El Niño e queimadas contribuem para colapso de insetos na Amazônia

Deltochillum enceladus, a maior espécie de besouro rola-bosta na área do estudo, visto aqui rolando um pedaço de fezes do tamanho de uma bola de golfe numa floresta preservada na região de Santarém, no Pará, em 2017. Foto: Filipe França.

Imagine se os lixeiros do seu bairro parassem de trabalhar. O lixo logo se empilharia e o sistema de coleta e gerenciamento de resíduos poderia entrar em colapso, prejudicando toda a comunidade. Parece que algo semelhante está acontecendo em partes da Floresta Amazônica, onde um estudo recente mostra que um dos sistemas de processamento de lixo mais importantes da natureza – o humilde besouro rola-bosta – está se tornando muito mais escasso em ecossistemas afetados por secas provocada pelas mudanças climáticas, incêndios e perturbações humanas.

Filipe França, pesquisador associado da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e da Embrapa Amazônia Oriental, liderou recentemente um grupo de cientistas em um estudo publicado na revista Biotropica, examinando o efeito de El Niños mais fortes e da atividade humana sobre as populações de besouros. Os resultados são alarmantes.

Os pesquisadores descobriram que espécies de besouros rola-bosta sofreram uma redução significativa em diversidade e população nos ecossistemas tropicais brasileiros modificados pela ação humana como consequência de secas e incêndios exacerbados pelo intenso El Niño de 2015-2016. O El Niño é o aquecimento periódico das correntes do Oceano Pacífico que partem do Peru e resultam em eventos climáticos extremos em todo o planeta, um fenômeno que parece estar se intensificando devido às mudanças do clima no planeta.

Prejuízos ao equilíbrio ecológico

O estudo, conduzido no Pará, também mostrou que a capacidade desses insetos de fornecer serviços ecológicos – como a ciclagem dos nutrientes, a dispersão de sementes e fertilização do solo – foi impactada de forma negativa.

“Pode parecer que os besouros rola-bosta são apenas insetos estranhos que andam por aí comendo cocô. Mas, na verdade, eles são insetos trabalhadores fundamentais para o equilíbrio ecológico”, explica França. “Os besouros são um ótimo indicador do quanto a floresta é saudável ou degradada, porque a saúde deles está ligada à saúde de plantas e espécies de mamíferos.” Por sua vez, um numero maior de espécies de besouros rola-bosta ajuda a garantir um número também maior de serviços de reciclagem biológica na floresta.

Há três principais tipos de besouros rola-bosta – os roladores, os que fazem túneis e os sedentários –, e, quanto maior a diversidade encontrada entre estas espécies com diferentes finalidades, mais serviços ecológicos elas podem oferecer. Um besouro rolador, por exemplo, pode transportar fezes de animais pelo solo da floresta, dispersando no caminho sementes e nutrientes nelas depositados. Ao levar esse material orgânico de locais onde não são tão necessários para outros onde são, os insetos ajudam as florestas a se recuperar de secas ou da extração de madeira.

Equipe coleta besouros para estudos científicos na Floresta Amazônica. Foto: Marizilda Cruppe/Rede Amazônia Sustentável.

O estudo examinou tanto os impactos da seca intensificada pelo El Niño quanto das atividades humanas sobre as populações de insetos que se alimentam de matéria em decomposição. A seca sozinha causou uma redução significativa nos besouros em áreas de floresta prístinas, sem alterações, mas as maiores perdas foram observadas em matas que tinham sido derrubadas ou queimadas. Florestas que queimaram durante o El Niño perderam, em média, 64% das espécies de besouros rola-bosta, enquanto aquelas afetadas apenas pela seca mostraram um declínio médio de 20%.

“A riqueza de espécies, a abundância, a biomassa e a similaridade composicional [dos besouros] antes do El Niño, e as taxas de remoção de fezes e dispersão de sementes diminuíram depois do fenômeno meteorológico em 2015-2016. As maiores perdas imediatas, contudo, foram observadas nas florestas afetadas pelo fogo”, revela o novo estudo.

Embora o trabalho não investigue os impactos diretos das alterações no clima na Floresta Amazônica, Filipe França aponta para outros estudos que sugerem que as mudanças climáticas podem trazer estiagens mais intensas, frequentes e longas, intensificando as condições da aridez sazonal na região amazônica.

