Tartaruga-da-amazônia se multiplica, mas mudanças climáticas ainda representam risco

Tartarugas-da-amazônia na comunidade de La Virgen, no estado de Arauca, Colômbia. Foto: Wildlife Conservation Society Colombia.

A tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa) habita a vastidão das bacias dos rios Amazonas e Orinoco há séculos. É o maior quelônio de água doce da região e uma das espécies mais consumidas como alimento até hoje — sua carne é considerada uma iguaria na região.

Isso fez com que sua população tenha sido drasticamente reduzida desde o século 19, quando a espécie chegava a dezenas de milhões, segundo estimativas históricas. Naturalistas estrangeiros da época relataram que era praticamente impossível navegar no Rio Tefé, no estado do Amazonas, sem que o barco atingisse tartarugas nadando pelo caminho.

Nas últimas décadas, diante da extinção iminente em partes da América do Sul, foram lançadas diversas iniciativas de conservação da tartaruga-da-amazônia, principalmente no Brasil. No entanto, nenhum dos esforços foi capaz de pesquisar a espécie em toda a sua área de ocorrência — um processo vital, dizem os biólogos, para reunir dados e avaliar as ameaças. Para, então, planejar as melhores estratégias de proteção.

Diante disso, em 2014, um grupo de pesquisadores e ambientalistas de seis países da Amazônia (Peru, Equador, Brasil, Equador, Colômbia e Bolívia) se reuniu em Balbina, no Amazonas, com o objetivo de realizar uma pesquisa abrangente sobre o quelônio.

O encontro serviu como ponto de partida para um amplo estudo publicado recentemente na revista Oryx. Os resultados, divulgados no artigo “The Future of the Giant South American River Turtle, Podocnemis expansa”, destacaram o sucesso das ações de conservação, registrando mais de 147 mil fêmeas protegidas ou monitoradas por 89 iniciativas e programas de conservação entre 2012 e 2014. Desse total, dois terços estão no Brasil (109 mil), seguidos pela Bolívia (30 mil), Peru (4,1 mil), Colômbia (2,4 mil), Venezuela (1 mil) e Equador (6).

Locais com atividades contínuas de conservação ou monitoramento da Podocnemis expansa nas bacias hidrográficas dos rios Amazonas e Orinoco, indicando o número estimado de fêmeas reprodutoras para cada local. O tamanho dos pontos corresponde ao número de fêmeas em desova em cada local. Crédito Oryx, © 2019 Fauna & Flora International.

Embora as estatísticas atuais da tartaruga-da-amazônia sejam motivo de comemoração, é bom ressaltar que ainda estão muito abaixo daquelas registradas no período entre 1848 e 1859, quando 48 milhões de ovos produzidos por 400 mil fêmeas eram coletados anualmente nos rios Amazonas, Solimões e Madeira, principalmente para exportação para a Europa, afirma Germán Forero, diretor científico da Wildlife Conservation Society (WCS) Colômbia e principal autor do estudo.

“É uma boa notícia que ainda haja um grande número de tartarugas nas bacias do Amazonas e do Orinoco, e que haja um grande número de pessoas e comunidades preocupadas e investindo em sua conservação”, comenta Forero. “Isso representa uma grande oportunidade para a espécie. Muitas comunidades querem preservá-la para uso ao longo do tempo, pois a [tartaruga-da-amazônia] representa parte de sua dieta e cultura”.

Ainda assim, Forero sente a necessidade de moderar as boas notícias: “As cifras não podem ser interpretadas sem contexto. Esse é o número de fêmeas protegidas ou monitoradas, [mas] há muito mais fêmeas na bacia. Além disso, [como] os números costumavam ser muito maiores, isso não significa que a espécie esteja se recuperando. Algumas populações parecem estar crescendo, enquanto outras parecem estar diminuindo. É por isso que o esforço para reunir informações para o monitoramento em longo prazo é tão importante”.

Com o estudo concluído, o próximo objetivo da equipe de pesquisa é desenvolver um observatório que possa monitorar espécimes e estabelecer tendências em toda a região, além de servir como repositório de todos os dados coletados, das informações técnicas e das lições aprendidas nos seis países amazônicos. Toda essa informação estaria disponível para acesso público.

Filhote de tartaruga-da-amazônia deixando o ovo na Praia do Jacaré, na Reserva Biológica do Rio Trombetas (Pará). Foto: Camila Ferrara.

