Bolsonaro em Davos em 4 pontos: reformas, meio ambiente, ideologia e direitos humanos

Presidente não ofereceu detalhes sobre seus futuros projetos, mas cumpriu roteiro pró-abertura de mercado e não falou em antiglobalismo, marca de seu chanceler

Fórum de Davos 2018
Bolsonaro no bandejão de Davos. ALAN SANTOS/PR

Em seu debut em eventos internacionais, o presidente Jair Bolsonaro fez um brevíssimo discurso nesta terça-feira na abertura da sessão plenária do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Bolsonaro afirmou que um dos seus principais compromissos será abrir a economia brasileira e se comprometeu com reformas, mas sem dar detalhes sobre o novo projeto para a Previdência, um dos assuntos mais esperados pelos mercados financeiros. Analisamos em cinco pontos o discurso de cerca de oito minutos, um dos mais curtos na história das aberturas do evento.

1 – Reformas: “Gozamos de credibilidade para fazer as reformas de que precisamos e que o mundo espera de nós”

O presidente citou apenas que seu Governo goza “de credibilidade para fazer as reformas de que precisamos e que o mundo espera de nós”. Bolsonaro afirmou ainda que sua equipe irá diminuir a carga tributária e facilitar a vida de quem quer empreender, investir e gerar empregos no país. Prometeu que o país estará, ao final do seu mandato, entre os 50 melhores lugares para fazer negócios do planeta (hoje está na posição 109º no ranking do Banco Mundial). Se havia uma expectativa de que o presidente se comprometesse com a reforma da Previdência, Bolsonaro a desfez na véspera do discurso. Enquanto alguns investidores consideram decepcionante, outros acharam que ao menos o presidente se comprometeu com o suficiente.

2 – Meio ambiente: “Nossa missão é avançar na compatibilização entre a preservação do meio ambiente e o desenvolvimento econômico”

Foi o trecho mais inusitado do discurso. Bolsonaro, que costuma dizer que há uma indústria da multa ambiental e escolheu ministro do Meio Ambiente criticado pelos ambientalistas, se preocupou em rebater críticas e desconfianças internacionais em relação à sua política de preservação ambiental. O presidente afirmou que o país é o que mais preserva o meio ambiente. Segundo Bolsonaro, a agricultura ocupa apenas 9% do território brasileiro, e a pecuária, menos de 20%.

Apesar de ter enfatizado o tema mais de uma vez em sua fala, quando questionado pelo fundador do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab, sobre quais medidas práticas tomaria para preservar o meio ambiente, Bolsonaro repetiu o que já tinha dito e se esquivou de dar detalhes, mesmo em um cenário de incertezas geradas pelo Brasil após o país se recusar em sediar a Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas, COP25.

3 – Ideologia: um pouco Guedes, um pouco Ernesto Araújo

Em outro trecho do discurso, o presidente afirmou que as relações internacionais serão dinamizadas pelo ministro Ernesto Araújo, que implementará uma política na qual o “viés ideológico” deixará de existir. Araújo, um antiglobalista e admirador de Donald Trump, tem preferido elogiar países que vivem guinada de extrema direita, como a Hungria e a Polônia, numa retórica que preocupa aliados. Na sessão de perguntas, Bolsonaro insistiu, quando questionado sobre o Mercosul, que a América do Sul quer ser grande, mas que hoje ela está “ficando livre da esquerda, algo que acredito ser bom para o Brasil e o mundo”.

Ainda assim, Bolsonaro não se alinhou ao chanceler. O presidente também acenou para o multilateralismo. “Estamos aqui porque queremos, além de aprofundar nossos laços de amizade, aprofundar nossas relações comerciais”, disse. O presidente também defendeu a OMC (Organização Mundial do Comércio), comandada por um brasileiro (ponto para Paulo Guedes). Temas mais específicos, como a proposta de mudança da embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, que provoca retaliação dos países árabes, e a saída do Brasil do pacto de migrações também não foram mencionados.

4 – Direitos humanos “verdadeiros” e Deus acima de tudo

A não ser com respeito ao meio ambiente, Bolsonaro não não abriu mão de reforçar alguns motes da época de sua campanha eleitoral e seu alinhamento conservador e de ultradireita, com o questionamento do conceito de direitos humanos. Falou em defender os “direitos humanos verdadeiros”, ma sem fornecer detalhe algum sobre a diferenciação. Terminou o discurso com seu slogan “Deus acima de tudo.”

LEIA O DISCURSO NA ÍNTEGRA

Boa tarde a todos!

