Missão evangélica quer contatar indígenas isolados na Amazônia; risco de coronavírus

Grupo indígena isolado na Amazônia visto de helicóptero que sobrevoava região durante expedição do governo brasileiro em 2008. Foto: Gleison Miranda/Funai.

A Ethnos360, organização missionária evangélica, está embarcando em um novo e controverso projeto, à medida que o coronavírus começa a se espalhar amplamente no Brasil.

A organização, antes conhecida internacionalmente como Missão Novas Tribos e sediada em Sanford, no estado americano da Flórida, planeja usar uma aeronave recém-comprada para contatar e converter grupos indígenas isolados da Amazônia — mesmo que tal contato seja explicitamente proibido pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e implicitamente pela Constituição de 1988.

A ideia do grupo fundamentalista cristão também pode espalhar perigosas doenças infecciosas, como o covid-19, para tribos isoladas que não têm resistência e imunidade.

No final de janeiro, Edward Luz, presidente da Missão Novas Tribos do Brasil, anunciou a aquisição de um “helicóptero R66 da Ethnos360 Aviation“, capaz de operar em florestas remotas do oeste brasileiro. A um pequeno grupo de evangélicos reunidos no Rio de Janeiro, ele afirmou que “Deus fará tudo para que a humanidade ouça Suas palavras. Se um helicóptero se tornar necessário, Ele o fornece”.

A “humanidade” citada por Luz inclui grupos indígenas isolados da Amazônia. O Brasil tem 115 indicações confirmadas de grupos do tipo — mais que qualquer outro país no mundo. Todas, exceto duas, estão no bioma amazônico. Muitas estão concentradas no oeste do Brasil, perto da fronteira com o Peru, que é a área sob a mira da Ethnos360 Aviation.

Espalhando a Palavra de Deus – e doenças

A Missão Novas Tribos, criada em 1942, tem uma longa e instável história no Brasil. Um dos casos diz respeito ao contato com os Zo’é, grupo indígena isolado que vive no Pará. Em 1980, garimpeiros e coletores de castanhas já estavam penetrando gradualmente seu território, mas os Zo’é fugiram de qualquer contato. Em 1982, a Missão Novas Tribos soube da existência do grupo e começou a soltar “presentes” de um avião em direção às aldeias. Em 1987, os missionários montaram um acampamento e uma pista de pouso nos limites do território dos Zo’é.

Durante os dois anos seguintes, evangélicos fizeram diversas investidas a aldeias Zo’é, fazendo contatos esporádicos com a tribo, que, de acordo com os missionários, continuava “inquieta” e “arredia”. O contato definitivo aconteceu em novembro de 1987, quando um grupo de cerca de 100 Zo’é apareceu no acampamento-base. Comunicando-se por meio de gestos, os missionários ofereceram presentes. Em troca, receberam flechas quebradas — uma clara mensagem de que a delegação indígena queria que os missionários fossem embora.

A Funai soube dos eventos e proibiu que os missionários se instalassem em aldeias indígenas. Ao invés disso, os evangélicos tentaram atrair os Zo’é para a base da organização, fora de terras indígenas. De acordo com o Instituto Socioambiental (ISA), o objetivo dos missionários era aprender a língua dos Zo’é para que pudessem começar um processo de alfabetização, traduzir a Bíblia e então pregar a Palavra de Deus ao grupo.

Os Zo’é começaram a morrer rapidamente por malária e influenza – doenças para as quais não tinham resistência. Em 1989, a Funai visitou a base missionária e expressou espanto com a situação ruim da saúde dos indígenas. As relações com os missionários se deterioraram e a Funai assumiu o contato em 1991, forçando a saída da Missão Novas Tribos.

Estima-se que 45 Zo’é morreram entre 1987 e 1991. A população, que caiu para 133 em 1991, está se recuperando e é estimada em 250 atualmente. No entanto, eles continuam vulneráveis às doenças e à perda de suas terras ancestrais por parte de pecuaristas e produtores de soja.

