Com sonho de entrar na faculdade, indígenas saem do interior do AC para se preparar em pré-Enem na Ufac

Jovens contam que tiveram que deixar aldeias ainda crianças para estudar na cidade e agora sonham com ensino superior.

Dos 53 indígenas inscritos no pré-Enem da Ufac, cerca de 20 continuam participando das aulas na Ufac — Foto: Arquivo pessoal
Dos 53 indígenas inscritos no pré-Enem da Ufac, cerca de 20 continuam participando das aulas na Ufac — Foto: Arquivo pessoal

O sonho de entrar em uma universidade e cursar o ensino superior fez com que indígenas saíssem do interior do estado para se preparar no pré-Enem oferecido pela Universidade Federal do Acre (Ufac).

Ao todo são 53 inscritos, mas com a evasão, cerca de 20 continuam participando das aulas no campus da universidade em Rio Branco.

Nascida na aldeia Mibaya, no interior do Acre, a jovem Cristina Kaxinawá, de 22 anos, teve que ir para a cidade de Tarauacá para poder estudar o ensino fundamental e médio. Em 2016, ela e a família foram para Rio Branco para que Cristina pudesse se preparar para o Enem.

“Fui alfabetizada pelo meu pai na aldeia que a gente vivia. Lá aprendi a ler e escrever o português e depois fui para Tarauacá, onde conclui o ensino médio. Essa é a segunda vez que vou fazer a prova do Enem, quero muito conseguir entrar no curso de economia. No pré-Enem, a maior dificuldade, não só minha, mas de todos os indígenas que estão estudando, é com a questão da interpretação das questões e redação”, disse Cristina.

Os primos Elvis Hunikui e Kenny Kaxinawá, de 19 e 18 anos, respectivamente, saíram da cidade de Santa Rosa do Purus para se preparar para o Enem em Rio Branco. Elvis conta que nasceu na Aldeia Porto Rico, onde viveu até os 10 anos e foi para a cidade de Santa Rosa do Purus para fazer o ensino médio.

Cristina Kaxinawá sonha em cursar economia e faz o pré-Enem para indígenas na Ufac — Foto: Arquivo pessoal
Cristina Kaxinawá sonha em cursar economia e faz o pré-Enem para indígenas na Ufac — Foto: Arquivo pessoal

“Lá na aldeia eu estudei, aprendi a ler e escrever com um professor indígena mesmo. Depois fui com minha família para a cidade, onde fiz o ensino médio. Fiz o Enem em 2016 em Santa Rosa, mas não fui bem e acabei nem fazendo a prova em 2017. Esse ano, eu e meu primo viemos para Rio Branco para estudar e estamos fazendo o pré-Enem”, contou Elvis.

O jovem disse que ainda está indeciso quanto ao curso que pretende cursas. “Eu só sei que quero muito fazer uma universidade. Gosto muito de odontologia, mas preciso esperar para ver minha pontuação”, afirmou.

Essa vai ser a terceira vez que Kenny vai fazer a prova do Enem e a expectativa é grande. “Eu já faço um curso técnico de enfermagem e, se Deus me ajudar, quero entrar no curso de enfermagem. A maior dificuldade para mim é com relação à redação”, disse.

Pré-Enem na Ufac

Os cursos de pré-Enem já eram dados por alunos da Ufac em anos anteriores para a comunidade, mas a partir de 2017, a pró-reitoria de Extensão institucionalizou o projeto e passou a pagar bolsistas e preparar material didático aos alundos. A informação é do diretor de ações de extensão da Ufac, Valmir Freitas.

Conforme Freitas, em 2017, quase 5% das vagas preenchidas na Ufac foram por alunos que estudaram no pré-Enem oferecido pela universidade. A Ufac oferece 2.140 vagas anualmente, em Rio Branco e Cruzeiro do Sul, e 106 alunos do pré-Enem conseguiram passar na prova e entraram na universidade.

Esse ano, o curso de preparação para as provas do Enem é oferecido pela Ufac em oito locais, entre eles Rio Branco, Bujari, Plácido de Castro, Vila Campinas, Sena Madureira, Tarauacá, Senador Guiomard e Cruzeiro do Sul.

Primeira turma do pré-Enem para indígenas da Ufac foi aberta em abril deste ano  — Foto: Arquivo pessoal
Primeira turma do pré-Enem para indígenas da Ufac foi aberta em abril deste ano — Foto: Arquivo pessoal
Turma para indígenas

Em Rio Branco, a pedido da Federação do Povo Huni Kuin do Acre, a universidade abriu uma turma só para indígenas, onde 53 foram inscritos em abril deste ano. Diferente da turma não indígena, que as aulas ocorrem de segunda a sábado, na turma indígena, as aulas são às sextas à note e nos turnos da manhã e tarde dos sábados.

“Os indígenas ficaram sabendo desse projeto e nos procuraram e fizeram a proposta de participarem do pré-Enem. Fomos bastante sensíveis a essa reivindicação, já fazia mais de um mês o curso tinha começado e nós criamos uma turma especial. Tivemos uma certa dificuldade em moldar o projeto à necessidade indígena. Eles pediram que fosse uma turma só de indígenas e também que as aulas fossem só às sextas e sábados. Daí, funciona dessa forma”, disse Freitas.

O diretor destacou que a turma de indígenas receber o mesmo programa, as mesmas apostilas e é acompanhada pelos mesmos tutores. “A grande dificuldade é trabalhar a base mesmo com os indígenas, principalmente português e redação. Os tutores trabalham o conteúdo do Enem, mas reforçando na base, justamente por conta da dificuldade deles com linguagem”, concluiu.

Fonte: G1
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