Povos Ashaninka e Huni Kuin realizam ações de prevenção ao coronavírus, no Acre

Quarentena voluntária e evitar que indígenas saiam das aldeias, são algumas das recomendações. Pajés fazem, na cultura tradicional, o combate a doença Covid-19
(Foto de Ninawa Inu Huni Kuin)

Os povos indígenas Huni Kuin e Ashaninka, que vivem em territórios situados na fronteira do estado do Acre com o Peru, anunciaram nesta quarta-feira (1º.) Medidas de combate ao novo coronavírus nesta parte da Amazônia Ocidental. Quarentena voluntária aos indígenas que viajaram para outros estados e para o exterior, além de orientar a todos, que estão dentro dos territórios, que fiquem nas aldeias.

As lideranças dizem que as orientações seguem o Plano de Contingência Nacional para Infecção Humana pelo novo Coronavírus (Covid-19) em Povos Indígenas da Secretaria Especial de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde.

Os Huni Kuin vivem em 12 terras indígenas situadas entre os estados do Acre e sul do Amazonas, regiões do Alto Juruá e Vale do Javari, na faixa de fronteira com o Peru. Também chamados de Kaxinawá, eles falam a língua Pano. O líder e presidente da Federação do Povo Huni Kuin do Acre, Ninawa Inu Huni Kuin, disse que a recomendação é para que todos os indígenas permaneçam em suas comunidades “até segunda ordem”.

Segundo Ninawa, para os indígenas que viajaram para outros países, como Índia e França, onde há altos índices de pessoas com a doença Covid-19, a recomendação é fazer uma quarentena na cidade de Rio Branco antes de seguir viagem às aldeias. Duas lideranças, que não tiveram os nomes divulgados, já estão no isolamento social.

“Eles vão permanecer em Rio Branco por 15 dias, e somente depois disso poderão retornar às suas comunidades, isso se não apresentarem nenhum sintoma. Todos estão sendo acompanhados pelo Departamento Epidemiológico e equipe de Saúde Indígena”, afirmou o presidente da federação.

Para os indígenas Huni Kuin, que têm benefícios para receber da rede bancária nas cidades, a federação solicitou que eles permaneçam nas comunidades para evitar contrair a doença nos deslocamentos de embarcação ou terrestre.

“Fizemos várias ações em diversos municípios, fazendo com que os Huni Kuin que estivessem nos municípios retornassem para as comunidades. Nossa orientação é que todos permaneçam nas aldeias, os aposentados, quem tem benefícios na cidade, todos permaneçam nas comunidades”, disse Ninawa.

A Sesai informa em seu site que há três casos suspeitos de Covid-19 sendo monitorados em indígenas da região do Alto Rio Juruá, no Acre.

Os Ashaninka da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, localizada na fronteira do Acre com o Peru, também tomaram iniciativas para combater a pandemia do novo coronavírus. Eles proibiram, por exemplo, a entrada de pessoas não indígenas na aldeia Apitxa, localizada no município de Marechal Thaumaturgo, distante a 557 quilômetros em linha reta de Rio Branco.

Uma das principais lideranças da comunidade, Francisco Pyãko, conta que todas as agendas que seriam realizadas fora do país e do estado foram canceladas no começo de fevereiro, bem antes da Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciar a pandemia no mundo, em 11 de março.

“Não duvidamos da gravidade disso [coronavírus] e o quanto isso pode afetar nossa comunidade. Tomamos todas as medidas que o vírus chegue até nossa comunidade”, disse o líder.

O pajé a medicina tradicional

Povo Huni Kuin com pajés no Alto Rio Juruá (Foto: Ninawa Huni Kuin)

Ninawa Inu Huni Kuin disse que tomou as medidas de prevenção ao novo coronavírus seguindo também os protocolos da Fundação Nacional do Índio (Funai). Ele contou que, além dos protocolos de prevenção já estabelecidos, os povos estão utilizando os saberes tradicionais. A população dessa etnia é estimada em mais de 10 mil pessoas.