Ameaças: traficantes e mineradoras

“Às vezes, de noite, 300 fêmeas saem juntas da água para desovar”, lembra Camila Ferrara, coautora do estudo e pesquisadora da WCS Brasil. Ela se refere à época do ano em que os animais deixam igapós, lagos e rios e migram para praias de nidificação, em alguns casos viajando centenas de quilômetros para botar ovos. O Rio Guaporé, cuja nascente é em Mato Grosso, corresponde a uma das viagens mais longas que a tartaruga-da-amazônia faz, em direção ao estado boliviano de Beni, onde o nome do rio muda para Iténez, em uma região que abriga a maior população protegida de P. expansa fora do Brasil.

Após desovar nas praias fluviais, as fêmeas não vão embora, como acontece com outras espécies de tartarugas; em vez disso, aguardam por meses o nascimento dos filhotes, para que possam retornar juntos ao seu habitat aquático. É a única espécie conhecida que tem esse comportamento.

Infelizmente, essa sociabilidade natural torna esses indivíduos e seus ovos mais vulneráveis à predação humana. E visíveis esses animais certamente são: uma fêmea adulta pode atingir até 1,09 m de comprimento e 90 kg. Os machos adultos medem entre 40 e 50 cm.

Atualmente, a Lista Vermelha da IUCN avalia as tendências populacionais da tartaruga-da-amazônia na categoria “não especificada”, apontando que a população da espécie é extremamente fragmentada, com um “declínio contínuo de indivíduos maduros”, e exigindo mais ações de pesquisa e conservação. Embora não classificada como ameaçada de extinção na Lista Vermelha, a tartaruga está listada no Apêndice II da CITES: “Não está necessariamente ameaçada de extinção agora, mas isso pode mudar, a menos que o comércio seja controlado de perto.”

Entre os 89 locais de estudo da P. expansa, a nova pesquisa encontrou grandes variações nas tendências populacionais, inclusive dentro do mesmo país. No Brasil, por exemplo, o Programa Quelônios da Amazônia, coordenado pelo Ibama, notou que as áreas monitoradas (incluindo os sistemas dos rios Tapajós, Guaporés, foz do Amazonas e Purus) sofreram um aumento no número de fêmeas nas praias de nidificação entre 1980 e 2014, enquanto geralmente nos sistemas fluviais menos monitorados (incluindo Javaés e Baixo Rio Branco, mas não o Trombetas, que era razoavelmente bem monitorado) os números caíram.

Grupo de tartarugas-da-amazônia retorna ao rio após a desova no Tabuleiro Monte Cristo (Pará). Foto: Roberto Lacava/Ibama

“O Baixo Rio Branco, em Roraima, é considerado uma das áreas mais perigosas para se trabalhar [com conservação]. É chamado de “rio pirata” porque atrai muitos traficantes de tartarugas, e um oficial do Ibama foi assassinado na região há alguns anos”, disse Ferrara à Mongabay.

Segundo a bióloga, as ameaças à espécie incluem a caça predatória de fêmeas e ovos, a inundação de praias causada por barragens e operações de mineração perto do habitat das tartarugas. Um exemplo é a Reserva Biológica do Rio Trombetas, que fica próxima à Mineração Rio do Norte — o maior produtor de bauxita do país, localizado às margens do Rio Trombetas, no Pará. A bauxita é utilizada para a fabricação de alumínio.

“Para o transporte marítimo, a empresa de mineração dragou o rio, e essas interferências provavelmente interferiram na comunicação das tartarugas”, explica Ferrara. Nas décadas de 1960 e 1970, a Reserva Biológica do Rio Trombetas foi uma das áreas de desova mais importantes do Brasil, com 6,5 mil fêmeas adultas. Hoje, elas são menos de 600.

“O número de filhotes nascidos também depende de recursos suficientes para supervisão e monitoramento, mas, sob o atual governo [de Jair Bolsonaro], os recursos diminuíram significativamente”, acrescenta Ferrara.

O monitoramento de ameaças à tartaruga-da-amazônia também é dificultado pelo comportamento da espécie. Por exemplo, durante seu doutorado, a pesquisadora notou que as fêmeas da P. expansa e seus filhotes se comunicam dentro e fora da água. “Os sons eram emitidos por filhotes no ovo, em ninhos abertos, no rio e em condições de cativeiro. As fêmeas adultas foram gravadas produzindo sons no rio durante a migração, a desova e em cativeiro, respondendo aos sons dos filhotes”, observa o estudo. Os pesquisadores acreditam que os ruídos decorrentes da atividadade mineradora podem interferir nesses padrões de comunicação.

