Antes de testar para coronavírus, jovem Yanomami recebeu alta de hospital público de Roraima

O estudante, de 15 anos de idade, recebeu atendimento para tratar de doenças como meningite, malária, febre e dor muscular, mas o primeiro sintoma de gripe foi há 21 dias. Indígena está internado no Hospital HGR, em Boa Vista

(Foto: Emily Costa/Amazônia Real)

O estudante Yanomami de 15 anos de idade, que está em estado grave com o novo coronavírus, passou por quatro internações no Hospital Geral de Roraima (HGR), dirigido pela Secretaria Estadual de Saúde (Sesau) e, em uma delas, recebeu alta. Segundo o Ministério da Saúde, no dia 18 de março, quando o jovem já estava no segundo dia dos sintomas da gripe, ele foi internado no HGR para tratar suspeitas de meningite.

Nas outras internações, dias 20 e 22 de março, os sintomas do estudante foram tratados como malária, febre e mialgia (dor muscular).

A alta do hospital HGR foi no dia 23 de março. Na ocasião, o jovem viajou à Comunidade Helepi, onde nasceu e mora sua família, na Terra Indígena Yanomami, no rio Uraricoera. Na comunidade, como apurou a agência Amazônia Real, seus pais – Ivanete Xirixana e Alfredo Xirixana – o levaram para um tratamento com um pajé.

Apenas na quinta internação do estudante, no dia 3 de abril, foi realizado o primeiro teste para o novo coronavírus, que deu negativo, sendo descartado pelo HGR. O diagnosticado da doença Covid-19 foi confirmado na contraprova, divulgada ontem (7), como publicou a reportagem.

No período em que ficou indo e voltando do hospital, o estado de saúde do jovem agravou para a Síndrome Respiratória Aguda Grave(SRAG ). Essa síndrome pode ser causada por diversos vírus como o novo coronavírus e a influenza.

“O paciente havia dado entrada na Unidade (HGR) na última sexta-feira, dia 3, com sinais e sintomas compatíveis para o novo coronavírus”, informou a Sesau em nota, que nega que o jovem foi internado outras quatro vezes no hospital público.

A Sesau não respondeu às perguntas da Amazônia Real sobre por que não foi realizado antes o teste para o novo coronavírus no estudante Yanomami. “Ele segue internado no HGR sob os cuidados da equipe da UTI)”, concluiu a Sesau em nota à imprensa.

Na comunidade Helepi vivem 70 pessoas. Todos os moradores estão sendo monitorados pelo Ministério da Saúde. Os pais do jovem estão em isolamento na Casa de Saúde Indígena (Casai) Yanomami, em Boa Vista.

A contaminação pela Covid-19, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), se espalha de maneira semelhante à gripe: pelo ar após a tosse, coriza e a liberação de gotículas de quem está infectado. Os sintomas são: febre, tosse, coriza e dificuldade para respirar. Com esse quadro, pessoas e grupos sociais com a saúde vulnerável, como os povos indígenas, precisam ser submetidos à testagem do novo coronavírus.

No dia 17 de março, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, divulgou o “Plano de Contingência Nacional para Infecção Humana pelo novo Coronavírus (Covid-19) em povos indígenas”. Também anunciou o envio de 6.000 testes rápidos para Covid-19 para os 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis) no país.

Dario Yawarioma Urihithëri, diretor da Hutukara Associação Yanomami (HAY), e filho do líder Davi Kopenawa Yanomami, concedeu uma entrevista à Amazônia Real. Ele disse que as 380 comunidades Yanomami estão em isolamento por causa da pandemia do novo coronavírus e explicou como comunicou o caso de Covid-19 no jovem aos outros parentes. A Terra Indígena Yanomami tem 9.664.975 hectares, localizada entre os estados do Amazonas e Roraima.

“Já falamos através de radiofonia, conversamos com as lideranças locais e conversando com os Yanomami, nas suas comunidades, através de rádio. O nosso território é grande, a gente não tem como chegar para orientar os Yanomami, falando sobre a Covid-19, nas comunidades. O único aceso que temos é via comunicação, chamar, conversar com eles, temos isso. Então, isso é o nosso recado, continuamos muito preocupados e os invasores [os garimpeiros] estão lá no nosso território.

O jovem Yanomami saiu da comunidade Helepi, no Rio Uraricoera, para fazer o ensino fundamental. Não foi informado pelo Ministério da Saúde em que ano aconteceu o deslocamento. Ele foi estudar na Comunidade Boqueirão, terra indígena dos povos Macuxi e Wapichana, localizada no município de Alto Alegre, no norte de Roraima. Lá moram 464 pessoas.

