Sem fiscalização e refeição de 1 milhão de bolívares: a vida na fronteira da Venezuela

Posto de fronteira da cidade de Santa Elena de Uairén, na Venezuela

“Aqui é outro mundo.” É desta forma que o jovem Joisler, atendente de um restaurante em Santa Elena de Uairén, na fronteira do Brasil com a Venezuela, descreve o que representa a fartura de alimentos e produtos na cidade quando comparada com o resto do país. “Se você segue adiante, há fome.”

A conversa informal ocorreu em meio ao grande movimento do restaurante, que está anexo a um hotel da cidade, no centro de Santa Elena. No lugar, muita gente aguardava para almoçar uma das duas opções oferecidas: arroz ou macarrão, com guisado de frango ou porco, salada de repolho e pão. Dois pratos e uma garrafa de Coca-Cola, produzida na Venezuela –e não trazida do Brasil–, custaram R$ 40.

Segundo Joisler, as refeições custariam 1.120.000 bolívares –pouco menos do que todo o novo salário mínimo anunciado pelo presidente venezuelano, Nicolás Maduro, nesta semana: 1.307.646 bolívares com o auxílio alimentação dado pelo governo. Na cotação oficial, o salário equivaleria a cerca de US$ 30 –no mercado paralelo, que é usado pelos venezuelanos, o mesmo salário não chega a US$ 6.

A proximidade com a fronteira brasileira e as áreas de garimpo de ouro na região explicam como Santa Elena de Uairén consegue viver em seu mundo paralelo, longe da fome e da miséria que assola a Venezuela. Joisler diz ainda que a grande entrada de reais e dólares nos estabelecimentos da cidade ajudam a sustentar a economia.

A crise venezuelana parece passar longe das muitas pessoas que aguardam por uma mesa desocupada para comer: casais e famílias que aproveitam o almoço de domingo. Um único funcionário corre para atender aos que se sentam, levando talheres e refrigerantes.

Para pagar sua refeição e recarregar o celular, uma mulher pega um bolo de dinheiro com notas de 500 e 1.000 bolívares –a pilha de notas chega perto de uns 10 centímetros. Notas que, com a hiperinflação que atinge o país, não valem quase nada.

Macarrão com guisado de porco servido em restaurante em cidade na fronteira. Foto: Talita Marchao/UOL
Por conta da forte repressão aos jornalistas promovida pela Venezuela, a equipe do UOL esteve na cidade sem identificações de imprensa e equipamentos de cobertura, como se fosse apenas fazer turismo. No centro da cidade, nos arredores de um posto de informações turísticas –a região é famosa por ecoturismo e rota para quem segue até o Monte Roraima–, há um quartel militar.

Desabastecimento não existe nos comércios locais

Nos pequenos comércios da região central são vendidos os produtos básicos. As pequenas vendas sinalizam com cartazes que “sim, há frango”, exibem o charque e a carne vermelha na entrada dos comércios. As padarias têm diversos tipos de pães doces e salgados.

A cidade tem ainda grandes supermercados e duas grandes lojas no esquema “free shop” na avenida em que a estrada que vem de Pacaraima, do lado brasileiro da fronteira.

Ao visitar Santa Elena do Uairén, um “pueblito” (cidadezinha), como descreve Joisler, fica difícil imaginar que o local se transformou na porta de saída da Venezuela para o Brasil. Estima-se que, diariamente, cerca de 700 pessoas cruzem a fronteira em Pacaraima.

O jovem diz que Santa Elena é uma cidade de “passagem”, que o objetivo dos venezuelanos é chegar ao Brasil, e não necessariamente morar no lado venezuelano.

A praça central da cidade compartilha o mesmo nome com a praça de Boa Vista em que mais de mil venezuelanos estão acampados, fugindo do país: Simón Bolívar, com a imagem do homem que comandou as revoluções que libertaram os países sul-americanos como Venezuela, Colômbia, Equador, Bolívia e Peru. A praça estava lotada, com muita gente sentada, e havia dezenas de carros estacionados.

Ali perto, em vez da pelada de futebol de domingo, um grupo jogava beisebol, apesar da chuva que caía –o esporte é famoso no país e tem grandes nomes na principal liga americana.

Fronteira sem fiscalização

A equipe do UOL não precisou apresentar qualquer documento para entrar ou sair da Venezuela. Na aduana de Santa Elena, um militar apenas olhou para dentro do carro por poucos segundos e permitiu a entrada no país. Na saída, rumo a Pacaraima, o veículo com placa brasileira não foi parado nem para a checagem.

O trânsito livre entre as duas cidades não é algo incomum. Cidadãos brasileiros costumavam abastecer os carros com gasolina venezuelana, que era muito mais barata. Hoje, apesar da relativa prosperidade de Santa Elena, os moradores da cidade buscam ajuda no sistema de saúde de Pacaraima, já que os hospitais venezuelanos carecem de insumos e medicamentos. As duas cidades ainda compartilham o que se chama de “fronteira seca”, onde é possível atravessar caminhando sem qualquer impedimento.

No lado brasileiro, Pacaraima –apesar de ser uma cidade menor– parece ter mais infraestrutura do que a vizinha venezuelana. E não é preciso circular muito pelo lado brasileiro para notar as placas dos carros –a maior parte venezuelanos– e o idioma espanhol falado nas ruas. Em Santa Elena, poucos carros brasileiros foram vistos pela reportagem.

A viagem entre as duas cidades dura cerca de 15 minutos, em uma estrada em boas condições. No caminho, há pequenas comunidades indígenas e instalações militares venezuelanas.

No lado brasileiro, quem não pretende pedir refúgio ou residência no Brasil, entra e sai livremente de Pacaraima –principalmente para compras e atendimento médico. As grandes filas na fronteira são para os que precisam da permissão de entrada –o documento é apresentado para a Polícia Federal em Boa Vista (distante 215 km de Pacaraima), onde os venezuelanos dão entrada nos papéis para viver no país.

Mas sair de Pacaraima para a capital de Roraima exige mais uma fiscalização: há policiais e militares em um posto onde fica a Delegacia da Receita Federal, onde policiais federais e soldados fazem a checagem de documentos, carros e bagagens. Se não estiver regularizado, o venezuelano não continua a viagem.

Fonte: UOL

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