ONU: a emergência climática aumentará a fome e as migrações

Esta jovem mãe andou 20 dias de Diinsoor, na Somália, com seus sete filhos para o campo de refugiados de Hagadera, em Dadaab, no Quênia. Depois que o gado de seu marido morreu por causa da seca na Somália, ela foi para Dadaab devido à fome. (Foto: Meridith Kohut | OCHA)

Foi apresentado o relatório “Mudanças climáticas e território” do comitê científico da ONU sobre o clima. Quem pagará as consequências do aquecimento global serão especialmente as populações mais pobres da África e da Ásia, com guerras e migrações. Mas mesmo o Mediterrâneo está em alto risco de desertificação e incêndios.

A ligação entre o que comemos, como usamos o solo e as mudanças climáticas que estão modificando nossas vidas é estreita, são fatores diferentes que influenciam uns aos outros. O aquecimento global que causa secas, inundações e incêndios cada vez mais frequentes também nas zonas mediterrâneas, vai ser nos próximos anos um fator mais incisivo a ser levado em conta para a nossa sobrevivência, e a forma como gerimos o solo e até mesmo nossa dieta terão um papel central para a mitigação de seus efeitos. O relatório “Mudança climática e território” do comitê científico da ONU sobre clima, o IPCC, divulgado na manhã da última quarta-feira em Genebra, considera todos esses aspectos juntos. Centra-se nas alterações climáticas e no território, estudando as consequências do aquecimento na agricultura e nas florestas. Foi preparado por 66 pesquisadores de todo o mundo, incluindo a italiana Angela Morelli.

Eventos extremos e agricultura: as migrações climáticas

Chuvas violentas, enchentes, secas e desertificação são eventos que estamos testemunhando com frequência cada vez maior e, segundo o estudo, nos próximos anos serão amplificados pelo aquecimento global. Degradam o solo e retiram cada vez mais fatias de terra dos agricultores, especialmente nas regiões mais pobres, particularmente na África, no Oriente Médio, na Ásia e na América Latina. Em muitas dessas regiões, avançarão os desertos, que também poderão invadir as regiões do Mediterrâneo. Mas, acima de tudo, aumentarão as migrações dentro dos países e através das fronteiras.

Os migrantes econômicos serão cada vez mais migrantes climáticos, uma situação que ameaça acentuar conflitos sobre o uso da terra, inclusive nos países de destino. Como a Itália e os outros países europeus que estão em volta do Mediterrâneo, exacerbando assim o confronto social, cultural e político já existente.

Junto com a seca, aumentarão os incêndios, não apenas como está acontecendo agora na Sibéria e em áreas remotas do planeta, mas em quase todo o globo (América do Norte e do Sul, Mediterrâneo, África meridional e Ásia central). É uma consequência do aumento das temperaturas, especialmente perto dos polos. E que aumentam ainda mais nas terras emersas. Onde a temperatura do ar subiu mais rapidamente do que a média global e já atingiu cerca de 1,5°C em comparação com a era pré-industrial. Em particular, na região do Mediterrâneo, as precipitações anuais diminuem e se concentram. As mudanças climáticas favorecem assim o aumento da intensidade das precipitações e a erosão do solo.

Mesmo com o aquecimento global em 1,5 graus dos níveis pré-industriais (a meta mais ambiciosa do Acordo Climático de Paris 2015), são avaliados como “altos” os riscos de escassez de água, incêndios, degradação do permafrost e instabilidade no fornecimento de alimentos. Mas se a mudança climática atingir ou exceder os 2 graus (a meta mínima de Paris), os riscos serão “muito altos”. A população sujeita a esses fenômenos crescerá à medida que a temperatura subir, passando de 178 milhões (no cenário + 1,5°) para 220 milhões (+ 2 °) até 277 milhões (+ 3°).

A terra é parte da solução

Foi dito várias vezes durante a conferência de imprensa em Genebra: “O solo sob pressão é uma parte da solução, mas não pode fazer tudo sozinho”. Porque um manejo sustentável da terra pode ajudar a mitigar os efeitos dos gases de efeito estufa que continuamos a bombear para a atmosfera. Através, por exemplo, do reflorestamento, do “aflorestamento” (criação de novas florestas) e mitigação do desmatamento. As plantas, além de serem o “pulmão” do Planeta, podem armazenar CO2 retirando-o da atmosfera até um terço das emissões totais, mesmo que seja uma porcentagem variável devido justamente à incógnita das mudanças climáticas. Mas inclusive a gestão da agricultura poderá ajudar.

O alimento: menos certo, menos nutritivo

Tudo isso não pode deixar de se refletir sobre a disponibilidade e a qualidade dos alimentos. Os eventos extremos terão o efeito de diminuir a certeza da oferta de maneira não previsível, levando a fortes flutuações de preços que afetarão principalmente as populações mais pobres e os produtores dessas regiões. As que estão mais em risco são as regiões tropicais e subtropicais, onde a produtividade deverá cair com o aumento da temperatura. Em vez disso, aumentará em latitudes mais elevadas. Mas inclusive a região do Mediterrâneo já sofreu uma redução na produtividade agrícola devido ao aumento da intensidade das precipitações e da aridez, e os estudiosos preveem que esta tendência irá aumentar.

Os altos níveis de CO2 na atmosfera também tornarão os produtos menos nutritivos (5,9-12,7% a menos de proteínas, 3,7–6,5% a menos de zinco e 5,2–7,5% a menos de ferro) e também isso atingirá sobretudo as populações dos países pobres ou em desenvolvimento, alimentando um círculo vicioso. Segundo o relatório, 820 milhões de pessoas estão desnutridas no mundo (dois bilhões são aquelas afetados pela obesidade).

Um terço dos alimentos jogado fora

O IPCC estima que 25 a 30% dos alimentos sejam perdidos ou jogados fora, e de 2010 a 2016 isso contribuiu de 8% a 10% para o total das emissões de gases causadores do efeito estufa produzidos pelo homem. Uma porcentagem preocupante. É um dos problemas que os cientistas do Painel destacam para os políticos, com um apelo urgente de redução de desperdícios e para que a gestão da cadeia alimentar e do solo seja regulamentada de uma forma mais sustentável.

A agricultura e o uso do solo são responsáveis por 23% das emissões humanas de gases de efeito estufa. Uma dieta mais equilibrada e baseada em produtos de baixas emissões de carbono (legumes e frutas, menos carnes vermelhas) poderia liberar 4 a 25 milhões de quilômetros quadrados de superfície e significar menos emissões equivalentes a mais de três bilhões de toneladas de CO2 ao ano.

Greenpeace: “Agir imediatamente”

“O solo e a biodiversidade estão sofrendo enorme pressão devido ao aumento do desmatamento na Amazônia e dos incêndios que estão devastando a Sibéria e a Indonésia exatamente nesses dias”, declara Martina Borghi, da campanha florestas do Greenpeace Itália. “Esses fenômenos têm um impacto direto sobre a vida de milhões de pessoas e sobre o clima, pois ameaçam a nossa segurança alimentar, favorecendo a desertificação e a degradação do solo. À luz do novo relatório IPCC, os governos terão que atualizar e melhorar seus planos de ação para manter o aumento das temperaturas globais abaixo do grau e meio”.

Por: Matteo Marini
Fonte: La Repubblica/
IHU On-Line
Tradução: Luisa Rabolini

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