Após 5 anos, ONG Viva Chico Mendes é retomada e governo sugere ‘marca’ de líder seringueiro

Ideia é fomentar ecoturismo na cidade onde viveu o líder seringueiro assassinado. Instituto Viva Chico Mendes estava parado desde 2014.

Após 5 anos desativada, ONG retoma atividades e quer fortalecer legado de Chico Mendes  — Foto: Reprodução
Após 5 anos desativada, ONG retoma atividades e quer fortalecer legado de Chico Mendes — Foto: Reprodução

Parado há 5 anos, o Instituto Viva Chico Mendes decidiu retomar as atividades no Acre com o intuito de fortalecer o legado do ex-seringueiro, conhecido mundialmente pela luta da preservação do meio ambiente.

Trabalhando em parceria com a ONG, o governo do estado também pensa em criar uma marca que leve o nome e rosto do líder seringueiro.

No ano em que se completa 31 anos do assassinato de Chico Mendes, a família decidiu ativar a ONG e buscar parcerias políticas para lembrar a história do líder seringueiro morto em 1988, quando saía pela porta para tomar banho do lado de fora da casa dele em Xapuri, no interior do Acre.

Chico Mendes levou tiros de escopeta de Darci Alves, a mando do pai, Darly Alves. Os dois foram condenados a 19 anos de prisão.

Passadas mais de três décadas, a reserva extrativista que leva o nome do seringueiro vem sofrendo com desmatamentos e outros danos. Em agosto, ela liderou o ranking de número de queimadas dentro de áreas ambientais protegidas.

Agora, a ONG tem alguns desafios pela frente. Um deles é reativar a visitação na casa de Chico Mendes, suspensa desde o ano passado, quando o governo decidiu rescindir o contrato de aluguel com a família Mendes.

Eram pagos R$ 5 mil para cada herdeiro, totalizando R$ 20 mil gastos com o aluguel do espaço. Além disso, o governo ficava responsável pela manutenção do espaço.

Casa do Chico Mendes é aberta apenas em casos especiais para estudos, diz irmã  — Foto: Elenira Mendes/Arquivo pessoal
Casa do Chico Mendes é aberta apenas em casos especiais para estudos, diz irmã — Foto: Elenira Mendes/Arquivo pessoal

Trabalhar com a base

O Instituto Viva Chico Mendes ressurge agora tendo à frente o ex-BBB e biólogo Vanderson Brito. Além dele, os filhos do líder, Sandino Mendes e Elenira Mendes, ocupam a vice-presidência e diretoria da ONG, respectivamente.

Segundo Brito, o objetivo é trabalhar estratégias ligadas ao meio ambiente e ecoturismo.

“Queremos reativar a casa Chico Mendes com a ideia do ecoturismo. É fazer de Xapuri o berço mesmo de Chico Mendes. O nosso objetivo não é ele como uma marca, mas sim um legado, um marco de uma história de batalhas e lutas pelos pequenos, pelos povos da floresta”, explica.

O presidente da ONG garante ainda que não há ligações partidárias com relação ao trabalho desenvolvido pelo instituto, mas que precisam de parcerias para tentar retomar algumas atividades.

“O primeiro movimento é a valorização do ecoturismo, trazer Chico Mendes para Xapuri como uma referência, porque as pessoas, o mundo inteiro, têm Chico Mendes como um grande nome, um grande herói ambientalista. Então, que Xapuri se aproprie disso como seu filho mais ilustre e que abrace essa ideia, essa causa para que a gente possa usar lá dentro esse processo de construção”, destaca.

O biólogo destaca também que o discurso e as estratégias de desenvolvimento ambiental não chegam até a base formada por seringueiros, pescadores e aldeias, o que impede a conscientização.

“Esse pessoal está desamparado de certa forma, então o instituto vem para dar voz e vez a eles. Vamos buscar parcerias institucionais, fora do país, para que a gente crie mecanismos de desenvolvimento para todos. O instituto não tem objetivo de se engrandecer, nosso objetivo é apenas ser porta-voz dos pequenos”, garante.

E são nessas parcerias que a ONG pretende conseguir fundos para abrir de vez a casa onde Chico Mendes viveu para visitação. O local é o único ponto no Acre tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Governo cancelou o contrato de aluguel da casa do Chico Mendes em Xapuri — Foto: Caio Fulgêncio/G1
Governo cancelou o contrato de aluguel da casa do Chico Mendes em Xapuri — Foto: Caio Fulgêncio/G1

‘Momento crítico’

Filha do líder seringueiro morto, Elenira Mendes conta que a ONG ressurge em um momento delicado de ações voltadas ao meio ambiente.

Segundo ela, o aumento de casos de desmatamento no estado e poucas ações na preservação foram um alerta para a necessidade do retorno do instituto.

“Na verdade, a gente está vivendo um momento crítico, do ponto de vista ambiental para o país, e a necessidade de um movimento maior era urgente. E também, com o fechamento da casa, a falta de apoio e incentivo, a gente começou a ser muito cobrado para abrir o espaço e surgiu a ideia de construir um novo momento através do instituto e poder começar a traçar estratégias para começar a levantar essa bandeira de luta novamente”, destaca.

Atualmente, a casa onde viveu e morreu Chico Mendes abre apenas em casos especiais, como quando pesquisadores visitam o local e também para a manutenção do espaço, que é feita ao menos duas vezes ao mês e que hoje é de responsabilidade da família.

“O Acre hoje é conhecido mundialmente pela luta dos seringueiros e o principal líder foi o meu pai. Então, potencializar o turismo através dessa figura é importante, independente de governo, de direita ou esquerda, não estamos visualizando um partido político, mas estamos tentando elevar o legado de meu pai”. Destaca.

Produtos do Chico

A intenção da ONG é traçar um projeto turístico para a cidade de Xapuri. A partir daí passa-se a pensar para além da visitação da casa, mas em maneiras de fomentar a atividade na cidade e atrair os turistas para o interior do estado.

E foi por isso que a ONG se reuniu com a secretária de Empreendedorismo e Turismo, Eliane Sinhasique.

De acordo com ela, a ideia é incentivar a criação de produtos que remetam a Chico Mendes e que possam movimentar a economia na região.

“Chico Mendes é um nome conhecido mundialmente. Muita gente tem curiosidade de saber como era a vida dele, onde morou e isso estimula as pessoas a quererem conhecer o local – a cidade onde nasceu, cresceu e lutou”, diz.

E a ideia é que, assim como em outras cidades turísticas, artesãos e empresários se interessem pela “marca” do líder seringueiro.

“Desenvolver produtos com a cara do Chico Mendes, como bonequinho do Chico Mendes em borracha, camiseta, boné, caneca, e desenvolver uma série de possibilidades com os empreendedores locais de Xapuri para começar a comercializar para esses turistas”, explica.

Além da casa, o Museu de Xapuri também segue fechado. Eliane garantiu que, no ano que vem, o espaço deve ser reaberto e reafirmou que o incentivo ao turismo impacta diretamente no cenário econômico da cidade.

“Fora o empreendedorismo que isso gera, porque gera renda para toda a comunidade”, finaliza.

Governo quer criar marcas e produtos com a cara do Chico Mendes — Foto: Quésia Melo/G1
Governo quer criar marcas e produtos com a cara do Chico Mendes — Foto: Quésia Melo/G1

Por: Tácita Muniz
Fonte:
G1

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