Desmatamento ilegal tem que ser colocado no colo do Moro, diz Syrkis

Painel no 6º Seminário Nacional sobre Emissões de Gases de Efeito Estufa. Foto: Carlos Rittl/OC.

É preciso mostrar que o meio ambiente não pertence à esquerda e que os esforços contra possíveis retrocessos é mais problema da polícia e da Justiça do que dos ambientalistas que sobrarem no ministério do Meio Ambiente. Essas duas pautas resumem as falas no último painel do 6º Seminário Nacional sobre Emissões de Gases de Efeito Estufa, realizado ontem em São Paulo.

Participaram do encontro a presidente do Ibama, Suely Araújo, os ex-ministros do Meio Ambiente Sarney Filho e Marina Silva e o ambientalista Alfredo Syrkis. O painel foi mediado pelo jornalista Bernardo Esteves, da revista Piauí.

“Estamos na política de limitação de danos e a gente tem que jogar com o governo como um todo”, afirma Alfredo Syrkis, diretor-executivo do Centro Brasil no Clima (CBC) e atual secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, ao defender que a questão do desmatamento ilegal tem que ser apresentada com mais afinco ao Moro, novo ministro da Justiça.

“A lei está sendo violada por quadrilha de bandidos no sul do Amazonas. Isso não é um problema do ministério do Meio Ambiente, isso é um problema da Polícia Federal, da Justiça, do Exército (…). O desmatamento ilegal é um caso de polícia antes de mais nada. Claro que é um problema ambiental, uma questão ambiental, mas é caso de polícia em primeiro lugar”, defendeu.

Para Syrkis, há pontos no governo onde se pode buscar um diálogo, pelo menos para que não haja retrocessos. Além da Justiça e do Ministério Público, os militares se mostraram sensíveis para a questão da conservação, embora apresentem uma visão desenvolvimentista em relação à infraestrutura e à questão indígena. Já os economistas são sensíveis para barreiras e problemas econômicos decorrente da degradação ambiental.

O ex-ministro Sarney Filho, futuro secretário de Meio Ambiente do Distrito Federal, se disse cético em relação a qualquer avanço na área ambiental do novo governo. “O desmatamento na Amazônia depende de sinais e os que estão sendo dados são os piores possíveis”, disse o ex-ministro, que aposta em um novo aumento no desmatamento no ano que vem.

Segundo Sarneyzinho, o governo Bolsonaro se sente legitimado para mudar a política ambiental.

“Se você tem um problema com obra de engenharia, você faz uma ponte mal construída, esse problema aí (em São Paulo) com o elevado, com dinheiro você resolve. Mas a queda, o fim da nossa biodiversidade, o desmatamento dos nossos biomas, isso não se resolve, isso é pra sempre”, afirma.

Do contra

A ex-ministra Marina Silva, presidente da Rede Sustentabilidade e candidata derrotada nas eleições, disse que o país se vê diante de uma nova dinâmica e que a sociedade deverá aprender a lidar com isso.

“Nunca um governo deu sinal de que é contra proteger o meio ambiente. Que é contra ele institucionalmente. Às vezes são contra na prática, mas não diz isso. Agora imagina quando você diz isso com todas as letras, milita por isso”, afirmou.

Para a ex-ministra, o país precisará ficar de olho tanto no Congresso Nacional quanto nos atos do presidente, que poderá realizar mudanças através de decretos.

“Eu diria para vocês que temo muito que haja um recrudescimento da violência, de que a gente tenha muita dificuldade em relação a manter o Sistema Nacional de Meio Ambiente, porque ele pode ser erodido. Você pode manter o ministério, mas vai enfraquecendo o Ibama, vai enfraquecendo o ICMBio, vai cortando o orçamento, vai estimulando os Estados para que sejam negligentes contumazes nas políticas, porque o sistema funciona de forma integrada”, disse.

As mudanças na legislação ambiental é uma das preocupações da presidente do Ibama, Suely Araújo, que elencou que estão para acontecer: a flexibilização da lei de licenciamento ambiental e no marco dos agrotóxicos.

“O que está vindo são pressões para uma não licença. Estão sendo feitas narrativas sequenciais com o objetivo de impulsionar a flexibilização do licenciamento”, disse a presidente do Ibama.

Um participante na plateia mencionou a preocupação com os dados de meio ambiente dentro dos órgãos federais. Nos EUA, dados sobre clima foram retidos da web. Para a presidente do Ibama, o cenário brasileiro não é presume o cerceamento da informação, já que toda estrutura de divulgação de dados ambientais é alicerçada por uma legislação de transparência nos dados, “muito difíceis de derrubar”, argumenta.

“O perigo é orçamentário. Vai cortando e não tem mais sistema (de dados abertos)”, complementa Sarney Filho.

Pressões de fora para dentro

As autoridades e ambientalistas presentes no painel demonstraram preocupação com o retorno da questão ambiental pré-anos 90, quando a pressão em favor do meio ambiente vinha de fora do país para dentro. Para Marina Silva, isso é ruim, pois a preocupação deixa de ser sobre o meio ambiente como um bem em si e passa a ser apenas para evitar bloqueios econômicos.

Para Syrkis, é preciso ter cuidado com estratégias que envolvam pressão de fora, para não fazer cair sobre o movimento ambientalista/conservacionista a pecha de movimento ideológico de esquerda. “O esforço é para mostrar que o meio ambiente é de todos”.

O objetivo é não bloquear discussões de cunho técnico tornando o assunto ideológico. Todos concordaram com a necessidade de modificar a forma como o meio ambiente é discutido.

“Não tratar o agronegócio como algo homogêneo, não é homogêneo. Existem outras mentalidades e essas mentalidades têm que ser ressalvadas, tem que vir a lume, tem que ser valorizadas, exatamente para que possam assumir a cena e não permitir que todos sejam prejudicados em função de uma visão que é a reedição do início do século XX, final do século XIX”, defendeu Marina Silva.

Por: Daniele Bragança
Fonte: ((o))eco

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