Incêndios na Amazônia são ”verdadeiro apocalipse”, diz bispo brasileiro

Os incêndios na Amazônia são um “verdadeiro apocalipse”, de acordo com um arcebispo brasileiro que espera que o Sínodo do próximo mês no Vaticano denuncie profundamente a destruição da floresta tropical.

Os comentários de Erwin Kräutler pressionarão novamente o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, depois das críticas dos líderes do G7 no mês passado sobre a onda de desmatamento no maior sumidouro de carbono terrestre do mundo.

As palavras do bispo também destacam uma divisão cada vez maior entre a Igreja Católica e o movimento pentecostal. O Papa Francisco defendeu um relacionamento mais harmonioso com o mundo natural em prol das gerações futuras, em contraste com os pentecostais do Novo Mundo em rápido crescimento, que formam a base de apoio à exploração de recursos intensificada e preconizada por Bolsonaro e Donald Trump.

A reunião de bispos condenará todas as formas de destruição da Amazônia e defenderá uma nova visão da ecologia baseada na fé cristã em Deus como criadora da “casa comum”, disse Kräutler por e-mail ao The Guardian. Embora aposentado como bispo do Xingu, ele é um dos 18 membros do conselho preparatório indicado por Francisco antes do Sínodo do próximo mês sobre a Amazônia.

Depois do encontro, Francisco deverá reforçar essa mensagem com uma “exortação apostólica”. É provável que ela se baseie em sua influente encíclica de 180 páginas sobre as mudanças climáticas, Laudato si’, publicada há quatro anos, que pedia passos concretas para enfrentar a crise ambiental.

Os preparativos para o Sínodo da Amazônia estão em andamento desde 2016, mas a questão se tornou mais urgente nos últimos meses devido a incêndios, ameaças e um governo hostil, disse Kräutler.

“Sempre houve incêndios na Amazônia. Quando eles são menores, a natureza se reconstrói dentro de alguns anos. Mas o que se está vendo agora é um verdadeiro apocalipse”, disse o bispo, que passou 54 anos na região.

“Os incêndios deste ano superam tudo o que se possa imaginar. Sem dúvida, é consequência de comentários de Bolsonaro sobre a abertura da Amazônia a empresas nacionais e multinacionais. Ele entende a ‘abertura da Amazônia’ como uma licença para limpar a floresta tropical e criar espaço para que o gado possa pastar e se possa plantar monoculturas como soja e cana-de-açúcar.”

No início dessa semana, o clero católico na Amazônia divulgou uma carta aberta condenando a violência e a intimidação que eles afirmam que estão sofrendo como resultado dos esforços para proteger a floresta, os povos indígenas e as comunidades pobres de mineradores e agricultores.

“Lamentamos imensamente que hoje, em vez de serem apoiadas e incentivadas, nossas lideranças são criminalizadas como inimigos da pátria”, escreveram.

“Junto com o Papa Francisco, defendemos de modo intransigente a Amazônia e exigimos medidas urgentes dos Governos frente à agressão violenta e irracional à natureza, à destruição inescrupulosa da floresta que mata a flora e a fauna milenares com incêndios criminosamente provocados.”

Kräutler disse que a carta era necessária porque o governo havia espalhado falsos rumores de que a Igreja Católica estava minando a soberania brasileira.

Padres e freiras têm uma longa história de trabalho com as comunidades pobres da Amazônia, o que geralmente os coloca em conflito com os poderosos interesses comerciais e com as autoridades. Durante os anos 1970, o movimento da teologia da libertação estava estreitamente alinhado com a resistência de esquerda à ditadura militar da época.

Em 2005, a freira estadunidense Dorothy Stang foi assassinada por latifundiários. Um de seus seguidores, o padre Amaro Lopes, foi preso no ano passado na bacia do rio Xingu. Kräutler recebeu tantas ameaças de morte que precisou de proteção policial por mais de 10 anos.

As tensões aumentaram ainda mais desde que Bolsonaro – um ex-oficial militar que defendeu o uso da tortura e os assassinatos durante a ditadura de 20 anos que terminou em 1985 – se tornou presidente.

Ele enfraqueceu as proteções do governo à floresta tropical, atacou verbalmente os grupos indígenas, acusou ONGs ambientais de iniciar os incêndios e rompeu vínculos com doadores estrangeiros para o Fundo Amazônia.

Em julho – quando os alertas de desmatamento aumentaram 278% em comparação com o mesmo mês do ano passado – ele demitiu o chefe da agência espacial que forneceu os dados.

No sábado (31-08-2019), Bolsonaro confirmou que queria que a agência brasileira de inteligência realizasse uma vigilância sobre o Sínodo da Amazônia. “Há muita influência política lá”, o presidente teria dito aos jornalistas.

Embora nominalmente católico, Bolsonaro foi batizado há alguns anos por pastores evangélicos em Israel. Sua ascensão ao poder dependeu fortemente do apoio do movimento pentecostal, que está crescendo muito mais rapidamente do que a Igreja Católica.

Um objetivo principal do Sínodo é aumentar a capacidade da Igreja Católica de evangelizar na Amazônia e – embora de modo não declarado – combater a ascensão do pentecostalismo, que tende a apoiar a exploração de recursos e fez incursões entre as comunidades indígenas e ribeirinhas. Mas os bispos têm sido prejudicados pela dificuldade de encontrar padres dispostos a trabalhar na remota região.

Uma das ideias mais radicais em um documento preparatório para o Sínodo, o Instrumentum laboris, é permitir que homens casados mais velhos sejam ordenados – uma medida que poria fim a uma exigência secular de que os padres sejam celibatários.

Francisco já havia dito que ele estaria aberto a permitir que homens casados fossem ordenados em áreas onde há escassez de padres, mas a ideia é altamente controversa entre os conservadores vaticanos, e alguns cardeais a descreveram como “herética” e como “apostasia”.

O Instrumentum laboris também lamenta a crise na Amazônia, que ele atribui à “secularização, à cultura do descarte e à idolatria do dinheiro”.

“Hoje a Amazônia constitui uma formosura ferida e deformada, um lugar de dor e violência”, continua. “A destruição múltipla da vida humana e ambiental, as enfermidades e a contaminação de rios e terras, o abate e a queima de árvores, a perda maciça da biodiversidade, o desaparecimento de espécies (mais de um milhão dos oito milhões de animais e vegetais estão em perigo), constituem uma realidade crua que interpela todos nós.

“Reinam a violência, o caos e a corrupção. O território se transformou em um espaço de desencontros e de extermínio de povos, culturas e gerações.”

Por: Harriet Sherwood
Fonte: The Guardian
Tradução: Moisés Sbardelotto.

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