Povo Yawanawá, no Acre, cancela cerimônias com não indígenas para prevenir o novo coronavírus

Cacique Biraci Brasil Yawanawá está preocupado com a precariedade do sistema de saúde de atenção aos indígenas

Aldeia Nova Esperança na TI Yawanawá (Divulgação)

Frente à ameaça da disseminação da pandemia do novo coronavírus, pela primeira vez, em quase 10 anos, os Yawanawá da Terra Indígena do Rio Gregório, no Acre, cancelaram os eventos de canto, dança e cerimônias de cura que costumam receber centenas de visitantes não indígenas de diferentes regiões do Brasil e do exterior. Os 370 moradores da aldeia Nova Esperança “fecharam as portas”, como disse o cacique Biraci Brasil Yawanawá à Amazônia Real. Segundo ele, as outras sete aldeias da etnia farão o mesmo.

Conforme os dados do Ministério da Saúde, no estado do Acre há 50 casos confirmados da Covid-19 e uma morte. O novo coronavírus já infectou pessoas na capital Rio Branco (39 casos) e nos municípios de Acrelândia (9), Plácido de Castro (1) e Porto Acre (1). Não há notificações de casos da doença entre os indígenas.

Biraci Brasil é um dos pioneiros das chamadas “vivências”, realizadas pelos Yawanawá, um dos povos da Amazônia de maior visibilidade internacional. São atividades festivas que incluem propriedades de cura em torno do consumo da bebida ayahuasca. Elas duram em média de uma a três semanas, dependendo da programação de cada uma das oito aldeias Yawanawá. O grande fluxo de turista costuma lotar hotéis de cidades como Cruzeiro do Sul.

“Sabemos que esse vírus não é uma gripe comum. Somos muito vulneráveis a essa doença. Estamos fechando a aldeia, a porta da nossa casa, até que a ciência encontre a cura. Cancelamos qualquer visita. Também ninguém pode sair. Se sair, não volta. Nem os próprios Yawanawá que vão para a cidade”, disse ele.

Outro receio, segundo o cacique, é quanto à precariedade do sistema de saúde de atenção aos indígenas, no qual ele não confia. A grande distância da aldeia para os centros urbanos é uma barreira adicional para uma eventual necessidade de atendimento de socorro emergencial caso ocorra contaminação pelo coronavírus. A aldeia Nova Esperança fica no município de Tarauacá. Está localizada nas nascentes do rio Gregório, afluente do rio Juruá. O único acesso à zona urbana é via fluvial, em viagens que levam até oito horas, em uma embarcação rápida. Em embarcações mais simples, chegam a durar vários dias.

Segundo o cacique, a aldeia Nova Esperança realizaria em abril uma atividade com 78 convidados internacionais. Foi a primeira a ser cancelada. “Se a situação se acalmar, podemos abrir em setembro. Mas se ainda assim tiver qualquer tipo de risco, nossa casa continuará fechada”, afirmou.

Também conhecidas como turismo espiritual, as vivências são as principais fontes de renda da etnia, que se orgulha de sua autonomia. As visitas de pessoas vindas de várias partes do mundo, entre eles artistas e autoridades, garantem independência ao povo Yawanawá. Segundo Biraci Brasil, sua aldeia recebe, em média, 600 visitantes por ano.

“Não estou pensando em nada financeiro. Aqui tem bastante alimento; tem muita agricultura, abundância de peixe. Se o mundo se acabar lá fora vou poder viver por muito tempo aqui dentro. Estou muito tranquilo. Não penso no sal, na roupa, na gasolina ou em algum outro mantimento que dependemos de fora. Só não quero que meu povo morra por causa dessa doença; não quero que seja dizimado. Vamos nos fechar na nossa terra, na nossa floresta”, afirmou o cacique.

O cacique Biraci Brasil refletiu também sobre o novo coronavírus e seu impacto no mundo e para a humanidade. Para ele se trata de “uma guerra espiritual”.

“Nesse momento dessa guerra, dessa terceira guerra, dessa guerra espiritual, de doença, precisamos refletir e encontrar nossa própria cura. A humanidade não será a mesma como era. O sistema capitalista vai ter outra cor, ou quem sabe, ficará sem cor”, afirmou.

Conquista da autonomia com vivências

Biraci Brasil Yawanawá (foto) é um cacique de expressiva projeção e liderança histórica do Acre. Ele foi um dos responsáveis pelo renascimento dos saberes, dos rituais de propriedades de cura e da reconquista da importância do pajé. Na década de 1980, durante a luta pela demarcação da TI do Rio Gregório, os Yawanawá expulsaram os seringueiros de suas terras. Em seguida, foi a vez da retirada dos missionários evangélicos, que durante anos impuseram seus dogmas a ponto de quase o povo Yawanawá perder seus conhecimentos e medicinas tradicionais.

Na década de 2000, os Yawanawá criaram as atividades de celebração como prática cultural e costumes tradicionais. Rapidamente, as cerimônias se transformaram em fonte de receita utilizada para fazer melhorias nas aldeias e investir na educação dos jovens da etnia, entre outras ações.

“A história da vivência começou na minha casa. Foi uma grande mudança de reconexão com nossa essência e trouxe equilíbrio na nossa economia. Ela [vivência] fez a gente praticar nossa cultura, nossas tradições, que pela força do contato, pelo preconceito e pela discriminação já tínhamos parado. A presença das pessoas do Brasil e do mundo em busca de cura trouxe autoestima à nossa família e retomamos nossos costumes. Fez com que os jovens permanecessem nas aldeias. Antes todo mundo queria ir para a cidade para encontrar nova alternativa. Hoje nenhum filho nosso quer morar na cidade. Todos vivem aqui”, diz o cacique Biraci Yawanawá.

Na Terra Indígena do Rio Gregório também está localizada a aldeia Sete Estrelas, do povo Katukina-Pano. O território foi demarcado, mas sua situação é “declarada” e ainda não foi homologado.

Por: Elaíze Farias
Fonte: Amazônia Real

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