“Eles querem que a gente recue e fique com medo, mas não vou deixar de lutar”, diz liderança Munduruku que teve a casa invadida

Alessandra Korap Munduruku também teve documentos, relatórios e agendas furtados durante a invasão. “Sei do risco que eu corro”, diz ela

(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Dez dias depois de liderar uma grande mobilização, em Brasília, contra garimpo e hidrelétricas na bacia do rio Tapajós, a liderança indígena Alessandra Korap Munduruku, de 35 anos, teve sua residência invadida, no município de Santarém (Pará) . Documentos e relatórios pessoais e de trabalho foram furtados. Por volta de 20h40 do último sábado (30), Alessandra, o marido e os dois filhos, de 11 e 13 anos, retornaram à sua casa, após visita a uma amiga, também indígena, quando foram surpreendidos com a porta arrombada.

“Ladrão qualquer não leva documento, relatório, pen drive, agenda. A não ser alguém para fazer algum mal. Isso só interessa a mim, ao cacique. Ladrão comum leva botija, bicicleta. Eu creio que [a invasão] aconteceu para dar um recado”, disse Alessandra Munduruku, em entrevista à Amazônia Real. A indígena disse que só conseguiu fazer um Boletim de Ocorrência na Polícia Civil na segunda-feira (02). Ela também pretende fazer o registro da Polícia Federal.

A liderança contou que as ameaças que recebe são constantes, geralmente enviadas por áudio, em redes sociais via celular, mas admitiu que nunca havia passado pela experiência de ter a casa invadida. Ela afirmou que máximo que chegou próximo de um perigo tão veemente contra sua vida aconteceu em 2018, durante uma audiência pública na aldeia Praia do Índio, onde nasceu, no município de Itaituba, região do médio rio Tapajós, quando três pessoas não-indígenas tentaram abordá-la com violência. “Não aconteceu nada porque os meninos guerreiros estavam lá e expulsaram os invasores”, contou.

Alessandra Korap Munduruku é um dos nomes de maior projeção do movimento indígena do país atualmente e uma representante de grande expressão de seu povo. Durante a programação do Acampamento Terra Indígena, em abril deste ano, sua imagem impactante, durante audiência com deputados federais em Brasília, cobrando ações em defesa dos indígenas, circulou em vídeos nas redes sociais e imprensa.

Alessandra Korap Munduruku em audiência na Câmara Federal (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

A liderança mudou-se com a família para Santarém no início de 2019 para cursar faculdade de Direito na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), uma demanda de seu próprio povo e apoiada pelos caciques. “Mudei para Santarém para buscar conhecimento pelo direito das terras indígenas, para defender mais, para lutar contra os empreendimentos, na forma de papel”, disse Alessandra à Amazônia Real.

Os territórios Munduruku são um dos principais focos de mineração e garimpo ilegal do país. Em diferentes momentos, os Munduruku já manifestaram ser contrários à atividade, que é defendida pelo presidente Jair Bolsonaro. Em setembro passado, o movimento Munduruku Ipereg Ayu divulgou uma carta reiterando o posicionamento.

As ameaças aos povos indígenas do país ganharam força em 2019, com a retórica antiambiental de Jair Bolsonaro e sua evidente disposição em acabar com vários direitos das populações tradicionais do país. Isso tem fragilizado a segurança dos indígenas, que estão mais vulneráveis aos ataques de fazendeiros, garimpeiros e madeireiros. Em novembro, a liderança Paulo Paulino Guajajara, 26 anos, foi assassinado por madeireiros na Terra Indígena Arariboia, no Maranhão. A Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, também vem sofrendo repetidas invasões com ataques de tiros em bases de índios isolados, desde o final de 2018. Leia a seguir a entrevista que Alessandra Korap Munduruku concedeu à agência.

Amazônia Real – O que aconteceu na sua residência?

Alessandra Korap Munduruku – Eu tinha saído dia 30, por volta de 15h. Como o sol estava muito quente, esperei dar 17h. Eu e meu marido e meus filhos [dois meninos]… A gente mora em Santarém, a gente fica presa, agoniada. Então, decidimos sair e eu fui visitar uma amiga, Auricélia Arapiuns, uma estudante indígena. A gente está sofrendo muitos ataques. Eu fui dar uma força para ela. A gente voltou por volta de 20h40. Fui a primeira a abrir porta, mas já estava aberta. Perguntei do meu marido se ele tinha deixado a porta aberta e ele disse que não. Meus filhos entraram e disseram: “Levaram a TV!”. Depois vimos que também levaram o celular, levaram o tablet que os meninos brincam. A câmera fotográfica estava em cima da cama, estava toda aberta. Tiraram o cartão de memória. Achei estranho. Daí fomos ver o que mais levaram. O menino disse: “Levaram a tua mochila também, mãe!” Na mochila havia documentos [não os pessoais], recibos de notas fiscais para prestar conta da viagem que fizemos, alimentação, relatório para um projeto que temos. Levaram a minha agenda. Deixaram a câmera, que é um objeto caro, usado pelo coletivo audiovisual das meninas [cineastas Munduruku], que a gente usa em viagem; uma arma que a gente usa para divulgar nosso trabalho.