O estudante transita pelas duas comunidades, que são constantemente ameaçadas pela invasão de garimpeiros: “são rotas de grande trânsito de pessoas não indígenas devido a intensa exploração ilegal de minérios na região”, diz o Ministério da Saúde em nota de esclarecimento sobre o caso.

Lideranças indígenas acreditam que a invasão de garimpeiros possa ser o vetor de transmissão da doença na Terra Indígena Yanomami. Mas, segundo o Ministério da Saúde, não há informação de como o menino contraiu a doença.

Do dia 17 de março a 3 de abril, o jovem esteve com diferentes companhias: parentes Yanomami, funcionários da Saúde Indígena, povos Macuxi, motorista de táxi e até com um piloto de helicóptero, pois foi removido da comunidade Helepi, segundo o Ministério da Saúde.

De acordo com nota do Ministério da Saúde, o primeiro atendimento de saúde do jovem foi no Hospital Municipal de Alto Alegre. “Esta informação é a base do início do caso (em 17 de março), pois na data em que o indígena teve os primeiros sinais e sintomas da doença”, diz a nota, destacando que o estudante foi atendido também no Dsei Leste e na Casai, ambas na capital roraimense, e no Polo Base Uraricoera, dentro da Terra Indígena Yanomami.

Equipes de saúde fazem a prevenção de casos de Covid-19 (Foto: Dsei Yanomami)

O coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Yanomami, Francisco Dias, disse à reportagem que, apesar de tornar pública a confirmação do novo coronavírus no jovem, o Ministério da Saúde não foi notificado sobre o caso pelo Hospital Geral de Roraima, da Sesau. “Nós precisamos de uma notificação oficial sobre a testagem positiva para coronavírus. Nós precisamos dessa comunicação, mas o caso está confirmado”, disse.

Dias explicou que, mesmo sem a notificação, o Dsei Yanomami adotou medidas protocolares do Plano de Contingência da Sesai, como o monitoramento da comunidade Helepi.

O caso de Covid-19 no estudante Yanomami é o primeiro notificado no estado de Roraima, que tem uma população indígena de 70.596 pessoas. Os Yanomami somam uma população de 26.789 pessoas.

No Amazonas, foram confirmados quatro casos do novo coronavírus em indígenas do povo Kokama, no município de Santo Antônio do Içá, na região do Alto Rio Solimões.

Segundo o Instituto Sociambiental (ISA), dois indígenas já morreram infectados pela Covid-19: uma mulher da etnia Borari, no Pará, e um homem do povo Mura, de 55 anos, do município de Itacoatiara, no Amazonas. Como eles viviam em contexto urbano e não recebiam cobertura do subsistema de saúde indígena dos Dseis, os óbitos não foram considerados como sendo de indígenas pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde.

No estado de Roraima há uma morte e 52 casos confirmados de Covi-19, sendo em Boa Vista (45), Alta Alegre (1), Cantá (3) e Bonfim (3), município que faz fronteira com a Guiana. A Sesai incluiu na plataforma de dados a confirmação do caso no jovem Yanomami.

O perigo dos garimpos

Yanomami em protesto contra os garimpos em Ajarani (Foto: Mario Vilela-Funai)

Dario Yawarioma, diretor da HAY, disse que está preocupado com o aumento da disseminação do novo coronavírus entre os povos Yanomami. “A gente não sabe onde ele (o jovem) andou, a rotatividade dele. A gente não sabe onde ele pegou essa doença. Mas nós sabemos aqui em Boa Vista, já têm doença, e os municípios já têm a doença, ao redor do estado já tem a doença. Por isso nosso colega, o jovem Yanomami, pegou esse Covid-19. A maior preocupação na Terra indígena Yanomami é a chegada da Covid-19, a xawara (epidemias). Isso é um problema sério”, disse a liderança Yanomami.

O diretor da HAY contou que, no entorno da comunidade Helepi, do jovem Yanomami, há muitos garimpos, que exploram ilegalmente ouro no rio Uraricoera.

“Eles estão entrando cada vez mais na terra indígena, inclusive na comunidade (Helepi). Lá o acesso é direto, todos os garimpeiros estão subindo, descendo, de avião, de helicóptero, de barco, enfim. Primeiro os garimpeiros vão transmitir essa doença para os Yanomami; vai acontecer isso. Essa doença está aqui no Brasil e no mundo inteiro. Essa doença da xawara, ela não tem um planejamento para pegar só os velhos, isso não existe, doença ela pega em qualquer pessoa, ele pode atacar, por isso aconteceu nesse momento, com o nosso parente jovem de 15 anos, ele foi atacado, em Boa Vista”, afirmou Dario Yawarioma Urihithëri.

Por: Kátia Brasil e Emily Costa
Fonte: Amazônia Real

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