Outra questão notória envolvendo o trabalho da Missão Novas Tribos no Brasil inclui o caso de Warren Scott Kennell, que trabalhou como missionário entre 2008 e 2011, morando com os Katukina no Amazonas. Durante muitos anos, ele construiu um relacionamento de confiança com meninas, algumas com 12 anos de idade, e acabou cometendo abusos sexuais. Com conhecimento dos crimes, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos prendeu Kennell no Aeroporto Internacional de Orlando, na Flórida. Ele tinha consigo mais de 940 imagens de pornografia infantil.

De acordo com os procuradores, Kennell se identificou em uma das fotos como o homem que praticava atos sexuais com uma menina pré-adolescente.

“Kennell representa o pior tipo de criminoso; o que ataca crianças inocentes”, disse Shane Folden, vice-agente especial no comando do escritório em Tampa do Departamento de Segurança Interna, em um comunicado. Em 2014, o missionário foi sentenciado a 58 anos de prisão.

Aldeia indígena isolada no Acre. Foto: Gleilson Miranda/Governo do Acre. .

Um plano cuja hora chegou?

A ousadia do plano de contato e conversão da Ethnos360 pode não ser tão descarada quanto parece à primeira vista. Em fevereiro, o governo do presidente Jair Bolsonaro fez uma surpreendente nomeação, colocando Ricardo Lopes Dias no comando da Coordenação-Geral de Índios Isolados e Recém Contatados, o departamento mais sensível da Funai. Dias, antropólogo e evangélico, foi missionário da Missão Novas Tribos por mais de uma década, participando de trabalhos de conversão.

Em 2020, a revista Época revelou que, a partir de 2017, a Missão Novas Tribos começou a circular vídeos promocionais, pedindo doações para pagar o helicóptero R66. Em um vídeo, o piloto Jeremiah Diedrich explica porque a organização quer a aeronave.

“Esta parte do oeste do Brasil é listada pela [ONG] Survival International como tendo a maior concentração de grupos de pessoas não contatadas no mundo… É o lugar mais escuro, mais denso, com acesso mais difícil em toda a América do Sul. É por isso que nós precisamos de um helicóptero”, diz.

A própria Survival International é veementemente contra a iniciativa da Ethnos360.

“O plano da Missão Novas Tribos de usar um helicóptero para localizar tribos não contatadas é perigoso e irresponsável. Eles claramente não têm intenção de respeitar o claro desejo destes povos indígenas de serem deixados em paz. Qualquer tentativa de forçar contato cria risco de infectá-los com doenças mortais”, diz Fiona Watson, diretora de ativismo da Survival, à Mongabay. “O histórico espantoso da MNT de contatos forçados na América do Sul nos últimos 60 anos resultou em mortes e destruição de muitos povos não contatados e deveria servir como um duro alerta para não deixá-la se aproximar dessas tribos vulneráveis. O governo brasileiro precisa agir agora e impedir os planos genocidas da MNT”.

Edward Luz, presidente da Missão Novas Tribos no Brasil. Imagem retirada de release de imprensa da MNT.

Violando políticas da Funai e a lei internacional

Se o plano da Missão Novas Tribos seguir em frente, será em um desafio aberto à política oficial brasileira, estabelecida há três décadas, de respeito aos desejos de indígenas isolados de não quererem contato. A política foi adotada pela Funai após várias instâncias de danos sérios gerados por contatos forçados, incluindo o caso envolvendo os Zo’é.

A organização provavelmente tem conhecimento de que irá violar políticas brasileiras ao usar seu helicóptero para fazer contato não solicitado. Em outro vídeo, o diretor de programa da Ethnos360, Joel Rich, se refere indiretamente às medidas adotadas por autoridades brasileiras para impedir que pessoas de fora sigam para terras habitadas por indígenas não contatados.

