Na guerra sobre a Amazônia, o Brasil ganhou e Bolsonaro perdeu

Fica claro, internacionalmente, que é o novo Presidente Bolsonaro e não os brasileiros que prefere ver a Amazônia transformada em pasto para gado, cultivo de soja e em túneis abertos em suas entranhas para a extração de minerais, o grande sonho dos capitalistas

Ativistas fazem protesto na frente da embaixada brasileira em Bruxelas, na Bélgica.
Ativistas fazem protesto na frente da embaixada brasileira em Bruxelas, na Bélgica.THIERRY MONASSE (GETTY IMAGES)

Na guerra sobre a destruição da Amazônia, o presidente, Jair Bolsonaro, saiu derrotado enquanto o Brasil e suas riquezas naturais foram defendidos em todo o mundo. As ideias destrutivas do líder brasileiro e seus comentários depreciativos e até grosseiros pronunciados, por exemplo, sobre presidentes europeus como Emmanuel Macron, da França, e Angela Merkel, da Alemanha, acabaram ofuscando ainda mais sua já surrada figura no exterior.

O presidente brasileiro que havia dito, dias atrás, que não iria ser um presidente “banana”, acabou sendo visto como tal pelos líderes mais importantes do estrangeiro. Suas chacotas sobre a Amazônia apelando até a uma linguagem de cunho anal como quando disse que bastava “um cocô petrificado de índio” para paralisar uma obra, não foram apreciadas fora do Brasil. O mundo sempre admirou e até invejou o santuário natural da Amazônia que abriga o maior bioma do planeta e que é reconhecido como um dos maiores tesouros ecológicos ainda vivos da Terra.

Também se tornaram um bumerangue as zombarias sobre o Presidente Macron nas redes sociais aplaudidas por Bolsonaro sobre a comparação entre sua esposa, Brigitte, já idosa, e a jovem Michelle, a esposa do Presidente brasileiro. E mesmo as brincadeiras de mau gosto do vice-presidente, o general Mourão, sobre os tremores que às vezes afetam a líder alemã Merkel. Todas essas atitudes serviram principalmente para que o mundo constatasse que o Brasil, possuidor não somente de imensas riquezas naturais, como também humanas, merecia alguém mais digno e preparado para ser governado.

A atitude do Presidente brasileiro e de seu governo durante o episódio da Amazônia, que abalou o mundo, serviu também para expor a ausência dramática de uma política externa à altura das circunstâncias, algo que sempre foi considerado como uma das glórias e acertos da política brasileira, seja de direita ou de esquerda.

Basta observar nesses dias as manchetes dos grandes jornais internacionais para constatar a condenação universal sobre as opiniões e posturas de Bolsonaro sobre a Amazônia. Nas análises de tais jornais, que pautam a opinião mundial, fica bem clara a distinção que se faz no exterior entre as posturas iconoclastas do líder brasileiro sobre a Amazônia e a postura de resistência dos brasileiros.

Fica claro, internacionalmente, que é o novo Presidente Bolsonaro e não os brasileiros que prefere ver a Amazônia transformada em pasto para gado, cultivo de soja e em túneis abertos em suas entranhas para a extração de minerais, o grande sonho dos capitalistas. Assim como gostaria de ver os indígenas expulsos dessas terras que sempre foram suas e têm o direito de habitar.

Ao mesmo tempo, na abundante informação mundial sobre o conflito do novo Governo de extrema direita sobre os incêndios cada dia maiores e mais numerosos vistos na Amazônia, criminosos em sua grande maioria, ficou clara a distinção entre as posturas de Bolsonaro e o que os brasileiros mereciam ter na liderança para resolver seus problemas.

Quem talvez melhor o tenha expressado e que honra a todos os brasileiros e os que decidiram fazer desse país sua casa, foi o Presidente francês Macron com essas palavras; “Como tenho uma grande amizade e respeito pelo povo do Brasil, espero que tenham rapidamente um presidente que se comporte à altura”.

Quem sai engrandecido dessa guerra são, de fato, os brasileiros e sua luta na defesa da Amazônia, que continuam angariando a simpatia do mundo. E isso, nesse momento, é o que mais importa, já que os presidentes e os governos passam, e os brasileiros continuarão sendo vistos com estima e afeto, merecedores de estadistas capazes de defender suas essências e suas riquezas.

Alguém poderia dizer que Bolsonaro pouco se importa com a opinião dos líderes estrangeiros. Que o que lhe serve são os votos de seus fanáticos defensores, por certo sempre menores, a quem parece querer especialmente agradar. Ele se esquece que o mundo hoje mudou e que, às vezes, a um líder pode ser tão ou mais perigoso o repúdio internacional que o de seus próprios compatriotas.

Os nacionalismos exasperados, os sonhos de muros e barreiras para não se deixar contaminar com o que vem de fora estão ficando cada vez mais obsoletos. Apesar das tentações totalitárias e do ressurgir dos novos patriotismos que a globalização destruiu, hoje é mais fácil, às vezes, ganhar e perder eleições presidenciais fora do que dentro do país.

Hoje é cada vez mais evidente, por exemplo, que o ex-presidente brasileiro, o ex-operário Lula, deve suas duas eleições e as de sua pupila Dilma, tão ou mais que a seu consenso interno, onde muitos o temiam ao chegar, ao indiscutível consenso e aplauso que possuía internacionalmente. Aplauso que mantém ainda hoje na prisão e que, se não me engano, ainda será fundamental para que possa recuperar sua liberdade.

Deveriam explicar a Bolsonaro que sua sobrevivência no poder depende hoje não só dos brasileiros, e sim também de sua imagem no exterior. Esquecer e desprezar tal conselho pode lhe ser fatal. Ou já está sendo?

Por: JUAN ARIAS
Fonte:
El País

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