“As mudanças climáticas estão aumentando a frequência e a intensidade das secas na Amazônia, facilitando o alastramento de incêndios. Esse problema afeta tanto as florestas intocadas quanto aquelas já alteradas pela ação humana”, diz França. “A combinação de secas mais fortes e perturbações antropogênicas está levando a uma perda drástica de biodiversidade na Amazônia.” Vale ressaltar que quase todos os incêndios na Amazônia são provocados por pessoas que desmatam para criar gado ou plantar – e esses incêndios são intensificados pela seca.

Fumaça causada por incêndios florestais na Amazônia durante o El Niño de 2015. Foto: Adam Ronan.

Besouros são um indicador do estresse do ecossistema

A interação entre mudanças no clima, desmatamento e incêndios causados pelo ser humano têm implicações terríveis não só para os besouros e os serviços que eles prestam ao ecossistema, mas também para a biodiversidade e para o armazenamento de carbono na floresta.

O climatologista Carlos Nobre e o biólogo conservacionista Thomas Lovejoy alertam que essa combinação de problemas já está impactando vastos trechos da Amazônia brasileira, ameaçando transformar a floresta tropical numa savana degradada.

Um estudo recente publicado na revista Science Advances revelou que o aumento dos incêndios relacionados ao clima no sul da Amazônia pode transformar a maior floresta tropical de um depósito de carbono em uma fonte de emissão antes de 2030, a menos que sejam tomadas medidas imediatas para limitar o desmatamento e reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Desmatamento na Floresta Amazônica. A derrubada da floresta ameaça a fauna e contribui para as mudanças climáticas, impactando a biodiversidade tropical. Efeitos similares da ação humana estão associados ao colapso dos insetos no mundo todo. Foto: Marizilda Cruppe / Rede Amazônia Sustentável.

Colapso geral de insetos nos trópicos? Durante os últimos três anos, os entomologistas vêm alertando para a possibilidade de um colapso global da abundância de insetos com base em estudos iniciais abrangentes realizados na Alemanha e em Porto Rico, e meta-revisões de vários estudos sobre populações de insetos ao redor do mundo.

Nos trópicos, pesquisadores alertam que as mudanças climáticas, a destruição de hábitats e o uso de pesticidas estão tendo impactos claros sobre a abundância e a diversidade de insetos. Contudo, a falta de fundos e de interesse institucional atrasam estudos urgentes e necessários.

Considerando o risco crescente representado pelas atividades humanas para as populações de insetos, um grupo de 70 cientistas de 21 países publicou um plano global em janeiro para a conservação e recuperação dos insetos. Jason Tylianakis, professor de Ecologia Terrestre da Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia, participou da criação de um plano que pede ação imediata, propondo a redução gradativa do uso de agrotóxicos, o aumento da diversidade da paisagem na agricultura e a realização de avaliações de larga escala sobre a situação de grupos de insetos para definir espécies prioritárias.

Não está claro, diz Tylianakis, se o declínio da população geral de insetos é mais ou menos substancial nos trópicos. Mas ele alerta que os cientistas descobriram algumas evidências dessa possibilidade. “As abelhas, por exemplo, são mais sensíveis à agricultura na América do Sul do que na Europa.” Espécies de abelhas estão sendo especialmente afetadas no Brasil, onde o uso de agrotóxicos está entre os mais altos do mundo.

Comportamento “senta e espera”: um besouro rola-bosta espera por fezes. Foto: Filipe França.

Em janeiro de 2020, a revista Nature publicou um estudo de Danielle Salcido, estudante de doutorado da Universidade de Nevada, nos Estados Unidos, documentando o declínio da riqueza e da diversidade de lagartas e parasitoides em locais de floresta protegida na Costa Rica, com base em 22 anos de coleta de dados, de 1997 a 2018.

Salcido acredita que o acentuado declínio dos besouros rola-bosta da Amazônia é importante porque essas quedas populacionais mostram como as mudanças no clima podem interagir com outros fatores, tais como incêndios e desmatamento, para impactar o funcionamento e os serviços do ecossistema.

“Se soubermos mais sobre os efeitos diretos ou indiretos da redução das populações de besouros rola-bosta sobre outros organismos, poderemos ter uma ideia melhor sobre os efeitos em cascata dessa perda. A história pode parecer ainda mais terrível se isso for revelado”, conclui Salcido. “Daí a necessidade de pesquisas de longo prazo acerca de insetos e interações entre espécies nos trópicos.”

Por: Taran Volckhausen
Fonte: Mongabay

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