Porto ameaça cartão-postal amazônico

Construção de terminal portuário no encontro dos rios Negro e Solimões provoca desequilíbrio ecológico da região. População, já afetada pela privatização da água, articula-se para pedir “nova racionalidade” dos recursos naturais.

“A apropriação do abastecimento de água, que produz exclusão nas periferias da cidade, assim como a intervenção no Encontro das Águas, que afeta o equilíbrio ecológico do entorno, demonstram a versatilidade capitalista em impor os seus ditames e reverter as crises lançando mão de bens comuns para perpetuar a sua existência”, escreve Sandoval Alves Rocha, doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), mestre em Ciências Sociais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos/RS), bacharel em Teologia e bacharel em Filosofia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE/MG), padre Jesuíta e colaborador no Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (SARES) em Manaus, em artigo publicado por OutrasPalavras, 16-10-2019.

O Encontro das Águas, que tangencia as cidades de Manaus, Careiro da Várzea e Iranduba, vem sendo ameaçado pela construção do Terminal Portuário das Lajes. Trata-se de um silencioso movimento realizado pela empresa Lages Logísticas S.A no sentido de desconfigurar um dos mais conhecidos e significativos espetáculos naturais da região. Esta iniciativa representa mais uma das estratégias planejadas pelos grandes capitalistas, a partir de uma visão reducionista que contempla a natureza unicamente sob a lógica do mercado e da produção de lucros.

Esta empreitada tem provocado mobilizações das comunidades que serão afetadas pelo empreendimento e despertado a inquietação dos movimentos ambientalistas e outras organizações preocupadas com a crise socioambiental que ameaça a Amazônia e a humanidade. Aqui também a abundância das águas da região é colocada em destaque, demonstrando que os interesses do mercado buscam instrumentalizá-la em favor da expansão capitalista, ignorando o impacto destruidor das suas intervenções.

Em julho de 2000, as multinacionais, com o apoio do Estado, se apropriaram da política de abastecimento de água e esgotamento sanitário de Manaus, oferendo à população serviços ineficientes que colocam a capital amazonense entre as piores cidades brasileiras no desempenho do saneamento básico. Atualmente, este processo de mercantilização da água projeta mais um avanço, prejudicando o famoso Encontro das Águas e seu entorno. Os impactos da obra são consideráveis: impacto estético/paisagístico na área, desmatamento de florestas de várzeas e florestas de margens, poluição das águas com óleos e dejetos sólidos das embarcações, impacto na qualidade da água, impacto nas áreas de reprodução, pouso e descanso de espécies de aves locais e migratórias, rebatimento na reprodução de peixes e outros organismos aquáticos que desovam e nidificam no Lago do Aleixo, destruição de sítios arqueológicos, contaminação biológica com patógenos e espécies exóticas que serão trazidas pelas balsas, diminuição do recurso pesqueiro, diminuição da atividade turística, impacto ambiental na comunidade Colônia Antônio Aleixo e outros.

Os prejuízos sociais e ambientais previstos na esteira da construção do Porto das Lajes indicam que o desenvolvimento sustentável tão propagado pelos órgãos governamentais constitui um discurso vazio e sem repercussão positiva na vida das pessoas e do ecossistema. A ruptura do equilíbrio natural provocada pelo almejado progresso visa produzir lucro para as grandes empresas, ignorando a complexidade do ecossistema e expressando uma completa indiferença em relação ao bem-estar e a qualidade de vida, principalmente das populações mais pobres.

A representação moderna da natureza como algo possível de uso e de mercantilização se sustenta nos ideais de emancipação e autorrealização, que tem sua base na separação entre o sujeito e a natureza. A construção do Porto das Lajes mostra que a metáfora da dominação transpõe o mundo natural e se estende para a relação entre os homens, regulando o mercado e as relações privadas e culturais. A armadilha moderna, no entanto, reside no fato de que, quando a sociedade moderna atribui um econômico valor à natureza, ela atribui um valor a si própria, atingindo o cerne da sua dignidade, num total desprezo pelas questões éticas que regulam o processo civilizatório.

O desenvolvimento sustentável parece ter sido transformado em estratégia de expansão capitalista, para esconder a face predatória do modo predominante de produção. Para se legitimar perante a sociedade, o capital é revestido de um discurso ecológico, que busca imprimir um uso racional e sustentável da natureza, mas oculta a intenção de usá-la para fins econômicos a despeito de prejuízos incalculáveis.

No bojo desta atuação se evidencia a prática da injustiça socioambiental, causando transtornos para as classes mais empobrecidas. Não é surpresa que estas populações são as mais atingidas pelas manobras empresariais, que buscam se apropriar da natureza. A diminuição das atividades pesqueiras e turísticas, a contaminação das águas e o impacto socioambiental na bacia do Puraquequara, onde situa-se a comunidade do Bairro Colônia Antônio Aleixo representam algumas das repercussões negativas na vida das populações que vivem nesta região.

A apropriação do abastecimento de água, que produz exclusão nas periferias da cidade, assim como a intervenção no Encontro das Águas, que afeta o equilíbrio ecológico do entorno, demonstram a versatilidade capitalista em impor os seus ditames e reverter as crises lançando mão de bens comuns para perpetuar a sua existência. Buscando superar esta lógica, as comunidades mobilizam suas forças na esperança de assegurar a sobrevivência. Esses movimentos de resistência apontam para a emergência de um novo projeto que deverá incorporar uma nova racionalidade, fundada nos potenciais da natureza e da cultura, que buscará orientar práticas verdadeiramente sustentáveis de uso dos recursos.

Mapa do Encontro das Águas, que tangencia as cidades de Manaus, Careiro da Várzea e Iranduba. (Reprodução: Google Maps)

Fonte: IHU

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