Indígenas brasileiros são consagrados mundialmente por preservação da Amazônia

No dia 17 de setembro duas associações indígenas brasileiras participavam de uma cerimônia em New York como vencedores do Prêmio Equatorial 2017 promovido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e que consagrou as 15 melhores iniciativas de solução sustentável para desafios voltados à proteção e promoção de pessoas, comunidades e do meio ambiente. Duas associações indígenas brasileiras no topo do mundo por desenvolverem projetos de desenvolvimento sustentável na Amazônia brasileira. E pouco se falou sobre isso por aqui.

Criado em 2002, o concurso bianual recebeu mais de 800 inscrições de 120 países. Os vencedores brasileiros foram a Associação Ashaninka do rio Amônia, da aldeia Apiwtxa, localizada no estado do Acre na fronteira com o Peru, e também a Associação Terra Indígena Xingu (Atix), que está localizada no estado do Mato Grosso. Cada um recebeu dez mil dólares para serem investidos na continuidade dos trabalhos.

Em tempos de retrocesso contra os povos indígenas, nunca é demais lembrar que as áreas de floresta dentro das Terras Indígenas estão mais protegidas do que em locais não-demarcados. E esse prêmio é capaz de mostrar ao mundo aquilo que muitas vezes o Brasil não enxerga.

Oficina de apicultura na terra indigena Wawi, no Xingu. Crédito: Kamikia kisedje

Já a Atix foi premiada por ter proporcionado que diversas comunidades produzam, conjunta e anualmente, cerca de duas toneladas de mel orgânico certificado. Fundada em 2004, a entidade conta, há anos, com a parceria do Instituto Socioambiental (ISA) no projeto que envolve cerca de 100 apicultores de 39 aldeias dos povos Kawaiwete, Yudja, Kisêdjê e Ikpeng.

Não tive a chance ainda de conhecer a Atix, mas na Apiwtxa estive três vezes em um ano em momentos diferentes. Lembro bem da primeira entrevista que fiz com Moisés Piyako (clique para ler), uma das lideranças, sobre como eles atuavam para protegerem a floresta. E Moisés contou sobre o trabalho realizado com a comunidade ribeirinha que vive no entorno da Terra Indígena, na Reserva Extrativista Alto Juruá, a primeira criada no Brasil após a morte do líder seringueiro Chico Mendes.

Índios Ashaninka durante intercâmbio na aldeia Apiwtxa em comemoração de 25 anos de demarcação da TI

Naquele momento não entendi porque atuar fora da área demarcada com o reflorestamento se a própria terra deles já estava garantida. Não com essas palavras que escrevo agora, ele respondeu que isso era necessário porque quando os não-índios percebessem que área degradada não traz sustento e nem renda, a terra Ashaninka poderia estar ameaçada. Portanto, é prudente ensinar para quem não sabe que o melhor mesmo para uma comunidade se manter sustentável é manter a floresta em pé.

E foi então que entendi o porquê de os povos indígenas serem considerados verdadeiros guardiões da Amazônia. Que esse prêmio em reconhecimento ao trabalho dos nossos povos originários e outras iniciativas que acontecem dentro de terras indígenas por toda a floresta sejam um alento da esperança que nos falta. Da nossa parte, só nos resta aprender e nos aliar a eles na luta pela preservação da Amazônia.

Mulheres Ashaninka na aldeia Apiwtxa: kusma é a roupa tradicional desse povo

Fonte: Eu na Floresta/ O Estado de São Paulo

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