“Não pode haver outras prioridades, se caminhamos para a extinção pela crise climática”. Entrevista com Jeremy Rifkin

Se algo distingue o economista e escritor de êxito Jeremy Rifkin, é a feroz originalidade com que lida com fenômenos visíveis a todos. Os convencidos chamam isso de audácia e os céticos, de temeridade.

A novidade de seu novo livro, El Green New Deal Global (Editora Paidós), é que se trata de uma abordagem bastante otimista do apocalipse. Rifkin não apenas acredita que a humanidade pode enfrentar o perigo de sua extinção, mas também que a revolução pós-carbono que ela precisa fazer será bastante rentável. No subtítulo de seu livro, atreve-se a datar o colapso dos combustíveis fósseis, no ano de 2028, e anuncia o plano econômico para salvar a vida na Terra.

Considera que a emergência climática fez com que as novas gerações de humanos comecem a se ver como membros de uma espécie frente às metáforas identitárias de seus pais e avós. A Primeira Revolução Industrial desenvolveu a consciência ideológica, a Segunda deu origem à consciência psicológica e a Terceira, prevê Rifkin, está gerando a consciência da biosfera.

O economista não se detém muito nas advertências apocalípticas. Pensa em como conviver com os desastres causados pelas mudanças climáticas, o que exigirá uma nova demonstração da proverbial resiliência humana.

O Green New Deal é um plano econômico como o que serviu a Franklin D. Roosevelt para levantar uma nação inteira após a Grande Depressão, cuja famosa quinta-feira negra do crack completou 90 anos ontem [24-10-2019]. Em tão destacado aniversário, Jeremy Rifkin recebeu El Mundo em um hotel para explicar o plano que ajudará não apenas uma nação, mas toda a Humanidade, a aprender a conviver com eventos climáticos cada vez mais adversos e imprevisíveis.

A entrevista é de Rafa Latorre, publicada por El Mundo, 25-10-2019. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Você não fala muito em combater as mudanças climáticas, mas em aprender a combater seus efeitos.

Este é exatamente o argumento deste livro. Não estamos mais na era do progresso. O grande aristocrata francês Nicolas de Concordet escreveu, durante a Revolução Francesa, que não há limite para a perfectibilidade do homem, exceto a duração de seu resplendor. Essa foi a era do progresso. Não acredito que alguém se atreva a dizer algo assim agora. Estamos avançando para a era da resiliência. Nunca tivemos um domínio supremo sobre este planeta. As ideias do Iluminismo sobre o progresso sem limites do ser humano e a crença na natureza como uma força passiva que podemos manipular, redefinir e transformar a nosso gosto eram uma ficção. O que vou lhe dizer é interessante que leiam na Espanha: não existe um Governo central que possa lidar sozinho com as mudanças climáticas. Precisamos de uma nova visão econômica para a Espanha e o mundo.

Qual?

Agora vem o importante. São as infraestruturas que determinam o sistema econômico e não o contrário. O capitalismo surge das infraestruturas da Primeira Revolução Industrial, não foram as infraestruturas que emergiram do capitalismo. Não é a economia, estúpido! É a infraestrutura, estúpido! Todas as grandes transformações econômicas têm algo em comum. Todas requerem três elementos que interagem entre si: um meio de comunicação, uma fonte de energia e um mecanismo de transporte. Quando esses três elementos se unem, nossos habitats se transformam e nossa orientação espaço-temporal realmente muda. Isso está acontecendo nesse exato momento.

O problema da revolução em andamento é que está criando um enorme descontentamento daqueles que poderíamos chamar de os pobres verdes: campeiros, agricultores, consumidores de diesel … Como se enfrenta essa luta verde de classes?

O maior impacto das mudanças climáticas afetará as comunidades pobres. Não possuem serviços públicos de saúde para enfrentar a mudança climática, seus sistemas de saneamento estão deteriorados, suas casas são pouco resistentes e serão as primeiras a cair.

Deixe-me apresentar um exemplo doméstico. Você propõe uma forte tributação sobre as emissões de carbono. Na Espanha, a oposição reprova o presidente Sánchez, pois suas medidas para reduzir o consumo de diesel colocam em risco a indústria automotiva, da qual dependem meio milhão de empregos diretos.

A grande renda que será gerada por esse imposto sobre o carbono deveria retornar para as famílias espanholas de forma que compensem o que lhes custaria essa oneração. Assim, o ônus recairia sobre a indústria de combustíveis fósseis. Os pobres devem obter um retorno maior. Deixe que seja a indústria de combustíveis fósseis a que se torne responsável. Se na França tivessem colocado essa política em andamento, jamais teria surgido o movimento dos coletes amarelos. Nunca. Também acredito que temos que eliminar todos os subsídios aos combustíveis fósseis. Conduziram-nos a uma crise climática e devem pagar as consequências.

