Conflito entre grileiros e índios vai aos cinemas com “Amazônia: Sociedade Anônima”

Capa do Filme Amazônia Sociedade Anônima, que estreia em abril de 2020. Foto: Amazônia Sociedade Anônima/Divulgação.

Em 2014, o documentarista Estevão Ciavatta conheceu o território indígena dos Mundurukus no sul do Pará e foi apresentado a um problema comum na Amazônia brasileira: a grilagem, ou seja, o roubo e invasão de terras públicas. De lá para cá, começou a registrar os conflitos e a luta dos indígenas na defesa do seu território e da floresta. O esforço virou o documentário “Amazônia: Sociedade Anônima”, que foi exibido no Festival do Rio neste último final de semana, e expõe a relação entre a invasão dos grileiros e o aumento do desmatamento.

“A regularização fundiária de fato é um problema a ser enfrentado na Amazônia, mas regularizar o irregular é bem diferente de você legalizar o ilegal”, comenta Estevão sobre a Medida Provisória 910, aprovada na semana passada pelo governo e que tem sido encarada como uma anistia aos grileiros. “Há um pensamento muito perverso de que a Amazônia precisa deixar de ser Amazônia para virar uma coisa que não é, para de fato ser integrada e desenvolvida. Em vez de estar tratando como nosso maior tesouro, a gente está tratando a Amazônia como algo que tem que ser dilapidado, saqueado e transformado.”, completa o diretor.

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Confira a entrevista completa que ((o)) eco fez com o documentarista sobre o filme, grilagem, regularização fundiária e o desmatamento na Amazônia:

((o)) eco: Por que você decidiu levar essa história para o cinema e transformá-la em documentário?

Estevão Ciavatta: O filme nasceu em 2014 de uma série que eu fiz para o Fantástico com o mesmo nome: “Amazônia: Sociedade Anônima”. Foi onde eu conheci os Mundurukus e tive contato com essa questão das terras devolutas e do roubo de terras ligado ao desmatamento na Amazônia. Duas realidades que na época pareciam um pouco distantes e hoje estão em conflito. Ao longo de 5 anos eu fui registrando essa realidade ali no entroncamento entre a BR-163 e a Transamazônica, na região dos municípios de Itaituba e Novo Progresso, no Pará, próximo do rio Tapajós. O filme é um retrato de 5 anos de movimentação nesse lugar, que é o centro nervoso da Amazônia, porque ali você tem não só indígenas, populações tradicionais ribeirinhas e grileiros, mas você tem toda a força do agronegócio, projetos de hidrelétrica, de ferrovia e até de hidrovia. E eu acho que o que acontecer ali será muito significativo para o resto da Amazônia.

Qual foi o desafio de contar essa história no documentário de uma forma que comunique a dimensão do problema?

Eu tive acesso a escutas telefônicas das duas maiores operações do Ministério Público, da Polícia Federal e do IBAMA ali na região, e essas escutas explicam muito o que as pessoas não sabem sobre grilagem. Acho que essa é uma das grandes qualidades do filme: fazer com que as pessoas entendam qual é a dinâmica do desmatamento na floresta e como ele afeta a floresta e as populações que vivem nela. Esse era um dos objetivos e acho que quando as pessoas assistirem ao filme, elas vão entender e vão ficar revoltadas.

O que você gostaria que o filme despertasse nas pessoas?

Eu acho que as pessoas têm que ter amor pela Amazônia e têm que ficar revoltadas com o que está acontecendo nos últimos 50 anos na Amazônia. Porque é um problema que está sendo gerado pela nossa geração e que a nossa geração tem o dever moral de resolver. Eu acho que a gente tem um tesouro e quero muito que as pessoas se apaixonem, vão para a Amazônia e entendam o que de fato está em jogo com a ocupação da floresta.

Quando o filme vai ser lançado no circuito comercial?

O filme chega aos cinemas em abril de 2020.

