Agricultores consomem agrotóxico porque fumam ao aplicar, diz ministra da Agricultura

Fonte: Por Trás do Alimento

Tereza Cristina não apresentou estudos para embasar afirmação feita durante audiência pública na Câmara dos Deputados. Chamada para explicar aumento de aprovação de agrotóxicos, ministra defendeu a política e culpou agricultores pela má aplicação

Tereza Cristina. Foto:Marcelo Camargo/Agência Brasil

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, esteve na Câmara dos Deputados nesta terça-feira (9/4) para esclarecer os critérios utilizados para a liberação do uso de agrotóxicos no Brasil. Em menos de 100 dias de governo foram publicados no Diário Oficial da União o registro de 152 agrotóxicos — média de mais de 1,5 aprovação por dia. A chefe da pasta da Agricultura participou de audiência pública conjunta realizada pelas comissões de Meio Ambiente, de Defesa do Consumidor, de Seguridade Social e de Agricultura. O encontro foi pedido pelos deputados federais Camilo Capibere (PSB/AP), Célio Moura (PT/TO), Alexandre Padilha (PT/SP) e outros.

Um dia depois da defesa da ministra na Câmara dos Deputados, o Governo aprovou a comercialização de mais 31 produtos agrotóxicos. A publicação do deferimento dos registros ocorreu na edição desta quarta-feira do Diário Oficial da União. 16 produtos da lista foram classificados pela Anvisa como Extremamentes Tóxicos, a classificação toxicológica mais alta.

Depois das críticas e do clima de hostilidade nas participações do ministro da Economia, Paulo Guedes a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), e do ex-ministro de Educação Ricardo Vélez a Comissão de Educação, Tereza Cristina chegou ao Congresso Nacional demonstrando suas boas relações com a casa onde cumpriu seu mandato por quatro anos. Demonstrou conhecimento do assunto e usou argumentos repetidos pela bancada ruralista. Mas também acabou dando escorregadas. Durante cinco horas e meia, respondeu críticas de opositores do governo e recebeu afagos de apoiadores. Membros da Frente Parlamentar da Agropecuária marcaram presença em peso na audiência pública – aplaudindo e elogiando todas as respostas afiadas da ministra.

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Tereza Cristina, ministra da agricultura, utilizou o termo “remédio das plantas” para se referir aos agrotóxicos (Foto: Agência Câmara)

Mais tarde, ao tentar explicar que países que já passaram por guerras investem mais nos produtores rurais, a ministra disse que o brasileiro não passa muita fome porque tem manga nas cidades. “A agricultura para países que tiveram guerras e que passaram fome é segurança nacional. Nós nunca tivemos guerra, nós não passamos muita fome porque temos manga nas nossas cidades, temos clima tropical”, pontuou. (Leia também: fome volta ao sertão da Paraíba)

Ao fim da audiência, Tereza Cristina afirmou que o objetivo do Ministério é fazer com que a agricultura cresça e o pequeno agricultor possa produzir de maneira eficiente. “Nós juntos podemos modificar a legislação para simplificar, desburocratizar e fazer com que o Brasil caminha para frente sem ideologias”, disse aos parlamentares.

“A pior praga é a desinformação”, disse a Ministra. Ela contestou estudos apresentados pelos deputados, como o que demonstrou presença de agrotóxicos em leite materno no Mato Grosso.

Tereza afirma que o Ministério da Agricultura contestou todos os trabalhos. “Contestamos os estudos feitos no Mato Grosso, porque os níveis detectados estão aquém do que é exclusivamente de defensivos agrícolas. Temos aí produtos domésticos e urbanos para ratos e mosquitos, que contaminam muito desses municípios”, diz.

‘Guerra comercial’

Ao ser questionada sobre o número de deferimentos nos primeiros meses, Tereza Cristina respondeu que “não existe essa liberação geral”. Para ela, longos processos de aprovação de pesticidas atrasam o agronegócio brasileiro.

“Estive com a Anvisa nas últimas semanas e eles nos afirmaram que têm uma dívida com a agricultura brasileira. Porque em anos passados colocaram na gaveta [processos de permissão de agrotóxicos], o que gerou a obsolência de vários produtos que foram retirados da Europa porque apareceram moléculas mais eficazes, com menos toxicidade e com o mesmo objetivo das antigas, mas mais modernos”. No momento, há 2.187 produtos agrotóxicos comercializados em todo país. Desses, 976 tiveram o registro deferido a partir de 2017.

A ministra adiantou outros argumentos dos grandes produtores ao dizer que existe uma “guerra comercial” na qual a “barreira sanitária” poderia ser um trunfo.

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Deputados que convocaram a audiência pública com a ministra da Agricultura exibem cartazes contra o uso de agrotóxicos (Foto: Agência Câmara)

“Será que se o Brasil produzisse produtos de tão má qualidade, cheio de resíduos, estaríamos exportando? Hoje há uma guerra comercial, e ela passa pela barreira sanitária. Será que estaríamos exportando para mais de 160 países do mundo? Eu deixo essa pergunta para vocês”.

Antes de chegar ao mercado, o agrotóxico precisa passar por avaliação do Ministério da Agricultura, Ibama e da Anvisa. Os órgãos fazem diversos testes para medir, por exemplo, o grau toxicológico e o potencial de periculosidade ambiental. O período para o produto passar por todo processo de avaliação pode chegar aos cinco anos – apenas após receber o aval de todos os órgãos que o deferimento do registro é publicado no Diário Oficial da União.

Até o momento, seis atos publicados neste ano oficializaram o deferimento de 152 registros. As autorizações publicadas neste ato tramitaram no ano passado, ainda durante o governo de Michel Temer (MDB). Porém, sob a batuta da ministra, foram publicados no DOU neste ano o pedido de registro de mais 322 produtos agrotóxicos, que passarão agora por avaliação do Ministério da Agricultura, Ibama e Anvisa.

Mortes de abelhas

A ministra rebateu reportagem da Agência Pública e da Repórter Brasil que mostrou que em três meses mais de meio bilhão de abelhas foram encontradas mortas em quatro estados brasileiros. Estudos laboratoriais encontraram vestígios de agrotóxicos à base de neonicotinoides e de Fipronil nos insetos mortos.

Porém, segundo uma pesquisa citada pela ministra, os casos estariam ligados a outro agrotóxico, o ingrediente ativo Sulfoxaflor, que segundo ela não é registrado no Brasil. “Esse é o grande problema dessa fila enorme que não registra e testa produto. Esse produto muito provavelmente entrou de maneira ilegal no Brasil e está sendo usado de maneira errônea”. Segundo ela, o governo deve aprovar mais agrotóxicos para impedir o uso de substâncias ilegais.

A ministra foi corrigida pelo deputado Alexandre Padilha (PT), que mostrou que o Ato nº1 do Ministério da Agricultura, publicado em 10 de janeiro deste ano, autorizava o registro do ingrediente ativo. Após consultar assessores, Tereza informou que apenas o ingrediente ativo foi autorizado mas ainda não há produtos sendo vendidos no mercado.

Sobre Fipronil e neonicotinoides, a ministra disse que estão passando por reavaliação do Ibama, onde serão apurados seus impactos nos polinizadores, assim como já mostrou a reportagem da Agência Pública e Repórter Brasil.

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de agrotóxicos. Clique para ler a cobertura completa no site do projeto.

Por: Por Pedro Grigori
Fonte:
Repórter Brasil

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