Segundo estudo, Amazônia pode se transformar de depósito de carbono em fonte de emissão

Por ser muito úmida, a Amazônia não é naturalmente propícia a incêndios. Quando eles ocorrem, é mais provável que tenha sido por ação humana. Foto: Paulo Brando

As temperaturas globais continuaram com seu implacável padrão de aumento no ano passado, marcando o ano de 2019 como o segundo mais quente já registrado, de acordo com a Nasa e a NOAA, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos. Junto ao calor e à seca subsequente, vieram tempestades de fogo que consumiram amplas faixas de florestas em quatro continentes.

Na Amazônia brasileira, o fogo queimou ao menos 125 mil hectares em agosto de 2019, chegando a escurecer o céu da cidade de São Paulo.

Mas o pior ainda pode estar por vir, de acordo com um estudo feito pelo pesquisador Paulo Brando, da Universidade da Califórnia em Irvine, e por sua equipe, publicado na Science Advances.

A partir de modelos, os pesquisadores concluíram que um clima cada vez mais quente e seco na Amazônia, somado ao desmatamento, pode desencadear incêndios que chegariam a atingir até 16% da floresta até 2050, liberando até 17 bilhões de toneladas métricas de dióxido de carbono e possivelmente transformando a paisagem, que deixaria de depositar carbono para começar a emiti-lo.

Os pesquisadores, no entanto, encontraram motivos para esperança: os modelos indicam que a prevenção ao desmatamento pode reduzir áreas florestais queimadas em até 30% e cortar emissões de gases causadores do efeito estufa, quando provocadas por incêndios, em até 56%.

“Esforços agressivos para reduzir fontes de ignição e suprimir incêndios não desejados podem reduzir a probabilidade de queima de amplas faixas da Floresta Amazônica, incluindo a proteção de áreas e reservas indígenas”, escreveu a equipe de Brando. “Estas ações serão mais eficazes se acompanhadas de uma queda global nas emissões de gases causadores do efeito estufa”.

A perda crescente de carbono armazenado na Amazônia para a atmosfera entre agora e 2050 tem sérias implicações para um mundo que busca urgentemente conter emissões e impactos devastadores da mudança climática.

Os incêndios surgem no sul da Amazônia, onde as chamas são mais frequentemente provocadas por agricultores e pecuaristas – para conversão em áreas de cultivo e pastagens – ou por grileiros que ateiam fogo em áreas protegidas e depois vendem as propriedades desmatadas com alto lucro. Foto: Paulo Brando.

Fogo, clima e desmate impulsionam liberação de carbono

Os modelos utilizados na pesquisa indicam que os incêndios na Amazônia provavelmente continuarão se intensificando até 2030, dado o aumento da temperatura e a maior frequência de secas decorrentes do aquecimento global, além do desmatamento desenfreado por conta da expansão do agronegócio, que seca vegetações baixas e cria mais bordas florestais inflamáveis. Este agravamento é esperado até mesmo se houver uma redução nas emissões globais de gases causadores do efeito estufa, o que parece improvável com base no fracasso nas negociações de dezembro na COP25.

“Mesmo em um cenário otimista, nossos resultados mostram que haveria um agravamento em regimes de incêndios por conta da mudança climática”, diz Brando. “O desmatamento criou mais bordas inflamáveis, que irão intensificar ainda mais os incêndios. É como colocar um bloco de gelo na água quente e então esmagá-lo. O gelo esmagado derrete mais rápido porque a superfície é maior para derretimento”. Da mesma forma, florestas degradadas vizinhas a pastos, áreas de cultivo ou savanas secas queimam mais facilmente que florestas intactas, mais conservadas em seu interior.

Esta é uma notícia ruim para a região e para o mundo. Todos os anos, a Amazônia remove uma grande quantidade de dióxido de carbono da atmosfera, sequestrando-o na vegetação e nos solos e desempenhando um papel crucial no ciclo de carbono do planeta. Mas os crescentes incêndios na região ameaçam remover de modo permanente a biomassa de carbono da floresta, transformando um dos principais captadores do gás do mundo em uma fonte de emissão.

Segundo Brando, uma das conclusões mais preocupantes do estudo diz respeito às áreas protegidas e aos grandes blocos de partes intactas da floresta. É esperado que os dois pontos sejam mais suscetíveis a incêndios no futuro.

“No momento, áreas protegidas e reservas indígenas são resistentes ao fogo porque amplas faixas florestais conseguem manter condições climáticas úmidas”, explica o pesquisador. “Em nossas simulações, no entanto, elas poderão perder proteção no futuro. Fontes de ignição próximas às áreas protegidas têm mais chance de continuar [espalhando suas chamas para áreas conservadas da floresta] conforme a mudança climática e a seca criam mais áreas inflamáveis na parte intacta da floresta”.

Segundo Brando, uma forte vigilância é necessária para conter a tendência, com uma redução ativa de fontes de ignição e uma rápida supressão de incêndios antes que saiam de controle. No entanto, o pesquisador enfatiza um compromisso ainda mais relevante: “Para evitar uma tempestade de fogo no futuro, a ação mais importante é reduzir o desmatamento”.