Muito obrigado, professor Schwab!

Agradeço, antes de mais nada, o convite para participar deste fórum e a oportunidade de falar a um público tão distinto.

Agradeço também a honra de me dirigir aos senhores já na abertura desta sessão plenária.

Esta é a primeira viagem internacional que realizo após minha eleição, prova da importância que atribuo às pautas que este fórum tem promovido e priorizado.

Esta viagem também é para mim uma grande oportunidade de mostrar para o mundo o momento único em que vivemos em meu país e para apresentar a todos o novo Brasil que estamos construindo.

Nas eleições, gastando menos de 1 milhão de dólares e com 8 segundos de tempo de televisão, sendo injustamente atacado a todo tempo, conseguimos a vitória.

Assumi o Brasil em uma profunda crise ética, moral e econômica.

Temos o compromisso de mudar nossa história.

Pela primeira vez no Brasil um presidente montou uma equipe de ministros qualificados. Honrando o compromisso de campanha, não aceitando ingerências político-partidárias que, no passado, apenas geraram ineficiência do Estado e corrupção.

Gozamos de credibilidade para fazer as reformas de que precisamos e que o mundo espera de nós.

Aqui entre nós, meu ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, o homem certo para o combate à corrupção e o combate à lavagem de dinheiro.

Vamos investir pesado na segurança para que vocês nos visitem com suas famílias, pois somos um dos primeiros países em belezas naturais, mas não estamos entre os 40 destinos turísticos mais visitados do mundo. Conheçam a nossa Amazônia, nossas praias, nossas cidades e nosso Pantanal. O Brasil é um paraíso, mas ainda é pouco conhecido!

Somos o país que mais preserva o meio ambiente. Nenhum outro país do mundo tem tantas florestas como nós. A agricultura se faz presente em apenas 9% do nosso território e cresce graças a sua tecnologia e à competência do produtor rural. Menos de 20% do nosso solo é dedicado à pecuária. Essas commodities, em grande parte, garantem superávit em nossa balança comercial e alimentam boa parte do mundo.

Nossa missão agora é avançar na compatibilização entre a preservação do meio ambiente e da biodiversidade com o necessário desenvolvimento econômico, lembrando que são interdependentes e indissociáveis.

Os setores que nos criticam têm, na verdade, muito o que aprender conosco.

Queremos governar pelo exemplo e que o mundo restabeleça a confiança que sempre teve em nós.

Vamos diminuir a carga tributária, simplificar as normas, facilitando a vida de quem deseja produzir, empreender, investir e gerar empregos.

Trabalharemos pela estabilidade macroeconômica, respeitando os contratos, privatizando e equilibrando as contas públicas.

O Brasil ainda é uma economia relativamente fechada ao comércio internacional, e mudar essa condição é um dos maiores compromissos deste Governo.

Tenham certeza de que, até o final do meu mandato, nossa equipe econômica, liderada pelo ministro Paulo Guedes, nos colocará no ranking dos 50 melhores países para se fazer negócios.

Nossas relações internacionais serão dinamizadas pelo ministro Ernesto Araújo, implementando uma política na qual o viés ideológico deixará de existir.

Para isso, buscaremos integrar o Brasil ao mundo, por meio da incorporação das melhores práticas internacionais, como aquelas que são adotadas e promovidas pela OCDE.

Buscaremos integrar o Brasil ao mundo também por meio de uma defesa ativa da reforma da OMC, com a finalidade de eliminar práticas desleais de comércio e garantir segurança jurídica das trocas comerciais internacionais.

Vamos resgatar nossos valores e abrir nossa economia.

Vamos defender a família e os verdadeiros direitos humanos; proteger o direito à vida e à propriedade privada e promover uma educação que prepare nossa juventude para os desafios da quarta revolução industrial, buscando, pelo conhecimento, reduzir a pobreza e a miséria.

Estamos aqui porque queremos, além de aprofundar nossos laços de amizade, aprofundar nossas relações comerciais.

Temos a maior biodiversidade do mundo e nossas riquezas minerais são abundantes. Queremos parceiros com tecnologia para que esse casamento se traduza em progresso e desenvolvimento para todos.

Nossas ações, tenham certeza, os atrairão para grandes negócios, não só para o bem do Brasil, mas também para o de todo o mundo.

Estamos de braços abertos. Quero mais que um Brasil grande, quero um mundo de paz, liberdade e democracia.

Tendo como lema “Deus acima de tudo”, acredito que nossas relações trarão infindáveis progressos para todos.

Muito obrigado.

Fonte: El País

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