Amazônia: é tempo para uma nova visão

Há que modernizar plano de infraestrutura da região

Quase como algo cronometrado, volta à tona a ideia de asfaltar os últimos 300 quilômetros da rodovia de Porto Velho a Manaus, a BR-319 –desta vez por meio de uma possível medida provisória que a isentasse de uma revisão ambiental.

Em vez de implementar à força uma ideia que foi mal pensada desde o início, essa proposta deveria ser aproveitada como uma oportunidade para modernizar os planos de infraestrutura para a Amazônia. Isso possibilitaria uma abordagem sustentável ao desenvolvimento e um futuro melhor não apenas para os habitantes da região amazônica, mas para todos os brasileiros.

Quase todos os planos de infraestrutura amazônica foram traçados meio século atrás; datam do momento em que o Brasil reconheceu, corretamente, que precisava afirmar uma presença maior nessa vasta região. De lá para cá aprendemos muito sobre a Amazônia, e o que aprendemos precisa ser incorporado ao design de uma infraestrutura sustentável.

Em primeiríssimo lugar, graças aos pioneiros pesquisadores brasileiros Eneas Salati, Carlos Nobre e outros, aprendemos sobre o ciclo hidrológico da Amazônia, por meio do qual ela cria metade de sua própria precipitação pluviométrica. Ela também contribui com umidade para a agricultura e em áreas muito ao sul da grande floresta. A conclusão lógica e inescapável é que isso precisa ser administrado como um sistema.

A chave para a proteção do precioso ciclo de umidade é a manutenção de 80% da floresta –e sua ampliação, com a ajuda de algum reflorestamento prudente. É a única maneira de evitar o ponto de inflexão amazônico, agora preocupantemente próximo, que ressecaria as partes sul e oeste da Amazônia.

As consequências seriam negativas para a floresta e sua biodiversidade, para a população, para os interesses agrícolas ao sul e para o sistema climático continental.

Agora é hora de perguntar: todas essas rodovias planejadas são realmente necessárias? Poderiam elas em alguns casos ser substituídas pelo transporte fluvial, que tem sido o sistema de transporte tradicional? E, onde uma estrada é um imperativo, ela pode ser projetada de modo sustentável?

Os últimos 300 km da BR-319 não foram asfaltados por um bom motivo: ficam em uma região baixa e úmida, convertendo sua construção e manutenção em um pesadelo. Se existe realmente uma necessidade imperativa da estrada, então ela deve ser redesenhada como via elevada, como a Imigrantes na região da mata atlântica.

Os impactos no solo equivaleriam a 2,5% dos de uma rodovia de design tradicional, e os custos de manutenção seriam dramaticamente mais baixos pelo fato de se tratar de uma estrutura de concreto. A contabilização dos custos totais indicaria que a alternativa elevada seria altamente preferível.

Os projetos de energia hidrelétrica também precisam ser modernizados e retraçados. O fato de o governo federal ter anunciado no último ano que não haverá mais megaprojetos hidrelétricos é encorajador. Mas é preciso mais que isso: um esforço para modernizar todos os planos energéticos para a Amazônia.

Os projetos hidrelétricos não devem bloquear os fluxos de sedimentos dos Andes nem as grandes migrações de peixes, tão importantes para o bem-estar de todos os amazônicos. Deve ser possível redesenhar os projetos hidrelétricos de maneira a produzir energia sem deixar de respeitar a ecologia do grande sistema fluvial (modelo de usinas a fio d’água). Sistemas solares podem suprir as necessidades energéticas locais.

Onde forem necessárias linhas de transmissão, elas devem ser colocadas acima da floresta. Os direitos de passagem dessas linhas podem ter efeito tão prejudicial quanto as rodovias, levando à colonização espontânea. Além disso, sua manutenção custa caro. Os sistemas de detecção disponíveis hoje possibilitam um serviço pontual de helicóptero sem direitos de passagem liberados; logo, teriam custo dramaticamente menor.

Os países da Amazônia, e em especial o Brasil, precisam de uma floresta sustentável. Isso requer elementos múltiplos, incluindo cidades sustentáveis. Uma infraestrutura verdadeiramente sustentável de transportes e energia seria parte integral e essencial dessa visão moderna.

Thomas Lovejoy Doutor em biologia pela Universidade Yale e ex-conselheiro-chefe de biodiversidade no Banco Mundial; professor da Universidade George Mason e pesquisador sênior na Fundação das Nações Unidas
Fonte: Folha de São Paulo
Deixe um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.