Em estudo recente, Ferrara conclui: “A poluição sonora causada pelas atividades humanas, antes considerada irrelevante na conservação das tartarugas, agora pode gerar alguma preocupação. O ruído produzido por navios, barcos, jet skis e outras embarcações motorizadas pode afetar a recepção do som pelas tartarugas e potencialmente interferir em sua comunicação, a ponto de prejudicar a sobrevivência de filhotes e a comunicação de adultos”.

Atualmente, Ferrara está utilizando imagens de satélite e registros sonoros para investigar como e quando as tartarugas se comunicam, com um olhar sobre como esse conhecimento pode ser utilizado para aprimorar os esforços de conservação.

Filhotes de Podocnemis expansa no Rio Crixás-Açu, em Goiás. O Ibama soltou mais de 83 milhões de filhotes de diferentes espécies entre 1979 e 2018 por meio de seu Programa Quelônio da Amazônia. Foto: Luiz Alfredo Batista/Ibama.

A luta contra as mudanças climáticas

Outra influência humana que afeta a tartaruga-da-amazônia é a mudança climática, que está alterando temperaturas, padrões de chuva e níveis fluviais nas 11 grandes áreas de nidificação do Brasil.

“Sempre houve uma certa variação anual no número de nascimentos de tartarugas devido ao clima e à pressão humana. Mas as mudanças climáticas podem estar impactando essas populações de maneira mais ampla”, diz Roberto Lacava, analista ambiental do Ibama e coordenador nacional do Programa Quelônios da Amazônia.

As mudanças climáticas alteram o regime de chuvas, explica Lacava, que por sua vez altera os níveis da água dos rios, gerando eventos extremos de precipitação que causam a inundação de ninhos antes da eclosão dos ovos. As fêmeas de tartarugas de água doce dependem da diminuição do nível dos rios para que as praias de desova sejam expostas e os ninhos possam ser construídos. Quando os rios sobem rapidamente, inundando os ninhos antes do nascimento dos filhotes, os ovos apodrecem e o número de nascimentos diminui.

“Isso aconteceu no Tabuleiro Monte Cristo [praia de nidificação localizada no Pará], na temporada 2018/2019, quando 78% dos ninhos foram perdidos devido a inundações atípicas”, afirma o analista. O clima extremo não é a única causa de tais eventos: grandes vazamentos de barragens também podem inundar as praias de desova a jusante, a menos que os operadores controlem os lançamentos durante os períodos de nidificação.

A capacidade reprodutiva da tartaruga também pode ser afetada pela crise climática por meio de uma complexa sequência de eventos. A tartaruga-da-amazônia é predominantemente herbívora e depende da elevação do nível dos rios para a criação de matas alagadas (os igapós), em que frutas e folhas caem na água, servindo de alimento aos quelônios. Mas durante a seca, intensificada pelas mudanças climáticas, quando os rios não sobem o suficiente para inundar a região, a alimentação das tartarugas fica comprometida e os animais têm menos energia para se reproduzir.

“O futuro das tartarugas amazônicas diante das mudanças climáticas é preocupante”, afirma Lacava. “Para um animal que evoluiu de forma tão sincrônica com o regime hídrico da Bacia Amazônica — que determina tanto a reprodução quanto os alimentos disponíveis à espécie — é difícil pensar em qualquer prognóstico que não seja catastrófico”.

“Algumas medidas podem mitigar esses impactos, como elevar artificialmente o nível das praias, mas têm resultados controversos e altos custos para sua implementação”, conclui Lacava. Portanto, a sobrevivência em longo prazo da tartaruga-da-amazônia depende não apenas da conservação da região, mas também de ações internacionais para conter as mudanças climáticas.

Citações:

Forero-Medina, G.; Ferrara, C.; Vogt, R.; Fagundes, C.; Balestra, R.; Andrade, P.; . . . Horne, B. (n.d.). On the future of the giant South American river turtle Podocnemis expansaOryx, 1-8. doi:10.1017/S0030605318001370.
Bates, H.W. (1892) The Naturalist on the River Amazon. John Murray, London, UK.
Zwink, W. & Young, P.S. (1990) Desova e eclosão de Podocnemis expansa (Schweigger, 1812) (Chelonia: Pelomedusidae) no Rio Trombetas, Pará, Brasil. Forest, 90, 34-35.

Por: Jenny Gonzales
Fonte: Mongabay

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