Amazônia: ouro verde

Um anúncio de grife de luxo chama a atenção – “Qual foi a última vez que você sentiu a alegria da primeira vez?” Aquela gosto de felicidade, sabor de ineditismo, do coração pular quase para fora da boca. Foi mais ou menos assim – não sei se bem nesta ordem de sentimentos – que estive na Amazônia pela primeira vez. Anos 80, jornalista novata, mas sempre aguerrida, na faixa de 20 e poucos anos, uma emoção arrebatadora de poder, finalmente, realizar o sonho de cobrir uma matéria na Amazônia.

Trabalhava aqui no “Jornal do Brasil”, na Editoria de Economia, e integrei comitiva de jornalistas convidada por grupo nacional que desenvolvia projeto moderno de mineração de ouro no Amapá. De lá, em um avião pequeno, bimotor para a selva. Mata fechada mesmo. A Amazônia, vista do alto, me lembrou uma grande plantação de brócolis gigante. Que maravilha! Esta sensação de primeira vez. Genial. A matéria foi inesquecível, amizades de toda a vida. Na volta para a capital, uma grande “tromba de chuva” teimou em balançar e provocar solavancos no bimotor pequeno, mas resistente. Sobrevivemos e estamos aqui para contar a história. Aprendi logo que a floresta tem seus caprichos e segredos. A chuva, as gigantescas árvores e a terra são destes para serem respeitados.

Voltei à Amazônia um sem-número de vezes. Cada vez para um diferente ponto, com nova e inesquecível missão/pauta. Um aprendizado quando se trata desta região: há várias Amazônias dentro da Amazônia. Conheci Xapuri, no Acre, onde Chico Mendes foi assassinado, a experiência de energia solar para ribeirinhos; naveguei pelas águas escuras dos afluentes do Rio Amazonas até chegar à Reserva Uatumã (AM), onde estava sendo implantada uma primeira escola; estive várias vezes no Sul do Pará, conhecendo bem a Serra de Carajás e ainda estive em Serra Pelada já no seu fim; balancei ao vibrante ritmo dos bois-bumbá na incrível Ilha de Parintins (AM); singrei pelo Rio Cristalino, no norte do Mato Grosso….enfim, foram tantas experiências…tantas, que não conseguiria aqui enumerá-las.

Amazônia tem gosto de Brasil-brasileiro. Tem sabor de “primeira-vez”. Um povo simpático e de um conhecimento secular: comidas, bebidas e uma biodiversidade tão própria. Plantas são remédios cobiçados por grandes grupos globais (recomendamos a leitura de matéria da nova Edição 61 de Plurale sobre o tratamento alternativo para a Leishmaniose com pomada de árvore nativa) e as riquezas da floresta são tantas que nem em outras vidas conseguiremos mapeá-las. Não bastassem as diversas ameaças reais à Amazônia – desmatamento, grilagem, mineração, pecuária, hidrelétricas gigantescas, etc – eis que agora surge mais uma. Que parece até ser uma brincadeira de mau-gosto, como as de 1º de abril, data de hoje que não guarda boas memórias.

Projeto de Lei do Senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), PLS 626/2011, que poderá ser votado a qualquer momento pelo Senado, planeja autorizar o plantio de cana-de-açúcar na Amazônia Legal, o que é proibido há nove anos. O zoneamento da cana, aprovado por decreto em 2009, autoriza a expansão do cultivo em 70 milhões de hectares. Isso é dez vezes mais área do que a expansão projetada da lavoura até 2020. Portanto, não falta terra para plantar cana de forma sustentável.

O argumento do Senador é que serão usadas apenas “áreas degradadas” e que irá gerar emprego e renda para os povos locais. Mas não se iludam. Por trás deste PLS e de outros tantos movimentos está um projeto de desenvolvimento para Amazônia que volta e meia ressurge no horizonte como as “trombas de chuva” que assustaram a jovem jornalista-foca no pequeno avião sobrevoando a floresta. Avançar sobre o nosso “ouro verde”, verdadeiro pulmão do planeta, com a intenção de criar alguma atividade econômica, que se pretende “sustentável”. Sem perceber que maior tesouro é justamente viabilizar a preservação com geração de riqueza, a chamada economia de baixo carbono. É este, sem dúvida, o caminho que poderá distinguir o Brasil do Século 21 , protetor de suas florestas, seus povos e suas terras, de iniciativas arcaicas. Iniciativas premiadas como projetos de compensação de carbono; de preservação de árvores nobres; de valorização do ribeirinho em troca de bolsa-floresta; de turismo comunitário; de biocosméticos (temos matéria sobre o assunto também nesta Edição de Plurale); de artesanato indígena; de criação de peixes nativos da região em áreas degradadas ou outras tantas soluções criativas.

Acredite se quiser, mas nem mesmo os produtores de cana-de-açúcar defendem o projeto. A União da Indústria de Cana de Açúcar (Única) rejeita a proposta por considerar que traz riscos aos biocombustíveis e ao açúcar brasileiros no mercado internacional. Protestos de todos os lados, unem ambientalistas e especialistas daqui e de outros países. ONGs relevantes, como Observatório do Clima, Instituto SocioAmbiental, Greenpeace Brasil, WWF-Brasil etc, acabam de divulgar nota de repúdio para tentar derrubar a iniciativa. A Science, segunda revista científica do mundo em termos de impacto, apenas superada pela Revista Nature, também publicou carta sobre o tema.

O advogado Maurício Guetta, do Instituto Socioambiental (ISA), conversou aqui com o Jornal do Brasil. “Não vemos qualquer razão que justifique a existência desse Projeto de Lei. Não apenas ambientalistas, mas também o setor de cana é contra a proposta. Além disso, pelo zoneamento agroecológico da cana, a expansão do plantio de cana pode ser feita em mais de 60 milhões de hectares fora da Amazônia, fato que reforça a ausência de motivo que ampare o projeto de lei”, explicou.

Adverte que poderá haver impacto severo também nas intrincadas negociações climáticas. Maurício Guetta alerta para os perigos por trás do PL. “ Permitir o plantio de cana é impor grave ameaça à Amazônia, visto que resultaria em acrescentar mais um importante motor para o desmatamento. No mais, como o Brasil tem sua meta do acordo de Paris vinculada a, entre outros fatores, na produção sustentável do etanol como biocombustível, eventual aprovação do projeto de lei distanciaria ainda mais o País do cumprimento de suas metas.” Ou seja, traduzindo em bom português: poderá “ser um tiro no pé”.

Quem vai à Amazônia com frequência sabe que há muito – muito realmente – para ser preservado e repensado. A ideia de “integrar para não entregar” –ficou para trás, mesmo nestes tempos de verde-oliva voltando ao noticiário. O ribeirinho é, sem dúvida, o elemento-chave neste processo de resistência. E nós, homens e mulheres do bem – mesmo aqui nas selvas-de-aço, que desejamos preservar e ver o Brasil como uma potência no cenário global pelo desenvolvimento sustentável – resistiremos.

(*) Sônia Araripe é Editora de Plurale (www.plurale. com.br), revista e site com foco em sustentabilidade. Email: soniaararipe@plurale.com.br

Fonte: Jornal do Brasil

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.