Qual é o caminho para obter produtividade com sustentabilidade na pecuária?

Nos últimos anos, muito tem se falado sobre a necessidade do aumento da produtividade nas fazendas de corte brasileiras associado com o tema sustentabilidade. A palavra “sustentabilidade” apresenta diversas definições, mas na pecuária, o significado dessa palavra pode ser traduzido como o uso racional dos recursos naturais e do manejo com os animais, visando uma melhoria nos aspectos produtivos da fazenda.

Essa preocupação se dá pelo crescente aumento populacional e também pela pressão de uma população mais interessada na origem dos animais e dos sistemas produtivos em que os animais foram criados, que por sua vez, faz com que as atividades agropecuárias busquem a intensificação de maneira sustentável e racional.

Sabemos que existem diversas tecnologias e/ou ferramentas disponíveis que podem ajudar a atingir o status de sustentabilidade acima discutido. Mais especificamente para os ruminantes, e seguindo esse sentido, quais as ferramentas nutricionais disponíveis para atender a essas exigências do mercado?

Nesse artigo, discutiremos a utilização de uma tecnologia que possui a característica de aumentar a produtividade do rebanho, associado com o aspecto sustentável, incluindo a preocupação com a utilização racional dos recursos naturais e os efeitos para com o meio ambiente.

A tecnologia a ser apresentada em questão é o aditivo ionóforo, comumente utilizado nas dietas de gado a pasto e de confinamento do Brasil (Millen et al., 2009). É importante salientar que os aditivos ionóforos não são moléculas de uso comum entre os animais e os seres humanos, não sendo sujeitas aos questionamentos relativos à resistência antimicrobiana, tanto como em seu uso como promotor de crescimento, como no terapêutico dentro do rebanho, de acordo com a sua indicação de bula (WHO, 2016). Dentre os aditivos ionóforos, destacamos a monensina, narasina, salinomicina e lasalocida.

Esses produtos apresentam como principais benefícios a alteração na fermentação ruminal, favorecendo a produção de propionato, diminuindo a produção de acetato e butirato e também uma diminuição na proteólise ruminal que, invariavelmente irá diminuir a excreção de compostos nitrogenados através das fezes. Dada essa alteração na fermentação ruminal, os animais que recebem uma dieta contendo esses aditivos apresentam melhoria nas taxas produtivas, tais como ganho de peso diário (GPD), conversão alimentar (CA) e saúde ruminal/intestinal. Especificamente para o último ponto, a associação “sustentabilidade × produtividade” chama atenção, já que menos tratamentos com antibióticos/fármacos serão utilizados no sistema produtivo, resultando em maior qualidade dos produtos de origem animal.

Como resultado desse aumento nas taxas produtivas proveniente da utilização de aditivos ionóforos, a operação pecuária acaba tendo um giro produtivo e econômico mais rápido. Isso significa que o produtor consegue encurtar o período da recria e/ou engorda no confinamento e à pasto. Entretanto, outro ponto pouco discutido e aproveitado de algumas dessas moléculas (ex., monensina) é o aspecto ambiental. Em relação ao aspecto ambiental, podemos abordar de diversas maneiras, incluindo a economia de matérias-primas (ex., milho, soja, etc) utilizadas e oferecidas ao rebanho, o consumo de água que é extremamente relevante na produção pecuária, assim como a produção entérica de metano (CH4).

Mais especificamente, a alteração ruminal favorecendo a produção de propionato, com a subsequente redução de acetato e butirato, resultará em uma menor produção do gás metano. Isso se dá pelo fato de que íons de hidrogênio são liberados durante a produção ruminal de acetato e butirato, enquanto que esses mesmos íons são utilizados no processo produtivo de propionato. O metano é um gás envolvido no aquecimento global, sendo 25 vezes mais potente do que o dióxido de carbono (CO2; Forster et al., 2007) e altamente relacionado com a produção pecuária. Portanto, é interessante utilizarmos uma tecnologia que diminua a produção ruminal de metano.

O mecanismo pelo qual o ionóforo (ex., monensina) diminui a produção de metano ainda é questionado, com algumas linhas de pesquisa mostrando que essa molécula inibe diretamente a ação das bactérias metanogênicas ruminais, enquanto outras mostram que a inibição na produção de metano é pela escassez da disponibilidade dos íons de hidrogênio para serem utilizados na produção de metanogênese. Independentemente do processo, a afirmativa que pode ser feita é que a monensina pode ser utilizada, de maneira segura, na alimentação animal para otimizar a fermentação ruminal e diminuir a produção de metano, melhorando assim, os aspectos de sustentabilidade da pecuária.

Em resumo, esse artigo teve como objetivo apresentar uma das diversas tecnologias disponíveis na pecuária para melhorar os aspectos produtivos do rebanho, sem deixar de lado a preocupação ambiental dos sistemas de produção pecuária. Os ionóforos são moléculas mais do que comprovadas na literatura e a campo que apresentam a capacidade de aumentar a produtividade do rebanho (GPD e CA), assim como diminuir a produção de metano.

O GTPS, que completa 10 anos de atuação em 2017, está promovendo o desenvolvimento de uma série de artigos para mostrar o atual cenário da pecuária brasileira, o que mudou na atividade nos últimos dez anos e qual a influência do GTPS nestas mudanças. Acompanhe!

Forster et al., 2007. Climate Change 2007. Cambridge, UK.

Millen et al., 2009. J. Anim. Sci. 87:3427-3439.

WHO, 2016. Critically important antimicrobials for human medicine. 5th Revision.

Por: Bruno Ieda Cappellozza, Ph. D., Consultor Técnico de Nutrição de Bovinos da Elanco Saúde Animal
Fonte: GTPS

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