Isso que você diz que está acontecendo, que muitos empregos agora estão em perigo, é algo realmente importante, sim, mas há uma razão para isso. Em 2019, houve uma mudança histórica na transformação da economia mundial. Vivemos na civilização dos combustíveis fósseis, durante os dois últimos séculos. Neste ano de 2019, o custo nivelado da energia solar e eólica, em larga escala, foi inferior ao custo do gás natural.

O Citigroup foi o primeiro a advertir o que se avizinhava e o anunciou em um relatório em 2015. No pior cenário, as empresas de energia jamais amortizarão os direitos de exploração que pagaram. A questão dos ativos obsoletos não tem tanto a ver com os acordos para combater a mudança climática, mas com o custo das tecnologias solar e eólica e com a geração de energia verde e seu armazenamento no mercado.

Algo em que você se diferencia radicalmente dos ativistas verdes em uma frase como esta, que extraio de seu livro: “O mercado é um anjo da guarda que vela pela Humanidade”.

Mas vá para o parágrafo seguinte. Estou há 40 anos sendo crítico ao mercado. Procurei advertir as gerações de executivos. O que quero dizer é que é um anjo da guarda, mas não pode fazer isso sozinho. Não acredito que qualquer comunidade com a qual tenhamos trabalhado para que adote uma rede inteligente queira que o Google tenha todo o controle. É assustador pensar que o Google privatizará as infraestruturas. O que aprendemos é que quando você privatiza a infraestrutura, fica privado dos recursos. Eles não vão melhorar a prisão privada que dirigiriam porque isso só significaria custos para eles.

Os Estados centrais, também na Espanha, precisam criar códigos, regulamentos, mudanças nos padrões, alinhamento, objetivos, incentivos e sanções. Depois, as regiões precisam estabelecer roteiros com suas comunidades para esboçar a infraestrutura verde da Terceira Revolução Industrial do Green New Deal, que é uma infraestrutura digital controlada por plataformas públicas.

Agora que menciona esse modelo de governo, fico surpreso que utilize o exemplo da China em seu livro. Por acaso, o comunismo chinês não colide com a horizontalidade e descentralização que defende?

É uma pergunta interessante. Eu não conhecia a China. Quando o presidente Xi e o primeiro-ministro Li chegaram ao Governo e me disseram que tinham lido meu livro sobre a Terceira Revolução Industrial, eu pensava que era uma brincadeira. E não era. Eles começaram a se movimentar muito rápido, após uma primeira visita, e investiram 80 bilhões de dólares para completar a digitalização em um Plano Quinquenal.

Quanto ao modelo de governo, compreenderam que não podem tomar decisões por 1,3 bilhão de pessoas. Eu visitei todas as regiões. São muito competitivas! Cada região quer superar a outra e ficar com os trabalhos. Não posso dizer como é boa a concorrência entre as regiões. O que precisa acontecer na Espanha é que vocês não só precisam dizer que desejam um Green New Deal. Devem criar um Banco Verde Central e, em seguida, cada região deve abrir seu próprio Banco Verde Regional. O Banco Central deve regular, mas precisa permitir que cada região seja responsável pela construção de sua própria infraestrutura, porque é muito difícil gerar a resiliência que precisarão, se cada região não tiver toda a sua população envolvida nisso.

Não avalia que a urgência com a qual está expondo todas essas medidas pode fazer com que os jovens a percam a confiança na capacidade resolutiva da democracia? Que fiquem irritados com a lentidão dos processos de deliberação que são necessários?

Não quero que ninguém me diga que é tarde demais, porque a tecnologia está pronta e o mercado está nos dizendo que os combustíveis fósseis estão prestes a entrar em colapso. Não quero que ninguém me diga que há outras prioridades. Como pode haver outras prioridades, quando você caminha para a extinção? Quais podem ser essas outras prioridades? Estou muito interessado em saber. Parece-me excelente que jovens de todo o mundo se mobilizem e façam suas vozes serem ouvidas todas as sextas-feiras. Agora, o que precisam fazer é retornar às suas comunidades e fazer com que se cumpram o que reivindicam.

A figura de Greta Thurnberg dividiu a opinião pública espanhola. Muitos consideram que uma garota não deveria estar travando uma batalha política.

As pessoas precisam personalizar, porque precisam de uma história. Mas, há muitos como ela. Já existem milhões de jovens de 15 e 16 anos que entenderam perfeitamente o que está em jogo. Acredito que os espanhóis deveriam estar agradecidos e não deveriam ter um debate como este. Greta fez um grande trabalho. Em meio a uma grande extinção e quando os combustíveis fósseis estão em colapso, não deveríamos estar preocupados com coisas como se a filha de alguém está buscando ganhar notoriedade.

Por: Rafa Latorre
Fonte: IHU

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