Experimentos tentam descobrir como florestas reagem ao aumento de CO2 na atmosfera

Equipamentos instalados na Amazônia e em uma floresta temperada na Inglaterra (foto) vão simular uma elevação de 50% na concentração atmosférica de dióxido de carbono para avaliar os efeitos nos ecossistemas (foto: BIFoR FACE / Universidade de Birmingham)

Em uma área florestal ao norte de Manaus, no Amazonas, seis conjuntos de torres vão monitorar, 24 horas por dia, as condições da atmosfera e do solo na maior floresta tropical do mundo. Cerca de 8 mil quilômetros dali, em uma propriedade próxima de Birmingham, na Inglaterra, torres muito parecidas já efetuam o mesmo tipo de medida. Os experimentos buscam descobrir como as florestas tropical e temperada responderiam a um cenário em que a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera fosse 50% maior.

Para isso, tanques com 50 toneladas de CO2 foram acoplados às torres que integram o projeto FACE (sigla em inglês para Free-Air CO2 Enrichment). No AmazonFACE, o experimento da Amazônia, o gás será bombeado por 16 torres de 30 metros de altura – que ultrapassam a copa das árvores – em seis trechos de floresta, enquanto uma outra torre no centro, dotada de instrumentação científica, faz as medições. A configuração é a mesma no BIFoR FACE, em Birmingham. Espera-se, com os dados obtidos, subsidiar a tomada de decisões para mitigar ou mesmo evitar os impactos da elevação do CO2 atmosférico.

“A capacidade da floresta amazônica de absorver carbono foi reduzida em 30% desde os anos 1990. O cenário que prevíamos para 2050, portanto, deve acontecer muito mais cedo e a Amazônia vai se tornar neutra em carbono ou mesmo se tornar uma fonte emissora de CO2. Com o AmazonFACE buscamos entender como o aumento de dióxido de carbono afeta o funcionamento e a resiliência da floresta amazônica”, disse David Montenegro Lapola, professor do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Lapola apresentou o projeto, apoiado no âmbito do Programa de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais, durante o workshop FAPESP-Birmingham, em dezembro.

“A FAPESP vem colaborando com a Universidade de Birmingham desde 2010. Este é um momento tanto de celebrar o sucesso da parceria como de vislumbrar formas de obter novos resultados e oportunidades”, disse Roberto Marcondes Cesar Júnior, membro da coordenação do Programa Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP, durante a abertura do evento.

“A ideia do encontro é apresentar os projetos em andamento, em diferentes áreas do conhecimento, conduzidos em conjunto por pesquisadores de São Paulo e da Universidade de Birmingham. Nosso objetivo é que novas parcerias possam ser criadas para pesquisas executadas nos dois países”, disse à Agência FAPESP Robin Mason, pró-reitor de internacionalização da Universidade de Birmingham (UoB).

Lapola conduz a pesquisa em colaboração com Rob Mackenzie, diretor do BIFoR FACE. “Estamos interessados na resposta da floresta como um todo, não apenas de uma folha ou de uma árvore em particular, mas no ecossistema: as plantas e as comunidade de microrganismos e de invertebrados”, disse Mackenzie, professor da School of Geography, Earth and Environmental Sciences da UoB.

O britânico explicou que a floresta em que o experimento é realizado no Reino Unido é madura, tem árvores com mais de 150 anos de idade. Ainda assim, elas continuam respondendo ao aumento de dióxido de carbono. Uma das respostas mais evidentes, segundo o pesquisador, é no balanço de nitrogênio e fósforo.

“O dióxido de carbono é transformado em açúcar pelas plantas. À medida que aumenta a disponibilidade de CO2, porém, elas precisam aumentar também o consumo de outros nutrientes para manter o equilíbrio. Por isso, procuram no solo mais fósforo e nitrogênio”, disse.

Na Amazônia, portanto, o solo pobre em fósforo típico da região pode impedir as árvores de se adaptarem ao aumento de CO2 na atmosfera, conforme já mostrou um trabalho coordenado por Lapola (leia mais em: agencia.fapesp.br/31140).

Por: André Julião
Fonte: Agência Fapesp

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