10 ações práticas para ajudar a salvar a Amazônia – e você mesmo

Para reverter este quadro, precisamos usar tudo o que está acontecendo como forma de expansão de consciência Nas últimas semanas, a Amazônia entrou nos trending topics do Twitter. Tudo começou com o escurecimento do céu de São Paulo, que trouxe foco às queimadas que estavam acontecendo no norte do Brasil. Mas a pior escuridão que estamos vivendo, parece ainda não ter sido compreendida por muitas pessoas.

O ocorrido nos alerta é de que todo esse papo de “preservação” não tem (mais) só a ver com salvar seringueiras (como muitos de nós ouvimos no colégio), nem de salvar a floresta. Tem a ver com salvar a humanidade. Você sabe por quê? Sabe o que pode fazer para ajudar a reverter este quadro? Então vamos lá.

Primeiro vamos entender por que a Amazônia é importante. A gente sempre ouviu que ela é o pulmão do mundo. Mas eu diria que ela é também o nosso coração, pois mantêm vivos diversos sistemas ecológicos essenciais para a manutenção da vida na Terra.

Ela desempenha um papel fundamental na preservação da biodiversidade — quase metade das espécies terrestres de fauna e flora são encontradas lá. O seu fim contribuiria definitivamente para um processo de extinção em massa, das espécies animais que habitam lá, e de cerca de 400 etnias que dependem da sua biodiversidade.

A floresta ajuda a regular o clima e as temperaturas do planeta. É responsável por garantir e regular o sistema de chuvas que abastece diversas partes do nosso país. Isso mesmo, a água, apontada como o bem mais caro e raro de um futuro bem próximo, vem de lá. Mas muita gente parece não compreender que sem floresta não tem chuva. Sem chuva não tem água. E é aí que mora, na minha opinião, o maior problema com tudo o que está acontecendo – e que impacta diretamente a todos nós.

De acordo com o cientista Paulo Artaxo, que estuda a floresta há mais de 30 anos, com 40% de áreas devastadas, o restante não consegue se sustentar, chegando em uma situação irreversível. Porque se você mata a floresta até um determinado ponto, a quantidade de chuva que ela gera com o que sobra, não dá conta das suas próprias necessidades (que dirá da necessidade de “outros”, que no caso somos nós). E já se foram 20%, logo, é muito factível que isso aconteça.

Se chegarmos neste cenário, como consequência o planeta sofrerá um aquecimento de 3,5 graus. Com isso, o Nordeste e diversas outras grandes áreas serão totalmente desertificadas. A falta de chuvas vai gerar restrição e racionamento de água e com isso, aumento da conta de água, aumento de conta de luz (porque nossa maior fonte de energia hoje são as hidrelétricas), aumento do preço de inúmeros produtos que consomem água durante o processo produtivo – de alimentos a roupas (sim, porque a gente veste bicho e planta).

Além de todo desequilíbrio ambiental, como deu pra perceber o risco é também econômico. Mas não será só no nosso bolso e nem vamos esperar muito para ver isso de perto. Os últimos acontecimentos alimentam o risco de barreiras ao produto brasileiro. Seja pelo boicote de consumidores, ou por pressão da imprensa internacional e grupos de ativismo ambiental com grande representação no mundo. Vale lembrar que grande parte do PIB do Brasil é de produtos para exportação. Se não tem exportação, não tem produção, não tem empresa, não tem salário, não tem emprego.

Apesar disso tudo, a Amazônia tem sido colocada em risco. O Brasil é o país que, no século XXI, está tendo o maior índice de desflorestamento em área. Nos anos recentes, a cada dezoito segundos, um hectare de floresta Amazônica, em média, vem sendo convertido em pasto. Isso faz do Brasil o quarto maior emissor mundial de gases do efeito estufa. Tudo isso pode levar a floresta a ser extinta nos próximos dez anos.

A tarde escura em São Paulo, de acordo com o Climatempo, foi um fenômeno ocorrido pelo encontro de fumaça e fuligem das queimadas no Norte do Brasil com uma frente fria que caminhava em direção ao Sudeste. Os meses de julho e agosto são conhecidos pelo aumento nas queimadas, decorrente do clima seco na região.

A Nasa, que registrou imagens das queimadas, disse que a área total da Amazônia comprometida neste período, é parecida com as registradas no mesmo período nos últimos 15 anos. Mas comprovou o aumento nas regiões do Amazonas e Rondônia, onde, segundo o Climatempo, foi o maior registro em 5 anos. Isso significa que na Amazônia em outros países (como Peru e Colombia) o número reduziu – enquanto nós aumentamos drasticamente.

Agora, por que queimar? Queimadas acontecem para exterminar o lixo e para abrir campo para pastagem e plantações. Parte da explicação tem a ver com o crescimento econômico e a necessidade de recursos. A pecuária demanda uso extenso de terras, enquanto esgota sua capacidade produtiva, havendo sempre a necessidade de desbravar outras áreas.

Relatórios do Banco Mundial, de Institutos de pesquisa e ativistas, como o Greenpeace, mostram de forma consistente que a pecuária ocupa cerca de 80% de todas as áreas desmatadas da Amazônia. Para piorar, o Greenpeace analisou dados de satélite e autorizações de desmatamento entre 2006-2007 e constatou que mais de 90% da destruição florestal no período eram ilegais.

Isso torna a pecuária o maior vetor de desmatamento ilegal do mundo, responsável por mais floresta destruída que o total desmatado em qualquer país. Por pecuária, entenda carnes para alimentação e couro para fazer roupas e acessórios. Isso mesmo, a moda também financia o desmatamento. Florestas de valor insubstituível e vitais para nossa existência estão sendo destruídas para dar lugar ao gado, utilizado posteriormente para a produção de sapatos, bolsas e cintos.