Imagem do Arco do Desmatamento, uma vasta faixa de antiga floresta primária convertida em mata degradada, fazendas e plantações de soja. Imagem: KBHS Social Sciences.

Incêndios florestais não são naturais na Amazônia brasileira Ane Alencar, diretora de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), realizou uma extensa pesquisa sobre os impactos da mudança climática e da fragmentação florestal nos incêndios que devastam a Amazônia brasileira. Segundo ela, há uma forte correlação entre os crescentes desmatamentos e o agravamento de queimadas.

De acordo com a pesquisa de Alencar, incêndios na bacia amazônica continuam sendo extremamente raros se não houver intervenção humana. A maioria é iniciada por pessoas, principalmente na parte sul da floresta, no chamado Arco do Desmatamento, que se estende do Pará a Rondônia. Frequentemente, as bordas são queimadas diversas vezes.

“Com incêndios repetidos, estamos vendo a perda de até 40% da biomassa da floresta. O carbono é liberado devagar ao longo do tempo e a floresta se torna cada vez mais suscetível a incêndios consecutivos”, explica Alencar. “A degradação faz com que seja ainda mais difícil que a floresta volte”. Além disso, incêndios florestais consecutivos têm um forte impacto sobre a biodiversidade, eliminando plantas e animais incapazes de tolerar as chamas, e favorecendo aqueles que são mais resistentes.

“Muitas vezes, nós vemos onde o fogo é aceso: a estrutura da floresta muda. As árvores morrem e são substituídas por arbustos menores. Você pode dizer que lembra uma savana, mas eu diria que é melhor descrito como um ecossistema florestal severamente degradado”, diz Alencar.

A maioria dos incêndios de agosto de 2019 não teve relação com condições climáticas ou com a seca, segundo a pesquisadora, e sim ligação com o desmatamento — feito intencionalmente por pecuaristas, agricultores e grileiros.

“Quando você olha onde foram os principais focos de incêndios e de desmatamento em 2019, 30% eram em terras sem títulos. Parece que o governo deu um sinal verde para tomar terras públicas, limpar a floresta [com fogo] e reivindicar como propriedade”, diz Alencar, em referência à administração de Jair Bolsonaro. Um decreto emitido em dezembro pelo governo, que dava anistia a grileiros, também parece recompensar aqueles que tomam terras públicas ao incendiá-las. Desde que Bolsonaro assumiu, em janeiro do ano passado, o desmatamento na Amazônia chegou a seu ponto mais alto em mais de uma década.

Alencar destacou que o ano de 2019 não foi particularmente seco, e diz estremecer ao pensar o que pode acontecer se as secas voltarem à Amazônia durante o governo atual. Segundo ela, “seria um inferno”.

Incêndios florestais na Amazônia entre 15 e 22 de agosto de 2019. É possível notar uma correlação entre o mapa do Arco do Desmatamento acima e os incêndios do ano passado. Imagem: Nasa.

Apocalipse amazônico? O cientista climático Carlos Nobre acredita que a Amazônia pode já ter chegado nos estágios iniciais de uma extinção massiva de árvores, um “ponto de inflexão” no qual o bioma não conseguiria mais se recuperar.

“Nossos modelos mostram: o aquecimento global, o desmatamento e a vulnerabilidade a incêndios têm a capacidade de transformar de 50 a 60% da Amazônia em um ecossistema de savana degradado “, diz Nobre à Mongabay. “A temporada seca no sul e no centro-oeste da Amazônia está ficando mais longa, a temperatura aumentou cerca de dois graus Celsius e a floresta está removendo menos carbono [da atmosfera] do que costumava”.

Nobre destaca que já há fortes evidências de que a mortalidade de espécies florestais que crescem em ambientes úmidos está aumentando, enquanto árvores mais tolerantes à seca estão começando a prosperar. “[Estamos] muito, muito perto da savanização da Amazônia meridional. Já começou”, afirma.

Brando alerta que seu estudo não fornece evidências de um ponto crítico. No entanto, ele alerta que a perda florestal não é linear, e que a mudança entre resistência e não resistência a incêndios pode acontecer abruptamente.

“No que diz respeito à destruição da Amazônia, é como se estivéssemos dirigindo em uma estrada em que sabemos que há um penhasco à frente. Em vez de pararmos para ver onde é o penhasco, estamos colocando o pé no acelerador — indo ainda mais rápido rumo ao precipício”.

Citação:
M. Brando, B. Soares-Filho, L. Rodrigues, A. Assunção, D. Morton, D. Tucheschneider, E. C. M. Fernandes, M. N. Macedo, U. Oliveira, M. T. Coe (2020). The gathering firestorm in southern Amazonia. Sci Adv 6 (2), eaay1632.

Incêndios na Amazônia frequentemente não sobem ao dossel, e sim avançam pelo sub-bosque, devastando áreas mais úmidas. Um clima mais seco e mais quente, somado ao desmatamento, pode provocar incêndios que chegariam a queimar até 16% do sul da Amazônia até 2050, liberando até 17 bilhões de toneladas métricas de dióxido de carbono. Foto: Paulo Brando.

Por: Taran Volckhausen
Fonte: Mongabay

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