Do Saara à Amazônia: 4 impactos bons e ruins da poeira que viaja do deserto até a América Latina

Imagem de satélite mostra nuvem de poeira que vem da África e cruz o oceano Atlântico
Imagens de satélite mostram com clareza a nuvem de poeira cruzando o Atlântico em direção ao continente americano

O deserto do Saara está a milhares de quilômetros da Amazônia, mas as duas localidades são ligadas todos os anos por um fenômeno que desafia a imaginação.

Centenas de milhões de toneladas de poeira deixam os desertos da África, cruzam o Oceano Atlântico e alcançam a América do Norte, o Caribe e a América do Sul, onde impactam desde a saúde dos habitantes até a fertilidade do solo.

“Para se ter uma ideia da distância que a poeira do Saara percorre, da costa nordeste da África até o Caribe são cerca de 6.000 km”, explica Santiago Gassó, geofísico argentino e pesquisador da Nasa, que se especializou no uso de satélites para detectar a poeira.

“E ela também atinge o norte da Amazônia entrando pelo lado da Venezuela”, ressalta o pesquisador.

Mapa mostra nuvem de poeira do Saara na semana de 28 de junho de 2018
Com nutrientes usados pelas plantas, como fósforo e nitrogênio, poeira ajuda a fertilizar terras da Amazônia

“É uma poeira muito, muito pequena. Se tomarmos como referência a espessura de um fio de cabelo, podemos dizer que a poeira doméstica que vemos em nossa casa, por exemplo, é dessa espessura, do tamanho da areia”, explicou Gassó.

“Mas a que viaja por cima do Atlântico é cem vezes menor que isso: um grão não é visível a olho humano, o que é visível é o acúmulo deles.”

Santiago Gassó listou à BBC alguns dos efeitos mais notáveis da poeira do Saara nas Américas Central e do Sul.

1. Fertiliza os solos da Amazônia

“O pó é basicamente rocha triturada, muito fina, e é composto de diferentes elementos químicos”, explica o geofísico argentino.

“Muitos desses elementos são nutrientes usados pelas plantas, como fósforo e nitrogênio, e todos esses nutrientes estão contidos no pó, que viaja e é depositado pela chuva ou simplesmente cai na floresta.”

Santiago Gassó
Santiago Gassó, geofísico argentino e especialista da Nasa, que estuda o uso de satélites para detectar a poeira

Gassó disse que também é provável que exista um fenômeno de fertilização no oceano.

“Quando o pó se deposita sobre o oceano, em termos gerais podem acontecer duas coisas. Uma delas é que o pó é muito pesado e começa a submergir em direção ao fundo do oceano. Mas se a poeira demora a descer (seja porque é muito leve ou porque há muita agitação na água), na área onde estão microorganismos como o fitoplâncton ou bactérias, eles podem fazer uso dele (do pó) e liberar todos esses nutrientes que são úteis.”

2. Afeta a qualidade do ar na América do Norte, Caribe e América do Sul

“Aqui nos Estados Unidos, a agência ambiental, a EPA, registra aumentos de contaminação quando a nuvem de poeira chega à Costa Leste, especialmente mais próximo do Caribe”, disse Gassó.

“O pó também atinge o Norte da América do Sul e do Caribe, o que é bem visto do satélite. Mas é difícil medir a poeira na superfície no Caribe e no Norte da América do Sul porque não há uma rede de observação de superfície, como a que existe nos Estados Unidos.”

Mapa da Terra mostra poeira cruzando o oceano
A poeira do Saara é basicamente rocha triturada, muito fina e está composta por diferentes elementos químicos

O impacto do pó na saúde é claro nos alertas divulgados recentemente na Costa Rica.

O Instituto Nacional de Meteorologia da Costa Rica (IMN, na sigla em espanhol) informou em julho do ano passado sobre a presença da substância no país, e em grande parte do resto da América Central, de uma nuvem de poeira do Saara que representa, como observado, um risco para pessoas alérgicas ou asmáticas.

