A COP mais deprimente e o novo ouro

Leia artigo de Alfredo Sirkis sobre a COP25

Vamos cair na real: nunca uma COP abriu numa situação global mais deprimente. Já não estou falando da confirmação sistemática dos piores cenários climáticos previamente traçados pela ciência, nem das atitudes de Donald Trump. Cenários são e serão sempre imprecisos –para melhor ou pior– e Trump não consegue controlar a quinta economia do mundo: os Estados que não aceitam seu anúncio de deixar o Acordo de Paris e tratam de cumprir a NDC dos EUA por eles mesmos, contando ainda com a débâcle econômica do carvão. Nada garante que serão bem sucedidos, mas estão tentando.

O pior é o que acontece com a China. O maior emissor, depois de uma certa estabilização em 2014 e 2015, voltou a aumentar suas emissões por carvão, sua exportação de carvão e seu financiamento de usinas novas a carvão pelo fundo afora, inclusive no Brasil, em Candiota (RS). Seu esforço de fechamento da algumas usinas obedecera a uma lógica de combate à poluição atmosférica. Não se pode dizer ainda que a China não cumprirá sua (modesta) NDC, que afinal é expressa em intensidade de carbono e não em emissões absolutas. O país poderá até mesmo atingir seu “pico de emissões” em 2030. Mas isso é altamente insuficiente para uma trajetória global de sequer 2ºC.

A Índia, cuja emissões sobem sem parar, está construindo, assim como a China, dezenas de novas usinas a carvão com emissões comprometidas (lock-in) de uns 40 anos, embora seja um dos países mais dramaticamente vulneráveis à mudança climática. A isso se somam recordes de desmatamento no Brasil e na Indonésia. Essas emissões praticamente são ignoradas no último Emissions Gap, relatório do Pnuma (programa das ONU para o meio ambiente – UNEP, em inglês) onde se analisa o abismo das projeções de emissão atuais em relação a meta de 2ºC 1,5ºC. Por uma razão que considero incompreensível o relatório não incorpora dados de desmatamento por considerar de difícil avaliação –o que é falso– e na hora das recomendações por países, quando fala do Brasil, simplesmente não se refere à nossa maior fonte de emissões e maior potencial de redução das mesmas: o desmatamento. Um escândalo de incompetência!

A Europa parece na trajetória de cumprir a sua NDC, mas certos países, como a Polônia, a Hungria e a República Tcheca bloqueiam qualquer esforço para torná-la mais ambiciosa e compatível com uma trajetória de 2 graus. A Alemanha, ao marcar para 2038 o fechamento de sua última usina a carvão, dá um mau exemplo porque fornece um álibi aos países mais pesadamente carvoeiros. Já a Rússia que teve, recentemente, incêndios florestas na Sibéria ainda mais extensos que os da Amazônia, tem parte de seu establishment político, científico e militar favorável ao aquecimento global –diferente do negacionismo, o “aquecimentismo” (!) — por apostar em ganhos econômicos na agricultura e no degelo do Ártico (petróleo e gás). Não pensem que só Brasil se vê como celeiro do mundo. A Rússia aposta nisso, aparentemente pensando que a mudança climática joga a favor, enquanto aqui sabemos, cientificamente, que ela ameaça muito seriamente nossa agricultura –ainda que boa parte dos ruralistas não se tenha dado conta, ainda.

Nesse quadro o formato e escopo das COPs parecem cada vez mais desamparados. As sociedade civil global se mobiliza, é certo. A geração Greta está nas ruas e nas redes sociais mas sem propostas consequentes para lá do protesto e da denúncia. Não adianta a garotada do Extinction Rebellion, em Londres, colar a bunda no asfalto e tirar um selfie. Precisamos, sim, de uma revolução, mas ela tem que ir fundo na economia, nas suas bases, nos seus sistema de valores. Não basta taxar o carbono e atacar os subsídios –em geral em operações mal geridas que acabam gerando revolta social. É preciso, além de fazer isso politicamente bem feito, precificar positivamente o carbono: o menos-carbono tem que valer dinheiro.

Se governos, bancos centrais e agencias multilaterais são incapazes de fazê-lo temos que criar uma criptomoeda do clima. Uma baseada no lastro do menos-carbono como se fosse o novo ouro. É algo muito mais factível e útil que o bitcoin e, se governos, bancos centrais e agencias multilaterais não conseguem –ou não querem—fazê-lo, caberá à própria sociedade, aos hackers, aos popstars iniciarem um movimento global pela internet. Se a mudança climática é o maior problema da humanidade e está ficando cada dia mais dramática, o menos-carbono é o novo ouro.

Por: Alfredo Sirkis
Fonte: Observatório do Clima

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