Setor privado poderia desempenhar um papel importante na conservação do Cerrado, aponta estudo

O Cerrado brasileiro está sendo rapidamente convertido em soja e outras culturas. Muitos ambientalistas pensam que uma solução seria uma moratória da soja, como a que foi implementada na Amazônia em 2006. Foto: Visualhunt.com

Em 2006, o desmatamento provocado pela expansão da produção de soja na Amazônia brasileira estava causando grande consternação na população e em grupos ambientalistas. Lideradas pelo Greenpeace, ONGs então se uniram a varejistas como McDonald’s e produtores de soja como Cargill e Bunge, além de agricultores e Governo Federal, para criar a Moratória da Soja. Nela, os comerciantes concordaram em não comprar de nenhum produtor que estivesse desmatando terras para o cultivo da leguminosa. O acordo resultante é considerado por muitos como uma das iniciativas corporativas de conservação voluntária de maior sucesso de todos os tempos.

O avanço da soja está de volta ao debate, mas desta vez aplicado ao Cerrado, bioma onde é cultivada metade da produção brasileirada leguminosa. Esse fato levou ONGs ambientais e varejistas internacionais como Walmart e McDonald’s a propor, em 2017, o Manifesto do Cerrado, inspirado na bem-sucedida Moratória da Soja amazônica. Mas a implementação deste novo acordo depende da cooperação de comerciantes transnacionais como a Cargill, que demonstraram relutância em assinar o manifesto, mesmo reconhecendo a situação precária em que o Cerrado se encontra.

Recentemente, um novo estudo, o primeiro do gênero, conduzido por um grupo internacional de pesquisadores liderado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e publicado na revista Science Advances, utilizou simulações para indicar exatamente quanto da conversão de vegetação nativa em área de cultivo poderia ser evitada por meio da aplicação de uma moratória da soja no Cerrado.

Conversão direta de vegetação nativa em cultivo de soja potencialmente evitada em A) um cenário em que apenas o Código Florestal Brasileiro é aplicado e B) com uma moratória da soja aplicada ao Cerrado. A região de Matopiba está demarcada em verde; os valores das barras de cores estão em milhares de hectares por célula. Republicado com permissão da revista Science Advances.

3,6 milhões de hectares a salvo da soja

“A Moratória da Soja foi eficaz na Amazônia. Com este estudo, queríamos avaliar quais seriam os impactos da expansão desse [acordo] para o Cerrado, um bioma que, além de um hotspot de biodiversidade e um importante produtor de alimentos, é uma área que também se encontra sob ameaça de extinção”, diz Aline Soterroni, uma das principais autoras do estudo.

A nova pesquisa simulou o impacto de uma possível extensão da moratória para o Cerrado, analisando a expansão da soja no Brasil em cenários com e sem a medida. Os pesquisadores também estimaram quais seriam, no futuro, os seis produtores com maior chance de transformar vegetação nativa em lavoura.

Nas simulações, a equipe descobriu que uma área equivalente à metade do estado de São Paulo pode ser transformada em soja no Brasil até 2050. Menos de 10% dessa conversão aconteceria na Amazônia; todo o restante avançaria sobre o Cerrado – em torno de 10,8 milhões de hectares de novos campos de soja.

No entanto, se uma moratória da soja fosse aplicada ao Cerrado ainda em 2021, os pesquisadores sugerem que ela poderia evitar que 3,6 milhões de hectares de vegetação sejam perdidos para a leguminosa – uma área quase do tamanho do estado do Rio de Janeiro.

Se alcançada, uma conquista dessa envergadura faria mais do que preservar um importante núcleo de biodiversidade: o Cerrado também abriga algumas das bacias hidrográficas mais importantes do Brasil e armazena uma quantidade significativa de carbono em seu complexo sistema de raízes subterrâneas, o que ajuda a conter as mudanças climáticas.

Expansão da soja pelo tipo de uso de solo. O cenário FC considera a implentação total do Código Florestal Brasileiro, enquanto o cenário SoyM considera a expansão da moratória da soja para o Cerrado. Republicado com permissão da revista Science Advances.