“Infelizmente, apenas uma pequena fração das viagens pode ser feita [de avião]. O restante [das aldeias] não têm pistas de pouso por conta de restrições do governo… Precisamos de um helicóptero”, diz Rich.

As políticas da Funai não têm poder de lei no Brasil. Mas especialistas destacam que o contato e o plano de conversão da organização provavelmente violam a Constituição de 1988, que descartou uma política anterior adotada durante a ditadura militar para que povos indígenas fossem “assimilados”. Ao invés disso, o documento garante aos povos nativos o direito de serem indígenas para sempre.

O plano de contato também viola tratados internacionais assinados pelo Brasil. O único instrumento internacional que se refere especificamente a grupos indígenas não contatados é a Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas, adotada em 2016, e da qual o Brasil é signatário. O documento diz em seu Artigo XXVI:

  • Os povos indígenas em isolamento voluntário ou em contato inicial têm direito a permanecer nessa condição e a viver livremente e de acordo com suas culturas.
  • Os Estados adotarão políticas e medidas adequadas, com o conhecimento e a participação dos povos e das organizações indígenas, para reconhecer, respeitar e proteger as terras, territórios, o meio ambiente e as culturas desses povos, bem como sua vida e integridade individual e coletiva.

O Brasil também votou a favor em 2007 da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Embora não seja legalmente vinculante, o documento é pioneiro ao estabelecer os padrões mais altos a serem adotados por governos para manter os direitos dos povos indígenas. Direitos territoriais e à autodeterminação estão no centro do documento, que também enfatiza que povos indígenas têm o direito de não sofrerem assimilação forçada e destruição de suas culturas.

Ricardo Lopes Dias, antropólogo e ex-missionário da Missão Novas Tribos. Foto: Ricardo Lopes Dias.

Um futuro incerto

Apesar da lei, permanece questionável se o governo agirá contra as atividades da Ethnos360. Com a eleição de Bolsonaro, a Missão Novas Tribos pode sentir que, após anos de hostilidades, a maré agora está a seu favor. Bolsonaro é conhecido por se referir a povos indígenas como animais em um zoológico, e por até mesmo ter sugerido em 1998, quando ainda era deputado federal, que “realmente, a cavalaria brasileira foi muito incompetente. Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e, hoje em dia, não tem esse problema em seu país”. Chegando à Presidência com apoio dos evangélicos, Bolsonaro retribuiu colocando diversos religiosos em posições de poder.

A nomeação de Dias à Funai, segundo alguns especialistas, envia uma mensagem que o Brasil pode estar perto de mudar sua antiga política “sem contato”, mesmo que Dias tenha repetidamente afirmado que seu trabalho anterior como missionário não o desqualifica de seu novo cargo.

“Entendo que há muita apreensão a respeito do trabalho de missionários”, disse em entrevista ao jornal New York Times. “Não vejo isto como uma missão ou como uma oportunidade de encontrar novos convertidos. Não tenho interesse em ir lá com a Bíblia na mão”.

No entanto, associações indígenas e ativistas temem que o histórico de Dias sugira que ele possa não cessar contatos missionários. Ele passou dez anos, de 1997 a 2007, entre os Matsés na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, como missionário da Missão Novas Tribos.

O principal líder dos Matsés, o cacique Waki, disse à Folha de S. Paulo que não quer que Dias tenha um trabalho poderoso dentro da Funai.

“Eu não quero o Ricardo na Funai. Conhecemos bem o Ricardo. Ele aprendeu a nossa língua. Nós não queremos a igreja aqui porque não posso pintar meu rosto, não posso tomar rapé, não posso usar veneno de sapo. Por isso que não quero deixar”, diz.

A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Unijava) afirmou temer as “ações nefastas de proselitismo religioso em todas as aldeias”. A Indigenistas Associados, associação dos servidores da Funai, criticou a nomeação de Dias, definida em uma carta aberta como uma ação perigosa que possivelmente resultará em “danos irreparáveis” aos grupos indígenas isolados vulneráveis.

