Padre Amaro: “Eu não quero morrer, mas estou pronto para enfrentar o que for pela luta que eu acredito”

Considerado o sucessor da missionária Dorothy Stang, assassinada em 12 de fevereiro, aos 73 anos, José Amaro Lopes da Silva, vive uma hoje uma vida de ameaça e resistência

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Defensor da distribuição justa de terras e da preservação dos povos e da floresta, padre Amaro conheceu o trabalho da americana Dorothy Stang na década de 90.

Considerado o sucessor da missionária Dorothy Stang, assassinada em 12 de fevereiro, aos 73 anos, José Amaro Lopes da Silva, mais conhecido como padre Amaro, vive hoje uma vida de ameaça e resistência.

Defensor da distribuição justa de terras e da preservação dos povos e da floresta, padre Amaro conheceu o trabalho da americana Dorothy Stang na década de 90.

Desde então, atua na Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Anapu, no Pará, no médio Xingu, uma das regiões de maior conflito agrário do país.

“A cabeça da irmã Dorothy valia R$ 50 mil na época; a minha R$ 25 mil […] o objetivo deles era matar nós dois, como não conseguiram tombaram ela. A equipe se manteve e continuamos seguindo com o trabalho até que provas foram forjadas contra mim para que eu pudesse ser incriminado e tivesse minha trajetória”, conta.

Em meados de 2018, Amaro foi acusado e ficou 92 dias preso. A denúncia foi feita por fazendeiros da região em um processo cheio de irregularidades. Durante esse período, dois habeas corpus foram negados pela Justiça do Estado e o religioso só foi solto, como medida provisória, quando o caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Confira abaixo a entrevista concedida durante o lançamento do livro “Direitos Humanos no Brasil”. Trata-se de uma publicação anual organizada pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, em parceria com dezenas de organizações sociais de vários setores e regiões do Brasil.

Qual a situação na luta pela terra no Pará?

Existe uma frase famosa no Pará que sempre carregamos nas faixas e mobilizações por sua simbologia: ‘No Pará a impunidade mata e desmata’. Para muitos lá não é terra de gente, a minha companheira de 15 anos de trabalho foi assassinada. Quando eu fui preso, fiquei junto com um dos mandantes do assassinato dela, pouco tempo depois da minha entrada na cadeia, ele recebeu um habeas corpus e hoje, 13 anos depois, reponde pelo crime em liberdade. Lá quem manda, é quem tem dinheiro, o trabalhador e a trabalhadora rural são vistos como bandidos, que burlam a lei. Quando uma terra que é pública é ocupada, ele é ameaçado, agredido e assassinado.

Esse é o cenário no qual resistimos.

Como ficou a perseguição ao senhor depois da morte da irmã Dorothy?

Quando a Dorothy foi assassinada em 2005 a cabeça dela estava valendo 50 mil; a minha 25 mil reais. O objetivo deles (para a polícia, depoimentos na época reforçam existência de “consórcio do crime ” na região) era matar os dois, como não conseguiram, tombaram ela. A equipe da CPT se manteve e continuamos seguindo com o trabalho até que o mesmo consórcio que encomendou as mortes, forjou provas contra mim para que eu pudesse ser incriminado e, consequentemente, afastado do trabalho que desenvolvo na região. Eles querem a todo custo me tirar de Anapu, passei 92 dias preso no centro de recuperação de Altamira, me prenderam, mas o povo continuou lá, sobrevivendo e lutando.

A perspectiva com o novo governo é de recrudescimento. Qual seu maior receio diante disso?

Uma das preocupações é que no estado temos muitas áreas em disputa, com a eleição do novo governo que desde já profere ameaças, o medo é que isso se confirme. Nós sabemos que quando não dá pra matar, eles criminalizam. E criminalizam com o objetivo de anular todo um processo histórico de resistência.

Como é seguir em luta aiante da ameaça e da violência?

Em nome do trabalhador, em nome do Deus que eu acredito, que quer vida digna para todos e todas, é triste chegar em uma acampamento e sentir o cheiro da fumaça queimando o pouco daquelas famílias. Ver gente coberta de fuligem, sujo de cinza, dormindo no meio do capim com medo de ser morto. Essa gente não é bandida, a terra ocupada é pública, direito do trabalhador e dever do Estado. O que queremos é um pedaço ínfimo de terra para trabalhar e viver. Como não se indignar? Como não lutar diante de tanta miséria e desigualdade? Eu não quero morrer, mas, depois de tudo o que passei, eu estou pronto para enfrentar o que for pela luta que eu acredito.

Na sua opinião, como devemos enfrentar o próximo período de criminalização?

Nós sempre tivemos uma boa relação com o MST, relação de respeito e de solidariedade. Assim como a CPT, o MST também sofre com a criminalização, com a falta de informação e com a intolerância. É tempo de recrudescimento, de ameaça e de incertezas, mas, se nós dermos a mãos, esse governo não se mantém. O poder é popular, e deve vir do povo e para o povo. Quando isso acontecer nenhuma força será capaz de destruir uma história inteira de luta pela terra e por dignidade.

Acompanhe abaixo entrevista em vídeo:

Por: Maura Silva
Fonte: MST

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