Matopiba em risco

Carlos Antonio da Silva Junior, professor de sensoriamento remoto da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), disse à Mongabay que os dados de desmatamento destacados pelo novo estudo abordam pontos críticos relacionados à conservação da biodiversidade no Cerrado.

Estimativas sugerem que cerca da metade do bioma já foi convertida em agropecuária. Do que resta da vegetação nativa, menos de 20% ainda está intacta – sua conversão para a soja poderia levar à extinção mais de 4.800 espécies de plantas e vertebrados.

Grande parte da vegetação nativa intacta restante está localizada em Matopiba, uma área composta por 337 municípios de quatro estados: Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (o nome é um acrônimo que resulta da união das siglas). Entre 2000 e 2014, a conversão de terras para lavouras de soja em Matopiba aumentou 253%. E, de acordo com o estudo, esse ritmo não deve diminuir tão cedo. Sem uma moratória da soja, 86% da expansão da leguminosa no Cerrado deve ocorrer na região de Matopiba.

Os pesquisadores também descobriram que, embora a China seja o maior mercado comprador de soja do mundo, o risco relativo de futura conversão de vegetação nativa impulsionada pela China ou pela União Europeia é praticamente o mesmo. “Isso ocorre porque a UE compra mais da região de Matopiba, enquanto a China compra de qualquer lugar”, diz Soterroni. “Com o acordo comercial entre a UE e o Mercosul em discussão, esse ponto se torna especialmente relevante.” Os níveis crescentes de desmatamento no Brasil poderiam emperrar a ratificação do acordo.

Tratores em ação no Cerrado. Imagem de Rhett A. Butler / Mongabay.

Moratória da soja é apenas parte da solução

Os autores do estudo apontam que, embora uma moratória da soja no Cerrado possa conservar uma quantidade significativa de vegetação nativa, ela sozinha não evitaria o desmatamento e a conversão da vegetação nativa em lavouras.

“A expansão da [moratória] para o Cerrado é necessária, mas não é, por si só, suficiente para proteger a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos desse bioma”, apontaram os cientistas. A conformidade com o Código Florestal brasileiro, que determina quanto da vegetação nativa deve ser legalmente conservada, juntamente com a implementação de outras políticas públicas que regem as lavouras e as pastagens, são extremamente relevantes para o sucesso da conservação. No entanto, sob a administração do presidente Jair Bolsonaro, amigo do agronegócio e hostil ao meio ambiente, a possibilidade de implantação de políticas ecologicamente corretas parece remota.

Especialistas como Silva concordam, e estudos anteriores mostraram que há pastos degradados suficientes no Brasil para absorver a demanda de ampliação da soja, sem prejudicar a vegetação nativa. “As áreas de produção de grãos no Brasil deveriam ser expandidas para áreas que já estão degradadas por pastagens”, ele diz, acrescentando que já existem técnicas inovadoras como a integração lavoura-pecuária-floresta – uma forma de produção sustentável e ao mesmo tempo lucrativa.

Para os autores do artigo, o maior argumento de seu estudo é o grande papel que o setor privado poderia desempenhar na proteção do que resta intacto do Cerrado, caso as empresas transnacionais de commodities se comprometam com uma moratória.

“Quando a governança é fraca, as cadeias de fornecimento e os acordos voluntários se tornam mais importantes”, diz Soterroni. “Temos uma moratória eficaz da soja na Amazônia que já está desenvolvida e em pleno funcionamento. Dada a situação política [atual], expandi-la é a ação mais indicada para conservar o Cerrado”.


Citação:
Soterroni, Aline C., et al. “Expanding the Soy Moratorium to Brazil’s Cerrado.” Science advances 5.7 (2019): eaav7336.

Vista aérea de uma área de Cerrado recém desmatada. Foto de Rhett A. Butler.

Por: Sarah Sax 
Fonte:
Mongabay

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