Como está Barcarena um ano após o vazamento da barragem da Hydro

Um ano após os acontecimentos dos dias 16 e 17 de fevereiro em Barcarena, nordeste paraense, o DOL voltou à cidade e visitou as instalações da empresa Hydro para ver de perto seu funcionamento e como a situação foi tratada desde então.

Nesta reportagem especial, você vai acompanhar os resultados da visita, os desdobramentos após as denúncias de contaminação, o resultado do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado pela empresa e saber um pouco mais sobre como estão os moradores das comunidades das áreas vizinhas e o que eles têm a dizer.

Interior das instalações da Hydro de Barcarena (Foto: Irene Almeida/Diário do Pará)

O CASO

Com as fortes chuvas que castigaram a Grande Belém e várias outras cidades da região nordeste do Pará, no dia 17 de fevereiro de 2018, um depósito de rejeitos ultrapassou sua capacidade e não foi mais suficiente para conter as substâncias, em especial bauxita. Na época, de acordo com o laudo do IEC, as populações das três principais comunidades afetadas — Bom Futuro, Vila Nova e Burajuba — possuíam, em sua maioria, poços artesianos de baixa profundidade em casa, o que facilita a contaminação pelo resíduo.

A estimativa inicial do IEC é que pelo menos 300 pessoas tenham sido afetadas pelos vazamentos recentes. O problema, no entanto, não era recente. Desde 2009, há laudos do IEC e do Laboratório de Química Analítica e Ambiental (Laquanan), da Universidade Federal do Pará (UFPA), que descrevem que 24 comunidades em Barcarena foram contaminadas, dado presente em pesquisas realizadas.

Quase um mês depois, em uma reportagem do jornal Dagens Naeringsliv (DN)?, um dos principais da Noruega, o diretor de informação da empresa, Halvor Molland, confirmou que houve descargas advindas da fábrica: “Podemos confirmar que houve uma descarga controlada do Canal Velho, que fica ao lado da estação de tratamento dentro da área da refinaria. Isso foi feito para aliviar a estação de tratamento, que estava sob grande pressão por causa da chuva. Isso foi feito sem licença”, confessou.

Um ano após os acontecimentos, o diretor e porta-voz da unidade, Carlos Neves, mantém o mesmo discurso: não houve nenhum caso de poluição ou contaminação. “Dos depósitos de resíduos não saiu nada. Todas as auditorias e inspeções demonstraram isso. A chuva alagou Barcarena e suas vias. E a característica do solo aqui é o ‘silte’. Se você colocá-lo na água limpa, ela vai ter uma coloração que é natural do terreno daqui. Você vai ver a água com uma coloração diferente, mas isso não quer dizer que essa água veio da Hydro”, alegou.

E hoje? Como funciona a empresa?

INSTALAÇÕES

Talvez você não saiba ou não tenha percebido ainda, mas a alumina está presente em diversos produtos e nas mais variadas formas no nosso dia-a-dia. Ela é a principal matéria-prima do alumínio e é produzida a partir da bauxita, fornecida através dos minerodutos da Mineração de Paragominas e pela Mineração Rio do Norte (MRN), pelo porto de Vila do Conde.

Para a sua produção, a alumina encara uma série de processos até se transformar no produto final ou em resíduos. Diferente de Paragominas, em Barcarena são utilizadas substâncias para refiná-la. A bauxita que vem de lá é dissolvida para separar o que é ou não alumina. A soda cáustica é usada para isso.

O resíduo passa por um processo de “decantação”, sofre duas lavagens para retirar ao máximo o produto químico, depois é filtrada e armazenada no Depósitos de Resíduos Sólidos 1 (DRS 1) e Depósitos de Resíduos Sólidos 2 (DRS 2). O processo de armazenamento utiliza oito filtros prensa que fazem com que o resíduo obtenha a maior quantidade possível de sólidos (cerca de 78%), o que permite ser empilhado e compactado no final.

ENCERRAMENTO DAS ATIVIDADES

O DRS-1 encara um processo de fechamento e reabilitação por conta do limite. Por isso a criação do depósito 2, inaugurado com fases de testes e comissionamento, em agosto de 2016, mas que atualmente está interditado após decisão judicial. Com as operações iniciadas em 1995, o depósito 1 armazena apenas os resíduos que vêm do filtro prensa – processo que libera os rejeitos quentes, mas que perdem calor ao longo do transporte até chegarem no depósito.

Na fase de reabilitação, a superfície do depósito é coberta com uma camada prensada de resíduos para dar conformação ao local. Depois é feito o processo de cobertura vegetal do depósito; a proposta é alterar a paisagem para uma área verde.