O governo publicou na semana passada, a Medida Provisória 910 [MP 910] que altera as regras para regularização fundiária e que está sendo considerada como uma anistia geral da grilagem no país. Como você vê o atual cenário político no enfrentamento desse problema da grilagem?

Na Amazônia, você tem desde pessoas que ocuparam e desmataram com autorização do governo, pessoas que estão lá há muito tempo trabalhando na terra, à grupos que estão especulando e desmatando ilegalmente. Existe desmatamento de 10 mil hectares ligado à uma pessoa. É muito dinheiro, é um negócio. Deixa de ser uma função social da terra para se tornar um negócio ilegal. A regularização fundiária de fato é um problema que precisa ser enfrentado na Amazônia, mas regularizar o irregular é bem diferente de você legalizar o ilegal. O problema para mim da MP é que ela coloca todo mundo no mesmo saco e premia quem fez desmatamento ilegal. E ainda, o que eu acho mais grave, é que ela estende o prazo para legalização. Já havia sido legalizado até 2004, depois o prazo foi estendido para ocupações até 2011 e agora a MP propõe de esticar essa legalização até 2014. Então ela é problemática porque ela junta todo mundo e dá um sinal que indica “continuem invadindo terras públicas que daqui a pouco a gente vai legalizar vocês também”.

De fato é um assunto que precisa ser enfrentado e as pessoas precisam ter suas áreas legalizadas, mas é uma mensagem dúbia, isso que é ruim. Porque se o assunto não fosse tão afastado do Brasil e dos brasileiros, se fosse uma questão bem trabalhada com a sociedade, com a academia, com as organizações civis e com todo mundo, o tema da regularização fundiária não seria um problema.

Qual você acredita que seja o caminho para combater a grilagem no Brasil?

Existem dois caminhos principais: o primeiro é destinar essas terras públicas brasileiras para que continuem brasileiras, florestas e públicas. Ou seja, transformá-las em unidades de conservação, por exemplo. A privatização dessas terras por si só já vai permitir um desmatamento enorme. Por isso que eu acredito que elas precisam continuar como florestas públicas. O segundo caminho é botar pra frente as operações que já estão desenvolvidas, julgar quem tiver cometido infrações e condenar quem fez errado.

“ A regularização fundiária de fato é um problema que precisa ser enfrentado na Amazônia, mas regularizar o irregular é bem diferente de você legalizar o ilegal.”

Houve alguma ameaça no campo por estar registrando essas cenas e contando essa história?

Eu não fui diretamente ameaçado, mas algumas pessoas que eu filmei estão ameaçadas porque moram lá. Não por causa do filme, mas ameaçadas pela atividade que realizam. Entrevistei pessoas que pediram para não aparecer no filme, porque senão correriam risco de vida, e outras que pediram para não falar porque impera a lei do silêncio. É uma situação criminal onde as pessoas vivem sob o domínio do medo. Uma das pessoas que eu cheguei a entrevistar lá, mas que não entrou no filme, morreu. Mataram. Um policial, que aparece no filme, foi morto. Novo Progresso é uma das regiões mais violentas do Brasil. Não dá para achar que é normal e que é legal o que as pessoas estão fazendo lá.

O documentário retrata a situação dos Mundurukus. Como os indígenas estão lidando com as invasões de terras? Houve alguma mudança depois que o Bolsonaro assumiu?