O IMN informou que a concentração de poeira no Saara está na faixa de 30 a 50 microgramas por metro cúbico, um número muito alto, comparável ao de grandes metrópoles com alta poluição atmosférica.

O Instituto da Costa Rica acrescentou que, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, o perigo gerado pela poeira está em seu conteúdo de bactérias, vírus, esporos, ferro, mercúrio e pesticidas.

“Essas tempestades, quando conseguem se concentrar e atingir áreas populosas das Américas, podem provocar o surgimento de alergias e ataques de asma em muitas pessoas, especialmente aquelas que já sofriam com problemas respiratórios”, disse o instituto em comunicado.

3. Pode mudar os furacões

Essa possível consequência tem dois aspectos, explica Gassó.

Ele diz que, quando há muita poeira em suspensão sobre o Atlântico, ela pode ser vista por satélites.

Mapa mostra deslocamento da nuvem de poeira no oceano Atlântico
Na Costa Rica, o Instituto Meteorológico Nacional soltou um alerta sobre os perigos da poeira para alergias e crises asmáticas

“O fato de você poder vê-lo por satélite significa que a poeira está refletindo a luz solar e que a luz não está atingindo o oceano. Quando há poeira em suspensão, parte da energia solar não está chegando à superfície do oceano e, portanto, ele fica com uma temperatura mais baixa.”

O oceano, explica, não se aquece tanto e isso muda a forma como a água evapora.

“E a evaporação da água é o que alimenta os furacões, é uma sucessão de eventos”.

Gassó acrescenta que há outro aspecto que está sendo descoberto agora: a relação entre a poeira e as nuvens.

“Parece que a poeira induz a formação de granizo nas nuvens e as faz se desenvolver mais verticalmente. Uma nuvem quando cresce, se torna mais poderosa, então a chuva pode ser mais intensa, o granizo pode ser maior e causar mais destruição.”

4. Pode prejudicar os corais

Assim como a poeira pode carregar substâncias químicas que são úteis para alimentar ou cultivar plantas, também pode conter elementos tóxicos.

“Por exemplo, o cobre é tóxico para certas bactérias e outros micro-organismos importantes na base da pirâmide ecológica marinha. Verificou-se que os corais também podem ser atacados por fungos que estão na poeira. Em seguida, quando esses elementos viajam para o outro lado do Atlântico, se depositam sobre o Mar do Caribe e, por causa de seu peso, o sedimento vai caindo e atinge os corais que assimilam esse elemento tóxico e adoecem.”

Gassó explicou que a poeira atravessa o Atlântico a cada ano, em um processo que “se correlaciona com o ciclo da água, ou seja, a estação chuvosa e a evaporação que ocorre no Saara”.

“Apesar haver chuvas ocasionais no Saaara, há também temporadas que são mais secas do que outras. Isso é o que permite mais suspensão e levantamento da poeira.”

Imagem de satélite mostra nuvem de poeira ao leste da Patagônia argentina
Gassó também estuda o impacto da poeira fria que se produz, por exemplo, na Patagônia

O cientista da Nasa disse que a estação seca no Saara ocorre nos meses de maio, junho e julho.

“No Saara, existem muitas regiões com depressões. Eram antigos lagos há milhares de anos que secaram.”

“As chuvas ocasionais acumulam água da chuva nessas depressões e trazem sedimentos, rochas, poeira. Todos os verões, esses lagos evaporam e, ao evaporarem, fica o sendimento, que é o que voa.”

Segundo Gassó, há muito que ainda não se sabe sobre a poeira do Saara e os eventos que ela provoca na natureza.

“Gostaria de aprender mais sobre fenômenos indiretos, por exemplo, sobre fertilização, que é um processo muito complicado.”

“Porque não está muito claro como é a interação que acontece com a parte biológica, já que existem organismos que reagem à presença de novos nutrientes, e outros não”.

Por: Alejandra Martins
Fonte: BBC News Brasil

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