“Estamos fazendo imunização com medicinas tradicionais, com a sananga, a vacina do cambô, e os pajés estão fazendo banhos e defumação de toda a comunidade”, disse Ninawa.

Abastecimento nas roças

Povo Ashaninka do Rio Amônia (Foto: Arison Jardim/Apiwtxa)

Com relação ao abastecimento da aldeia, Francisco Pyãko conta que os poucos insumos vindos da cidade serão adquiridos na cooperativa da comunidade durante os próximos meses.

“Nós dependemos pouco de fora, temos muita coisa no nosso roçado. As compras serão feitas na cooperativa. Já aqueles que tiverem que ir mesmo na cidade, ainda vamos definir uma estratégia de ir e voltar no mesmo dia. Nossa dependência é muito pouca de fora. O povo Ashaninka tem muita consciência disso”.

Segundo a Sesai, na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia vivem mais de 900 povos Ashaninka.

“Fiquem nas aldeias”, diz Funai

Mulheres Ashaninka (Foto: Arison Jardim/Apiwtxa)

À reportagem, a coordenadora regional em exercício da Funai Alto Purus, Oldice Bortolini Somera, explica que recebe orientações periódicas da sede da fundação em Brasília.

“Passamos todas as recomendações para os chefes das coordenações de outras regionais como para os líderes indígenas. A orientação é a mesma: fiquem nas aldeias, evitem o máximo sair das comunidades”.

Somera destaca que o cuidado nos últimos dias tem sido redobrado, sobretudo pelo fluxo de indígenas que estão retornando de outros países e estados para o Acre.

“Eles terão que ficar em quarentena em Rio Branco até verificarmos a saúde deles para que retornem as aldeias. E quando eles retornarem, também haverá todo um acompanhamento. Até onde sabemos, os indígenas estão cumprindo todas as orientações. Não temos nenhum caso entre eles, estamos monitorando tudo”, disse.

Nesta quarta-feira (1º.), a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, anunciou o primeiro caso do novo coronavírus em indígena no Brasil. O teste para Covid-19 foi confirmado em uma jovem da etnia Kokama, de 20 anos, que é Agente Indígena de Saúde (AIS) e mora na aldeia São José, que fica no município de Santo Antônio do Içá, a 878 quilômetros de Manaus, no Amazonas. Sete parentes da jovem estão no isolamento.

No país, a Sesai atende a uma população de 800 mil indígenas aldeados em de 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei). Na Amazônia Legal, 25 Dseis atendem a uma população de 433.363 pessoas.

Segundo a Sesai, estão sendo monitorados casos suspeitos de Covid-19 entre os indígenas atendidos pelos seguintes Dseis: Alto Rio Juruá (3), Alto Rio Solimões (1), Ceará (2), Interior do Sul (5), Litoral Sul (3), Maranhão (2) e Parintins (1).

O que é a pandemia de coronavírus?

Em Belém, a Secretaria de Saúde promoveu capacitação de profissionais para exames de diagnóstico do Covid-19 (Foto: Hugo Tomkiwitz/Agência Belém)

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o novo coronavírus, o SARS-CoV-2, faz parte de uma família de vírus que causa infecções respiratórias e foi identificado em 31/12/19, após casos registrados na China. Ele provoca a doença Covid-19.

A contaminação pela Covid-19 se espalha de maneira semelhante à gripe, pelo ar após a tosse, coriza e a liberação de gotículas de quem está infectado.

Os sintomas são: febre, tosse, coriza e dificuldade para respirar. Procurar uma unidade de saúde é a primeira atitude a tomar neste caso.

O quadro da pessoa infectada com o coronavírus pode se agravar para uma pneumonia, o que exige a internação do paciente.

Pessoas com mais de 50 anos de idade estão mais vulneráveis, principalmente os idosos.

Quem está com o sistema imunológico debilitado e possui doenças crônicas, como as cardiovasculares, diabetes ou infecções pulmonares também pode adoecer gravemente.

Medidas como fazer uma quarentena voluntária em casa tem sido a melhor forma de combater a disseminação da doença no mundo.

Por: Bruna Mello
Fonte: Amazônia Real

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