicionados como turfas e outros materiais de jazidas naturais superficiais ou subaquáticas como as algas marinhas ou os sedimentos calcários.

Lá embaixo a vida melhorará, enquanto aqui em cima teremos o pior dos Brasis de todas as épocas, com Temer e Meirelles vendendo o que nunca tivemos. Fui muito técnico? Sem problema. Vocês não dariam a mínima mesmo.

A bancada

Nos dicionários, pode significar “renque de bancos” ou “ato de banqueiros ganharem todas as paradas”.

Em dúvida, optei pelo primeiro significado depois de lembrar-me de um jogo disputadíssimo na várzea, ano 1972, entre os Leões da Mooca e o Prazeres de Perdizes, em que o massagista Paulo “Tronco Grosso” Galvão arrebentou 13 cabeças de leões com uma bancada.

Agora, temos a dos ruralistas (meus amores), da bola, dos evangélicos e da bala, com quem não ouso brincar. Eles perdem balas em nossas cabeças e não as encontram mais.

Eis que Michel Temer iniciou o mês de agosto se encontrando com membros da Frente Parlamentar Agropecuária, na Fiesp. Seu presidente, o deputado federal Nilson Leitão (PSDB-MT) declarou: “O setor econômico percebe um outro ar”. Para mim, peido.

Então vejamos, como se diz quando queremos explicar aos funcionários do chão-de-fábrica aquilo que eles sempre souberam, desta vez vindo de ruralistas no cerne da Avenida Paulista: “Inflação controlada, juros em queda, nada radical, mas avançamos”.

No mesmo dia, Michel Temer recebia ações que comprovavam ser um ladrão. Não houve PowerPoint, Paulista e Fiesp quietas. Os ruralistas: “Manter Temer, pelo histórico do que vem no último ano”.

São 200 deputados e 24 senadores que pensam coonestar a agropecuária brasileira e fazer-nos acreditar neles. São apoiados pelo ministro da Agricultura, Blairo Maggi, e Antônio Imbassahy, secretário do “governo” Temer.

Conseguiram com o golpe: suspensão de 19 processos de demarcação de terras indígenas; contrariar decisão do STF sobre a Raposa Serra do Sol; desmontar Funai e Incra em suas posições constitucionais; aprovar 2,5 mil hectares como Medida da Grilagem, usando casas em favelas como exemplo para a validação (10 metros quadrados?).

Greenpeace e outras ONGs contestaram, mas, como sabemos, elas defendem interesses norte-americanos. Então tá.

Vêm aí o marco regulatório para licenciamento ambiental. Destrói biomas, mas o ministério do Meio Ambiente aprova. A Febraban também. Gargalho.

Segundo a especialista de finanças para a sustentabilidade da FGV Annelise Vendramini estamos jogando fora recursos naturais formuladores de nossa competitividade no futuro.

Fuck! Certo, bancada ruralista?

Por: Rui Daher é colunista de CartaCapital. Criador e consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola. Ruidaher@yahoo.com.br
Fonte: Carta Capital

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