Alto Rio Negro em estado de alerta devido à intensa estiagem

Simultaneamente à seca, comunidade indígena Baniwa registra chuva de granizo nunca antes vista na região

Longa estiagem inviabiliza a navegação no Alto Rio Negro (19/3)| Juliana Radler-ISA

O comunicador indígena Plínio Baniwa, morador da comunidade de Tunuí Cachoeira, no Alto Rio Içana, enviou uma mensagem ao grupo de WhatsApp da Rede de Comunicadores Indígenas do Rio Negro, alertando para um fato inédito ocorrido em sua comunidade: “Uma chuva de gelo, com duração de 10 minutos, caiu às 17 horas do sábado, dia 17 de março. Essa foi a primeira vez que ocorreu essa chuva de gelo, segundo os nossos velhos conhecedores”, escreveu.

A inédita chuva de granizo que caiu na comunidade indígena Baniwa ocorreu um dia depois da Defesa Civil emitir uma nota pública decretando “Estado de Alerta” para os três municípios da calha do Alto Rio Negro devido à forte estiagem. O Centro de Monitoramento e Alerta (Cemoa) do órgão, afirmou que a região enfrenta um déficit significativo de chuvas, refletindo diretamente no nível do Rio Negro em Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e em São Gabriel da Cachoeira.

“Ao contrário do que está acontecendo no sul do Amazonas, que apresenta precipitações acima do normal, na região do Alto Rio Negro há uma severa estiagem”, informou o secretário adjunto da Defesa Civil do Amazonas, Hermógenes Rabelo, em comunicado divulgado à imprensa.

O Estado de Alerta é o segundo estágio em caso de desastre natural e é decretado para preparar as defesas civis e autoridades municipais para atuar de forma efetiva em uma situação emergencial. Neste mês de março, segundo a Defesa Civil, foi observado 79mm de precipitação, 29% abaixo do esperado para a primeira quinzena, que era de 112 mm de chuvas. A Rede de Monitoramento da Agência Nacional de Águas informou que no último dia 13 foi registrado o nível de 4,76 metros, faltando apenas 1,46m para atingir a mínima histórica de 1992, que foi de 3,30 metros.

Plínio Baniwa, assim como outros moradores de Tunuí Cachoeira, espantou-se com a chuva de granizo. Além de inédita, ela caiu de forma intensa em um momento de forte estiagem no noroeste amazônico. “Mudanças climáticas ao vivo na nossa comunidade”, escreveu Plínio, que integra uma Rede de 17 comunicadores indígenas na região do Rio Negro. (veja no final do texto os vídeos que ele enviou).

A Rede de comunicadores é responsável por divulgar informações relacionadas às Terras Indígenas e é ligada à Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn). Nas redes sociais dos moradores de São Gabriel da Cachoeira, pessoas postam fotos do rio secando a cada dia, assim como de incêndio florestal devido à mata seca, como o ocorrido na Serra do Padre, na Terra Indígena Yanomami, na região de Maturacá. O incêndio teria sido provocado por um raio e causou espanto aos moradores, pois as altas taxas de umidade da região normalmente não permitiriam que tal incêndio ocorresse.

Emergência em Pari-Cachoeira

Um dos distritos mais populosos da Terra Indígena Alto Rio Negro, Pari-Cachoeira, está em situação emergencial, de acordo com a Cipac (Coordenação Indígena de Pari-Cachoeira). No último dia 14/3, professores, lideranças e moradores se reuniram no Ginásio da Escola Estadual Dom Pedro Massa para uma assembleia no qual aprovaram documento encaminhado às autoridades competentes. A população indígena da região, que soma 4.290 pessoas (827 famílias) solicita que o PAA (Plano de Apoio Aéreo da Amazônia) seja acionado para atender às necessidades básicas da população. “O Rio Tiquié tornou-se inavegável devido ao forte verão”, escreveram as lideranças indígenas.

Falta de água na área urbana

Em São Gabriel da Cachoeira, onde o Instituto Socioambiental (ISA), mantém sede, a situação da estiagem causou interrupção no fornecimento de água para o município. A Cosama (Companhia de Saneamento do Amazonas) comunicou que a bomba não estava mais conseguindo captar água do Rio Negro para levar aos reservatórios municipais. Com isso, funcionários da empresa trabalharam na manhã dessa segunda-feira, 19/03, para ampliar em 30 metros o cano em direção ao centro do rio e, assim, tentar normalizar o bombeamento de água para os moradores da cidade.

Funcionários da Cosama, em São Gabriel da Cachoeira, junto à precária balsa onde fica a bomba que puxa água do Rio Negro para o abastecimento da cidade, 19/3| Juliana Radler-ISA

Acidente levou 3 mil litros de óleo ao Rio Negro

A seca no Alto Rio Negro torna a navegação perigosa ou mesmo impossibilita que barcos naveguem na região. No último dia 10/3, uma balsa que levava óleo diesel para abastecer a termelétrica de São Gabriel da Cachoeira, bateu em uma pedra e derramou aproximadamente 3 mil litros de combustível no rio, segundo informações do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). O acidente ocorreu em Santa Isabel do Rio Negro e foi aberto um inquérito para investigar as causas, circunstâncias e responsabilidades do acidente no Comando do 9° Distrito Naval.

Veja os vídeos enviados por Plínio Baniwa

Por: Juliana Radler
Fonte: ISA

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