A situação para os Mundurukus e para os indígenas no geral nunca foi boa. Não foi boa no governo Dilma, não foi boa no governo do Temer e não é boa no governo Bolsonaro. Eu diria que não é boa há 500 anos. Mas com certeza o atual discurso presidencial e o empoderamento dos saqueadores da floresta fez aumentarem as invasões e aumentarem as ameaças. A gente precisa fortalecer as organizações indígenas e os próprios índios porque eles são os guardiões da floresta. Mais do que o IBAMA, mais do que a própria Polícia Federal, eles que estão lá na linha de frente, cara a cara com os desmatadores. E por os enfrentarem, recebem ameaças. E esse enfrentamento é muito desigual, parece que você está no século XVI, quando os portugueses chegaram aqui. É índio de tacape e arco e flecha, e pessoas fortemente armadas com o mesmo pensamento dos portugueses de “bota a floresta abaixo, mata o que tiver que matar e o desenvolvimento do Brasil será dessa maneira”. Parece que não aprendemos nada em 500 anos. A gente já viu que isso não deu certo, que não é essa a maneira certa de ocupar. Há um pensamento muito perverso de que a Amazônia precisa deixar de ser Amazônia para virar uma coisa que não é, para de fato ser integrada e desenvolvida. Esse é um pensamento completamente torto sobre o que é o futuro da Amazônia, ainda mais quando a gente vê todas as possibilidades de biotecnologia, de ativos e a missão estratégica que a biodiversidade vai ter na economia mundial. Em vez de estar tratando como nosso maior tesouro, a gente está tratando a Amazônia como algo que tem que ser dilapidado, saqueado e transformado.

Quais suas expectativas para o futuro desses conflitos na Amazônia?

O desmatamento está aumentando. No último ano foram mais 9 mil km² [dados do Prodes para o período entre agosto de 2018 e julho de 2019], ou seja, sete vezes a cidade de São Paulo desmatada em um ano. É muita coisa. Eu acho que a situação tende a ficar mais tensa. Mais gente morrer, mais índios morrerem e o Brasil ficar mais pobre, premiando uma ocupação irracional da terra. A questão não é não desenvolver a Amazônia ou preservar a Amazônia para que ninguém toque nela. O que a gente está falando é para que a Amazônia seja para quem vive nela e que a floresta tenha um papel estratégico para o futuro econômico, climático e pro futuro espiritual do Brasil. E o governo atual não parece estar ligando para nenhum desses pontos. Ou seja, a situação está muito ruim para floresta e para quem ama, vive ou trabalha na Amazônia..

“ Em vez de estar tratando como nosso maior tesouro, a gente está tratando a Amazônia como algo que tem que ser dilapidado, saqueado e transformado.”

A gente não tem mais nenhuma necessidade de desmatamento de corte raso pro desenvolvimento econômico do Brasil. Já temos quase 1 milhão de km² desmatados, são 4 vezes o estado de São Paulo. É mais do que suficiente para agropecuária, para as hidrelétricas, pras cidades, para mineração. Desse 1 milhão, metade são de pasto, pouco produtivo; apenas 45 mil, nem 5%, é de agricultura. Podemos triplicar a produtividade do Brasil sem ter que desmatar um hectare a mais. Para isso, a gente precisa ter um consenso de que o desmatamento precisa acabar. Num primeiro momento, o desmatamento ilegal, e num segundo momento, qualquer desmatamento. Você pode até ter concessões florestais. Sou até muito a favor do uso de madeira como matéria-prima. Muito melhor e mais inteligente que o plástico, mas a exploração madeireira tem que ser feita de forma inteligente também. A gente tem já empresas fazendo esse tipo de manejo a Amazônia; comunidades como as da Floresta Nacional do Tapajós (PA), fazendo este tipo de manejo, e dá muito certo. A floresta está lá há 50 milhões, mas só há 14 mil anos que ela está convivendo com os humanos, e nos últimos 50 a gente desmatou esses 1 milhão de km². Mas o que ela foi nos últimos 14 mil anos foi um lugar de convivência e intensa negociação entre entes humanos e não-humanos. E ela precisa continuar sendo esse lugar. Até para o próprio futuro espiritual do Brasil. A floresta é o lugar de limpeza. Se o Brasil acabar com a Amazônia, o Brasil vai acabar junto.

Agente do Ibama em operação filmada durante o filme. Foto: Amazônia Sociedade Anônima/Divulgação.

Por: Duda Menegassi
Fonte: O Eco

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