Amazônia Real – Ao ver essa situação, o que você pensou?

Alessandra Korap Munduruku – Fiquei muito preocupada. Pensei logo nos meus filhos, porque a gente tinha ido a Brasília. Fizemos várias denúncias, falando de demarcação de território, contra as barragens, o garimpo, pressão na terra indígena. Estávamos com 50 lideranças em Brasília, fizemos coletiva de imprensa. A gente recebeu várias ameaças também.

Amazônia Real – Como são essas ameaças?

Alessandra Korap Munduruku – Isso acontece mais por áudio [via celular]. Eu tinha esquecido o meu celular no aeroporto de Brasília. O que eu uso mais, que tem tudo. Ainda bem que esse não levaram. Ele foi encontrado e vão me devolver. O celular que levaram era só um com chip que eu uso apenas para me comunicar.

Mulheres Munduruku no canteiro de obras da usina São Manoel (Foto: Caio Mota/FTP)

Amazônia Real – Como você avalia o furto de documentos e essa invasão?

Alessandra Korap Munduruku – No meu ponto de vista, das coisas que sumiram, a minha bolsa, com todo o volume…. Ladrão qualquer não leva documento que tenha relatório, tenha pendrive, agenda. A não ser alguém para fazer mal. Ladrão leva botija, bicicleta. Mas pendrive, documentos, cartão de memória? Isso só interessa a mim, ao cacique. Eu creio que é para dar recado. Por isso fiquei preocupada com meus filhos. E se eu não tivesse em casa quando ela foi invadida [referindo-se aos filhos ficarem sozinhos]? Se recebesse só a notícia que mataram meus filhos? Meu menino ficou preocupado comigo: “Mãe, não quero que matem a senhora”. O coração fica muito apertado. Sei do risco que eu corro. Quem está lutando para defender o território, para defender o rio, corre risco a qualquer momento. Ainda mais com este governo. Eles não têm mais medo, querem matar. Eles têm o apoio do próprio presidente. Querem botar a culpa em todo mundo, menos neles. Os culpados, para eles, são sempre os indígenas, os quilombolas, as ongs. Mas eles são os primeiros a fazer.

Amazônia Real – Você desconfia de alguém ou de algum grupo?

Alessandra Korap Munduruku – Não desconfio de ninguém. A gente briga com tanta gente: sojeiro, garimpeiro, madeireiro, grileiro, palmiteiro, fazendeiro. Nesta segunda-feira (02) meu marido foi fazer o Boletim de Ocorrência na Polícia Civil. No domingo, já havíamos ido fazer, mas não conseguimos porque nos disseram que não houve flagrante. Então a gente tem que amarrar o ladrão?

Amazônia Real – Você já sofreu algum ataque semelhante?

Alessandra Korap Munduruku – Na aldeia Praia do Índio, no Médio Tapajós, já tentaram, só que tinha os meninos guerreiros para vigiar minha casa. Mas em Santarém, foi a primeira vez. Na aldeia foi numa audiência sobre garimpo. Tentaram entrar na comunidade. Queriam participar da audiência, mas como era nossa [audiência], com o Ministério Público Federal, Polícia Federal, Fiocruz, etc., eles não podiam participar.

Amazônia Real – O que você vai fazer agora? Teme que se repita?

Alessandra Korap Munduruku – Vou para um lugar mais seguro. Conversei com meus filhos. Sei que é uma fase, mas não vou deixar de lutar. É isso que eles querem: que a gente recue, fique com medo. “Ela vai parar”, dizem. A não ser que eles realmente me matem e calem minha boca. Pode até acontecer isso, mas a semente vai ficar mais forte.

Amazônia Real – Você mora em Santarém desde quando?

Alessandra Korap Munduruku – Eu vim este ano para estudar Direito. Tive que sair da aldeia, pagar aluguel, energia, comida, água, para sobreviver na cidade para buscar conhecimento pelo direito das terras indígenas, para defender mais, lutar contra os empreendimentos, na forma de papel. Conversei com meus parentes. A minha luta é muito maior fora. Quero levantar minha cabeça, tenho que sair com diploma… E não como acontece, querendo me expulsar, querendo me impedir de estudar. Eu decidi ficar e vou ficar. Tenho que aguentar e aguentar eles.

A Amazônia Real procurou a assessoria de comunicação da Polícia Civil do Pará para saber a respeito das investigações do caso. A assessoria informou que “não há registro na PC acerca deste caso”.

Alessandra Munduruku esteve na Greve Mundial pelo Clima, em Berlim
(Foto: Adriana Montanaro)

Por: Elaíze Farias
Fonte: Amazônia Real

Deixe um comentário