Pesquisadores registram acasalamento de peixes-bois-da-amazônia

Os pesquisadores acreditam que as imagens mostram um grupo de pelo menos quatro machos disputando espaço para acasalar com uma fêmea, um registro inédito do comportamento reprodutivo do peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis) em vida livre. As imagens foram feitas no Lago Mamirauá, interior do Amazonas, em junho de 2015, mas só divulgadas agora que o relato foi publicado no Latin American Journal of Aquatic Mammals, pelos pesquisadores do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

“Dava para ver que era uma fêmea, que se movimentava mais, e os machos, que ficavam em torno dela”, conta a bióloga Camila de Carvalho, do Instituto Mamirauá e responsável pelo registro. “A gente viu bem de perto, de uns dez metros de distância. “Várias vezes a gente viu a tentativa dos peixes-boi de abraçar a fêmea com a nadadeira, por baixo. Às vezes, via abraçando lateralmente também”, completa.

A pesquisadora conta que a maior parte das informações sobre comportamento reprodutivo de peixes-boi vem de pesquisas realizadas com animais marinhos na Flórida (Estados Unidos) ou com a espécie encontrada na costa brasileira. Sobre a espécie amazônicas, as informações vêm principalmente de ribeirinhos.

Segundo os estudos, a monogamia não é um comportamento típico dos peixes-bois-da-amazônia. Durante o período reprodutivo, um bando de machos se reúne ao redor da fêmea. Eles tentam montar e abraçá-la pela parte traseira e alcançar o abdômen. Esse comportamento é conhecido pelos ribeirinhos, que dão a ele o nome de “cavalgação”, “cavalgaria” ou “vadiação”.

Mas os cientistas querem conhecer mais sobre esse comportamento e responder como os machos reconhecem que a fêmea está pronta para a reprodução e se os locais de acasalamento são constantes.

O primeiro a ver a cena foi o zelador de base flutuante, Arílson Lopes. “Era mais ou menos seis da manhã e eu vi tudo de perto. Eles estavam ‘de bubuia’ (relaxados), então logo eu reconheci”, contou à assessoria de comunicação do Instituto Mamirauá. Lopes nunca tinha visto antes peixes-boi de tão perto. E nem se comportando assim.

Camila de Carvalho lembra que os animais não se afastaram ou se esconderam, mesmo com a aproximação da canoa, o que permitiu que fossem observados durante aproximadamente trinta minutos e filmados. Ela diz que é muito difícil observar peixes-bois-da-amazônia em ambiente natural, pois eles têm comportamento discreto e as águas escuras e turvas dificultam a visão. Com base no tempo em que os animais demoravam para subir a superfície e respirar, os pesquisadores calcularam que além da fêmea havia o mínimo de quatro machos.

“A atual situação das populações de peixes-boi amazônicos é desconhecida pelos pesquisadores, porque ainda não existe um método de contagem apropriado eficiente para um estudo de estimativa populacional da espécie”, afirma pesquisadora, bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

O peixe-boi-da-amazônia é considerado vulnerável à extinção pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, em inglês). Em comparação com o primo que vive no mar, tem um tamanho menor, com até três metros de comprimento, além de manchas brancas na região ventral e não possui unhas nas nadadeiras peitorais, diferente do marinho, que possui unhas.

A população de peixes-boi nos rios da Amazônia quase foi extinta devido à caça, para consumo da carne, uso da gordura e também do couro. Embora a IUCN indique que a população da espécie esteja em declínio, Camila de Carvalho afirma que é não é possível afirmar qual a situação atual dos peixes-bois-da-amazônia, devido às dificuldades de monitoramento.

“A área de distribuição do peixe-boi é muito grande”, argumenta. “Ainda que tivesse uma estimativa para aquela região, a gente não sabe o deslocamento do bicho. É muito difícil estudar ele, tanto o comportamento quanto a área que ele ocupa”.

Veja o vídeo:

Por: Vandré Fonseca
Fonte: O Eco

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