Na iminência de um ataque, povo Xikrin luta para defender seu território

Um grupo de 300 invasores ameaça “caçar” indígenas na Terra Indígena Trincheira Bacajá (PA). Três frentes de ocupação ilegal colocam em risco a segurança dos Xikrin

Apenas quinze quilômetros separam a aldeia RapKô, do povo Xikrin, de 87 focos de desmatamento no sudeste da Terra Indígena Trincheira Bacajá (PA). Só ali foram detectados ao menos 741 hectares de floresta derrubada, que indicam uma frente de ocupação ilegal ativa. O acirramento do conflito entre invasores e indígenas coloca a integridade do território e a segurança dos indígenas em risco.

Desmatamento registrado em agosto na Terra Indígena Trincheira Bacajá, morada do povo Xikrin|Lalo de Almeida

Os Xikrin vêm denunciando as atividades ilegais em suas terras desde o ano passado. Na última semana, frente ao avanço das invasões e cansados de esperar, um grupo de indígenas foi até a ocupação e confiscou equipamentos – como motosserras e armas de fogo.

Em retaliação, na noite de domingo (25), os Xikrin receberam ameaças por mensagens de áudio que diziam que “os homens estão dentro da mata pra pegar eles”. Uma foto com dezenas de homens com armas acompanha os áudios: “olha o tanto de gente que tá aí dentro da mata pra pegar os índios aí, dentro da mata de vocês. Tem mais de 300 homens dentro da mata caçando os índios”.

“Na aldeia perto da invasão tem muitas crianças e idosos. Se o kuben [não indígena] quiser fazer alguma besteira, vão entrar na aldeia e matar todo mundo. Por isso estamos preocupados”, relata Bepto Xikrin.

Jovens xikrin estiveram em Altamira na segunda feira (26) para denunciar a situação ao Ministério Público Federal. Segundo eles, a Polícia Federal se comprometeu a fazer uma ação prioritária e imediata na Terra Indígena.

As invasões na TI Trincheira Bacajá não são novidade, mas têm se agravado nos últimos meses. Relatos dos indígenas revelam que há uma sensação de impunidade por parte dos ocupantes ilegais, que abriram pastos e roças. “Os brancos disseram que não têm medo de nós, Mebengokre”, conta o velho Kanoy, da aldeia KapKô. “Tenho coragem, nós temos coragem”, continuou.

Violência em três frentes

Análises de desmatamento e focos de calor indicam a presença de mais duas frentes de invasão ativas no interior da Terra Indígena.

Em um intervalo de apenas dez dias, entre 7 e 17 de agosto, imagens de satélite detectaram a reativação de um ramal nas Tis Apyterewa e Arawete/Igarapé Ipixuna, que expandiu nove quilômetros para dentro do território dos Xikrin em sua porção sudoeste. 117 hectares foram desmatados ao longo do traçado da estrada.

Imagens de satélite mostram a expansão da estrada ilegal em apenas dez dias|Sentinel-2

Na região nordeste, foram detectados 42 focos de calor nos últimos 30 dias. No mês passado, 70 hectares foram desmatados nessa frente de ocupação ilegal.

A região sudeste, com 741 hectares derrubados, é a principal frente de ocupação ilegal da TI, onde se concentra a maior parte do desmatamento desde o início do ano. A intensidade dos focos de calor revela que se trata de uma frente ativa, como denunciado pelos indígenas, que disseram ver a fumaça das queimadas ilegais desde as aldeias RapKô, Mrotidjam e Bacajá.

Explosão de desmatamento

A Terra Indígena Trincheira Bacajá, localizada no município de São Félix do Xingu, concentra a maior parte do desmatamento ilegal desde o início do ano. O avanço da pecuária, roubo de madeira, garimpo e grilagem de terra são as principais causas.

Ao todo, no mês de julho foram derrubados cerca de 915 hectares de floresta – mais que o dobro do total desmatado entre janeiro e junho: 421 hectares. O ritmo acelerado do desmatamento e a ausência de fiscalização explicam o acirramento de conflitos violentos.

Até 2017 as taxas se mantiveram relativamente estáveis, com números entre 40 e 245 hectares. No ano passado a curva de desmatamento se acentuou, atingindo 2.118 hectares, índice que tende a aumentar com a recente escalada de invasões.

“Se a floresta não estiver do nosso lado não temos como buscar alimentos, caça, pesca. Se acabar tudo não temos como sobreviver. Precisamos manter a floresta em pé”, alerta Bepto Xikrin.

Por: Isabel Harari
Fonte:
ISA

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