Geração do Resíduo de Bauxita. Da esquerda para a direita: o rejeito após passar pelo processo de filtroprensa; a alumina [produto que interessa no processo]; o hidrato antes de se transformar na alumina; e a bauxita, o minério bruto, antes do refino (Foto: Irene Almeida/Diário do Pará)
POLÊMICA CONTINUA

No levantamento feito pela Associação Técnico Científica Ernesto Luiz de Oliveira Júnior (Atecel), uma descarga elétrica atingiu a refinaria, no final da noite de 16 de fevereiro, e afetou equipamentos da ETEI, parte dos sistemas de bombeamento e alguns motores no circuito do conjunto de bombas; a situação foi normalizada uma hora depois.

Durante esse intervalo, no entanto, os níveis das bacias de armazenamento da água tratada atingiram 100% da capacidade e foi necessário escoar a água da chuva [sem componentes químicos] pelo canal velho, um antigo canal da Hydro antes de ser criada a ETEI.

Na época, o Instituto Evandro Chagas (IEC) emitiu dois laudos no ano passado: o primeiro em fevereiro e o segundo em abril. Em ambos é dito que nas águas do Rio Pará foram encontradas 14 substâncias químicas pesadas: arsênio, chumbo, manganês, zinco, mercúrio, prata, cádmio, cromo, níquel, cobalto, urânio, alumínio, ferro e cobre.

Por determinação do juiz Iran Ferreira Sampaio, da Comarca de Barcarena, a Hydro foi obrigada a reduzir a produção da refinaria em 50% após os fortes indícios de danos ambientais e à comunidade, ocasionados pelo vazamento. Na ocasião, 400 funcionário da mina de bauxita em Paragominas, no Pará, entraram em férias coletivas.

No entanto, no início deste ano, a Hydro conseguiu da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas-PA) licença ambiental para operar em sua capacidade máxima na planta de produção de alumina Alunorte, em Barcarena.

Segundo o documento, a empresa apresentou melhorias implementadas, ou em implementação, garantindo que o sistema de gerenciamento de efluentes suportaria eventos de precipitação extrema como o acontecido em fevereiro de 2018, tornando-a apta a operar nos níveis normais de produção (100%). >>> põe aqui aquela série de chens que foram publicados na sexta

Água coletada pelos resíduos dos rejeitos e da água da chuva, que será tratada para reutilização (Foto: Irene Almeida/Diário do Pará)

E A POPULAÇÃO?

Se por um lado existe a palavra da empresa, do outro comunidades isoladas alegam abandono e falta de respostas efetivas após um ano. “Nossa vida mudou muito. Hoje não podemos plantar, não podemos tomar banho no rio ou pescar, não sabemos como está a qualidade das frutas. Ficou só as mazelas para o povo, hoje nós vivemos na miséria”. O desabafo é de Sandra Amorim, moradora e líder da Comunidade Quilombola Sítio São João, localizada a menos de 1km da primeira bacia de rejeitos da Hydro Alunorte.

Sandra sempre morou na comunidade com a família. Assim como ela, outras pessoas convivem com o que eles afirmam ser “transtornos” e “prejuízos” deixados pela refinadora. “Sofremos todo esse tempo com os impactos ambientais provocados pela Hydro, tanto no ar quanto no solo. Hoje em dia, a maioria de nós está com metais pesados no organismo e outras estão aparecendo com câncer”, denuncia a moradora que foi criada em uma família indígena.

“Esse grande empreendimento não veio só, veio trazendo lucros, mas deixou a desgraça para o povo. O que mais me indigna de tudo isso é o descaso que o próprio governo, na época quando ocorreu, apoiou as situações que ocorreram em Barcarena”, desabafa. Ela critica o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que o Estado e a Hydro Alunorte assinaram com o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), exigindo que as empresas providenciasse água, alimentação e dois salários para as famílias atingidas.

Questionado sobre o motivo da Hydro ter acatado ao TAC, Neves afirmou que foi uma maneira de ajudar as comunidades vizinhas que sofreram com os alagamentos das chuvas intensas daquele período. “Quando seu vizinho tem necessidades, você vai lá e o ajuda. Por que não ajudar? Independente do que aconteceu, nós precisamos ajudar as pessoas e assim o fizemos: a ajuda foi humanitária, nunca houve reconhecimento de que a Hydro causou isso”.

Sandra, no entanto, reafirma que houve crime ambiental e alega a falta de apoio de todos os lados. Ela desabafa que a luta das comunidades está perdida contra a gigante norueguesa porque o cansaço entre os atingidos fala mais alto. “Muitas pessoas ainda são covardes, estão sentindo na pele o mesmo que eu, mas não vão para luta e isso é muito triste porque a gente fica sem força, sem chão”, diz a moradora.

Reportagem: Andressa Ferreira e Fernanda Palheta
Fonte: Diário Online – DOL
Coordenação: Enderson Oliveira/DOL

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