Avião Cessna 206 da Missão Novas Tribos operando no Brasil em 2014. “Nosso povo realmente precisa do avião para ser capaz de conseguir ajuda técnica, ajuda linguística, ajuda para tradução, até mesmo ajuda para implantar igrejas e aconselhar e encorajar a tribo de tempos em tempos”, diz Wonita Werley, porta-voz da seção de aviação da MNT. Imagem retirada de release de imprensa da MNT.

Embora a Missão Novas Tribos tenha mudado recentemente de nome, possivelmente tentando se desvincular de seu controverso passado, o grupo admite abertamente que sua visão continua a mesma. Contatar comunidades indígenas isoladas tem sido o foco da organização desde sua fundação, em 1942, quando foi criada para levar o cristianismo às comunidades mais isoladas do mundo.

A primeira edição da revista oficial da MNT, Brown Gold, publicada em maio de 1943, resume a missão do grupo: “Por determinação inflexível, arriscaremos nossas vidas e apostaremos tudo por Cristo até chegarmos à última tribo, independentemente de onde ela possa estar”.

Procurada pela Mongabay, a Ethnos360 não respondeu ao pedido de entrevista.

O perigo do coronavírus

Em seu comunicado, a Unijava expressou o temor que, sob a liderança de Dias, a Coordenação-Geral de Índios Isolados e Recém Contatados pode se tornar “a ponta de lança” de uma investida “etnocida e genocida”. O etnocídio é definido como a destruição da cultura de um povo. Grupos indígenas do Brasil relatam que a Missão Novas Tribos já está a caminho, afirmando que missionários da organização chegaram à Terra Indígena Deni, no Acre, no final de fevereiro.

Organizações de direitos humanos alertam que a ameaça aos povos isolados brasileiros está crescendo. Em um encontro em março deste ano no Conselho de Direitos Humanos da ONU, a diretora-executiva da Comissão Arns, Laura Greenhalgh, afirmou que as políticas socioambientais agressivas de Bolsonaro já colocam indígenas isolados em risco de “genocídio”.

E os perigos provavelmente irão aumentar conforme a pandemia do coronavírus avança no Brasil, com mais de 400 casos confirmados. Segundo relatos, Bolsonaro, que até recentemente definia a pandemia como uma “fantasia”, testou positivo para o vírus na semana passada, e então negativo. Diversos membros de seu governo, incluindo o chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social, Fabio Wajngarten, contraíram o covid-19 ou estão sob observação.

O médico sanitarista Douglas Rodrigues, membro do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que trabalha com populações indígenas, fez um alerta urgente sobre os perigos do coronavírus a populações indígenas isoladas: “Sarampo e catapora mataram indígenas, mas os maiores vilões dessa história têm sido as doenças respiratórias; e o coronavírus é mais uma delas”.

Com o rápido avanço do covid-19, o sistema de saúde subfinanciado certamente lutará para lidar com os casos — especialmente entre povos indígenas em áreas remotas que se sentem abandonados pelo serviço público de saúde sob o governo Bolsonaro. Grupos indígenas isolados, vulneráveis a doenças ocidentais, estarão em risco extremo caso contatados pela Ethnos360.

Grupo indígena não contatado no Acre. Foto: Gleison Miranda/Governo do Acre.

Por: Sue Branford
Fonte: Mongabay

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Um comentário em “Missão evangélica quer contatar indígenas isolados na Amazônia; risco de coronavírus

  • 21 de março de 2020 em 11:33
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    Querem DOUTRINAR os indígenas para serem cristãos. Querem DOUTRINAR indígenas p/ escolas militares. E os missionários de Satanás pretendem contaminar os indígenas com coronavírus e outras doenças de brancos, como fizeram os espanhóis com os Astecas e Incas. Em nome de Jesus, se pratica muitas maldades e crueldades, tanto pelo Talibã (Afeganistão), quanto pelos evangélicos do Brasil.

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