COP24 pode mostrar aos céticos que reunião de cúpula do clima não é falatório inútil

Ele tem cerca de 480 quilômetros de comprimento, 300 quilômetros de largura e alguns mais de espessura. Drena uma área de gelo maior do que a Inglaterra e está deslizando, lentamente, em direção ao mar. Pesquisadores, cientistas, glaciólogos, deram-lhe o nome de geleira Thwaites e estão apreensivos, mais do que nunca: o monstro de gelo, capaz de elevar rapidamente o nível de águas dos mares, está andando um pouco mais rápido. Em seu caminho, absorve cada vez mais gelo das geleiras da Antártica que estão derretendo, também cada vez mais rápido, por causa do aquecimento global causado pelo excesso de gases poluentes na atmosfera, o famoso efeito estufa.

Os glaciólogos acreditam que um colapso completo da geleira Thwaites nos próximos séculos é inevitável – e isso elevaria o nível do mar global em vários metros, afogando ecossistemas costeiros ao redor do mundo, prejudicando investimentos e deslocando milhões de pessoas.

A lenta viagem de Thwaites se tornou um, apenas um, dos muitos sinais de alerta para a humanidade. O planeta vai continuar onde está, mas viver nele será cada vez mais desconfortável e difícil para os humanos, já que as mudanças climáticas vão interferir bastante no nosso cotidiano. E desde ontem, em Katowice, cidade polonesa, a 24ª reunião de cúpula, unindo representantes e líderes de 194 nações, vai tentar costurar com linhas mais fortes o chuleado de um Acordo afirmado em 2015 para baixar as emissões de carbono que estão mexendo no clima, aquecendo geleiras, causando tempestades e secas.

A COP24 está sendo chamada de “Diáspora do clima”, já que precisará salvar o Acordo de Paris das mãos de Donald Trump e seus seguidores – entre eles o presidente eleito do Brasil – que não acreditam no aquecimento global e querem imprimir marcas de desenvolvimento a qualquer custo em seus mandatos. Esta provocação, que não agrega valor, deixa os negociadores com uma responsabilidade ainda maior, de nas próximas duas semanas de reunião conseguir traçar linhas fortes para o Acordo. Se as regras, no final, ficarem frouxas, o resultado vai acabar alimentando ainda mais os céticos que julgam tais cúpulas como retórica inútil da esquerda.

À frente do comando está uma mulher, Patricia Espinosa, chefe da secretaria de mudança climática da ONU, que não deve deixar as salas repletas do Centro Internacional de Congressos, em Katowice, até o apagar das luzes do dia 14. Em entrevista ao site Climate Home News, ela falou sobre o delicado equilíbrio que deve nortear sua função nesses dias:

“Os acordos multilaterais precisam ter um equilíbrio delicado, onde todos podem ver sua própria posição refletida, mesmo que não seja 100% daquilo que eles gostariam”, disse ela.

Espinosa já foi chefe de outra cúpula, a que aconteceu em Cancún em 2010, mas lá foi bem diferente. Um ano antes, em 2009, os negociadores haviam se frustrado por não terem conseguido chegar a um acordo em Copenhague. Ainda sob a administração de Barack Obama, os Estados Unidos novamente foram responsáveis pelo desapontamento geral já que o Senado não permitiu ao líder máximo da nação mais rica que se declarasse a favor de um pacto global para baixar as emissões. Tudo, no final, tem a ver com os interesses de quem se habituou a lucrar com a venda de combustíveis fósseis e com o “business as usual”. “Mexer nisso, hoje, para quê?”, devem se perguntar.

Da conversa climática global que começou ontem na Polônia, portanto, se espera um texto finalizado mais contundente. Que dê respostas, por exemplo, aos habitantes de Madagascar, classificado como um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas. É uma nação pobre que tem sofrido com temperaturas cada vez mais elevadas, intensificação de ciclones, seca severa. Junte-se a isto uma pobreza ainda mais severa do que a seca: o país está em 161º lugar no relatório de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) deste ano.

Para os moradores de Madagascar; para os moradores das nações-ilha do Pacífico, condenadas a desaparecer porque as geleiras da Antártida vão elevar o nível dos oceanos, seu quintal; para os moradores de muitos países da África que sofrem com secas intensas… o que mais interessa nessa reunião dos grandes líderes é a parte que vai debater sobre financiamento. Durante a COP15, em Copenhague, os países ricos se comprometeram a fazer uma entrega anual de US$ 100 bilhões até 2020 para ajudar os pobres a lidar com os impactos de um modo de vida baseado em altas emissões de carbono. Até agora, parece que o caminho está aberto para isso.

Há outros fundos menores, como o Green Climate Fund, também lançado em 2015, com a promessa de apoio de US$ 10 bilhões aos países pobres. Ainda faltam US$ 2 bilhões. A COP24 servirá, também, para avaliar essas iniciativas, fazer o caixa e ver como será feita a distribuição do dinheiro.

Há uma previsão, baseada em estudos no Instituto de Envelhecimento Populacional de Oxford, de que a população da Terra pode chegar a 15 bilhões até 2100. Se não houver uma mudança real, significativa, nos modos de produção e consumo estabelecidos até aqui, os efeitos causados pelas mudanças climáticas terão destruído os principais ecossistemas e transformado fazendas em poças de areia.

Desde a década de 70, antes mesmo disso, os cientistas vêm alertando para o cenário vivido hoje por muitas populações, como a de Madagascar. A questão não é ter que comprar mais casacos ou galochas para enfrentar mudanças do clima. Trata-se de não ter mais terra fértil para produzir o que comer ou de não ter mais peixes no mar ou de não ter território seguro para construir casas. Houve já muitos avanços nos debates, mas uma perigosa linha de pensamento que transforma tudo isso em brigas partidárias e ideológicas vai pôr a perder o que já se conseguiu.

Vou acompanhar os debates na COP24 e sigo analisando por aqui os resultados.

Por: Amélia Gonzalez, jornalista e colunista do G1
Fonte: G1

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