JBS expande negócios para a China

A JBS, empresa frigorífica habitualmente ligada ao desmatamento, assinou em janeiro um acordo que pode levar seus produtos a mais de 60 mil lojas e mercados em toda a China.

No dia 27, a JBS aceitou fornecer para o WH Group, empresa com sede em Hong Kong que tem acesso a ampla rede varejista, produtos de carne bovina, suína e de aves a um valor de cerca de US$ 687 milhões (R$ 3 bilhões) por ano, começando já em 2020. Esse acordo vem seguido de um contrato assinado em novembro entre a JBS e a chinesa Alibaba de U$ 1,5 bilhões, segundo a Euromeat News.

A procura por carne tem crescido na China, acompanhando o aumento da renda no país. “Temos observado mudanças no perfil do consumidor chinês quanto ao consumo de proteína, além de uma preocupação crescente quanto à qualidade da comida, à origem dos produtos e à melhoria da segurança dos alimentos”, afirma Renato Costa, presidente da Friboi, marca pertencente à JBS, de acordo com o site de notícias just-food.

Gado na Amazônia Brasileira. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay.

A epidemia da gripe suína de 2019 matou, ou forçou o abate, de 10 milhões de porcos na China, impactando o fornecimento doméstico do maior mercado suíno do mundo.

A JBS é o maior frigorífico do mundo, e o Brasil exporta mais carne do que qualquer outro país. No entanto, ONGs ambientais e conservacionistas afirmam que essa grandeza foi conquistada à custa da destruição das florestas. A limpeza de terreno para pasto na Amazônia é a maior causa de seu desmatamento, e as plantações de soja para alimentar porcos e frangos já começa a invadir o Cerrado.

Na metade de 2019, pesquisadores do Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina, uma iniciativa da ONG Amazon Conservation, mostraram que muitos dos incêndios ocorridos em agosto na Amazônia Legal foram provocados para limpeza de terras com o intuito de abrir pasto para o gado.

Investigações feitas sobre a cadeia de suprimentos da JBS ofereceram provas que os fornecedores engordam o gado em terras desmatadas ilegalmente.

Paissagem do Cerrado. Foto: C2rik via Wikimedia Commons (domínio público).

Uma investigação de setembro de 2019 pela Repórter Brasil e pela Mongabay demonstrou que o governo brasileiro havia penalizado José Ronan Martins da Cunha, fornecedor de gado para a JBS que opera no Pará, por desmatar uma área de conservação. A JBS pagou mais de US$ 8 milhões em multa em 2017 por comprar 50 mil cabeças de gado de fazendas localizadas em área de Floresta Amazônica, segundo a ONG Earthsight.

Em ambos os casos, a JBS negou as acusações.

Em seu novo acordo com o WH Group, a JBS agora conta com um parceiro varejista que ainda precisa firmar um compromisso de desmatamento zero, de acordo com a Chain Reaction Research, grupo de análise de risco em sustentabilidade. O grupo também apontou que o WH Group, que vende seus produtos por meio de uma dúzia de marcas diferentes, recebeu um nota de 0% em gestão de risco florestal em sua cadeia produtiva, concedida pelo programa Global Canopy’s Forest. A JBS recebeu 39%.

A JBS assinou um acordo de desmatamento zero em 2009. Apesar de algumas pesquisas terem mostrado que a empresa mudou suas políticas com base nessa decisão, outras investigações demonstraram que o desmatamento em sua cadeia produtiva continua com o consentimento da empresa.

Cultivo agrícola e floresta de transição no Cerrado. Foto: Rhett A. Butler/Mongabay.

Um relatório feito pela plataforma Trase ligou a exportação de carne da JBS em 2017 a 240 km² de área com “risco de desmatamento. Isso é cerca de um terço da estimativa de desflorestamento causado pela indústria do gado no Brasil a cada ano.

Para alguns, isso é prova de que o acordo de desmatamento zero da JBS não combate a raiz das causas que levam à derrubada da floresta nas complexas redes que envolvem a busca da carne bovina – isso sem mencionar a carne suína e de frango – em fazendas e criadouros para oferecê-la em lojas e supermercados.

“O problema é que o compromisso é parcialmente levado à cabo e limitado em seu alcance”, afirmou à revista New Scientist Erasmus zu Ermgassen, pesquisador de Agricultura da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, envolvido na pesquisa da Trase.

Fonte: Mongabay

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