A devastação ocorre para abrir campo para animais e para o cultivo de soja que alimenta tais animais até serem abatidos. Isso significa que além da exploração animal, a criação do gado promove consumo de recursos naturais e danos ambientais, uma vez que a produção da soja está ligada ao alto consumo de água, uso de pesticidas, herbicidas e fertilizantes químicos (vale lembrar que quem come carne ingere tudo isso).

Durante todo esse processo emite uma quantidade de gases de efeito estufa maior que todo setor de transporte do Brasil, de acordo com a ONU. É a indústria responsável por 51% das mudanças climáticas do mundo, incluindo o aquecimento global. Produz cerca de 65% do óxido nitroso que polui o mundo.

Ou seja, a pecuária destrói a terra, sacrifica animais, interfere saúde do consumidor final e pode nos levar ao racionamento de água. Mas isso não é de hoje. O que não é de hoje também são as associações de toda esta indústria com o governo. O relatório “A farra do boi na Amazônia” (2009), do Greenpeace Brasil, aponta o governo como principal financiador da pecuária. De acordo com o relatório:

“O governo brasileiro possui 2,65 bilhões de dólares em ações de empresas frigoríficas, que se beneficiam do abastecimento barato de gado criado em áreas da Amazônia destruídas ilegalmente. […] O Greenpeace identificou centenas de fazendas no bioma Amazônia fornecendo gado para esses frigoríficos na região. Todas as vezes em que foi possível obter os mapas das propriedades, análises de satélite revelaram que fornecimento significativo de gado vinha de fazendas envolvidas em desmatamento recente e ilegal.”

É uma questão estrutural, tão enraizada quando a própria floresta, mas pela primeira vez temos uma liderança política que parece ir contra a nossa existência, com políticas ambientais que (descaradamente) diminuem a proteção da Amazônia.

O presidente Jair Bolsonaro utiliza a estratégia da negação, mas desde a sua campanha de candidatura deixou claro que faria uma política anti-anbiental, não só pela falta de propostas concretas, mas também pelas críticas aos órgãos ambientais. Ainda em campanha, prometeu a saída do Acordo de Paris, assinado por 195 países, com foco em combater as mudanças climáticas.

Como já era de se esperar, após a posse, dá provas concretas da falta de comprometimento com a agenda ambiental. Ou pior, da provas de interesse no desmonte da agenda ambiental. Desde então temos presenciado, sem fumaça alguma na frente, uma “política ambiental” mais amigável dos ruralistas do que os ambientalistas.

O primeiro passo foi o enfraquecimento do ministério do meio ambiente com a nomeação do Ricardo Salles, condenado por improbidade administrativa em denúncia de fraude ambiental. Sua posse tem sido caracterizada desde então pela exoneração de cargos, extinção de conselhos, órgãos e verbas, destinados à preservação, como a extinção da estrutura da secretaria de mudança do clima e florestas, que tinha como foco atuar contra o desmatamento.

Depois veio a destruição do sistema de fiscalização com corte de 50% no orçamento do Ibama e 5,4 bilhões do ICMBio. Queda de 70% nas operações de fiscalização (de acordo com o Observatório do Clima), diminuição de multas equivalente a 23% (de acordo com o levantamento da Folha de São Paulo no sistema público de registro de multas). Isso tudo apenas nos 6 primeiros meses de mandato.

E para completar o Ibama foi “desautorizado” de falar com a imprensa. Teve 21 dos 27 superintendentes estaduais exonerados. O INPE foi proibido de divulgar dados de desmatamento, com a justificativa de que “seria péssimos para o Brasil”. Como se isso resolvesse o problema.

Dias antes da fumaça chegar a São Paulo, o mal cheiro já estava no ar, quando ocorreu o “dia do fogo”. Com apoio do presidente, fazendeiros incendiaram a floresta simultaneamente em diversos pontos. Mais de 20 mil hectares foram destruídos. Diversas espécies mortas. Um casal de idosos foi carbonizado.

Para reverter este quadro, precisamos usar tudo o que está acontecendo como forma de expansão de consciência. É isso, não tem mais a ver com proteger o futuro. Tem a ver com o agora. Para reverter este quadro, precisamos usar tudo o que está acontecendo como oportunidade de nos informarmos e agirmos pela visibilidade da floresta. Apesar de parecermos pequenos diante do todo, individualmente cada um de nós temos a chance de fazer escolhas melhores, mais conscientes, além de cobrar ações maiores.

Rede de apoio

1- Contribuir com doações de bens e tempo em instituições a favor da preservação;

2- Participar de ativações, mobilizações e campanhas;

3- Assinar e divulgar petições com foco em políticas públicas;

4- Cobrar posicionamento de marcas e pessoas que tem relevância para a causa.

Reduzir o consumo de carne

5- O consumo no Brasil é o dobro do sugerido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Eliminar ou reduzir o consumo de carne tem impacto na preservação da floresta.

6- Em 2014, a ONU afirmou, no seu relatório anual sobre o gerenciamento de recursos sustentáveis, que uma mudança global para uma dieta vegana é vital para salvar o mundo da fome, da escassez dos combustíveis e dos piores impactos das mudanças climáticas.

Consumir de forma consciente

7- Madeiras e papeis certificados;

8- Apoiar marcas que produzem de forma sustentável.

Cuidar da terra

9- Apoiar a resistência dos povos indígenas;

10- Apoiar projetos de agrofloresta e outros de impacto socioambiental positivo.

Por: André Carvalhal é escritor e especialista em design para sustentabilidade.
Fonte:
Carta Capital

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