1.279 profissionais de saúde foram infectados por Covid-19 no Amazonas

A Secretaria de Saúde informa que 12 pessoas morreram, entre médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, sendo que a maioria foi contaminado dentro dos hospitais

Na imagem o Hospital 28 de Agosto (Foto do Ensaio Insulae de Raphael Alves)

O técnico em enfermagem Francisco Fredson da Silva Pinto, de 41 anos, sentiu um mal-estar seguido de febre no dia 20 março. Fazia nove dias que a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia de coronavírus no mundo. Sua filha, a estudante Arissa Raquel Pinto da Costa, 19 anos, contou que o profissional ligou para a mãe e relatou o que estava acontecendo. Preocupada, a avó pediu que ele procurasse o atendimento médico com urgência do hospital onde trabalhava, o Pronto Socorro 28 de Agosto, que fica na zona centro sul de Manaus. Fredson, como era chamado, passou pelos exames de raio-x e hemograma. O diagnóstico do médico, segundo Arissa, deu gripe.

A filha do técnico de enfermagem disse que ele passou as duas noites seguintes muito mal. Na quarta-feira, dia 25, Fredson não conseguiu levantar da cama para ir ao trabalho. No dia 31 de março, ele resolveu voltar ao hospital e pediu que Arissa chamasse o Samu para levá-lo.

“Ele se vestiu com muita dificuldade, estava muito fatigado”, disse Arissa, que o acompanhou na ambulância até o Hospital 28 de Agosto.

“Quando chegamos lá, ele entrou por uma porta e fui por outra para tomar as medidas necessárias para o atendimento dele. Ainda tentei entregar o celular a ele, mas fui impedida pela equipe de atendimento, que alegou que o equipamento estava infectado. Aquela foi a última vez que vi meu pai em vida”, conta Arissa.

No dia 1o. De abril, a estudante conta que foi informada que a situação de Fredson era grave, que ele já havia sido entubado e que foi transferido para o Hospital e Pronto Socorro Delphina Aziz. “Tinha dias que ele estava bem, mas também tinha dias em que ele piorava. Do dia 10 ao dia 15, ele melhorou muito”.

Na madrugada do dia 19 de abril ela recebeu um telefonema do hospital. Foi para lá acompanhada de uma prima. “Chegamos às 4h. A assistente social perguntou ‘quem vai subir para falar com o médico”. Então subi sozinha”.

Francisco Fredson da Silva Pinto estava morto. “Doutor, eu quero ver meu pai agora. Quero vê-lo enquanto ele estiver aqui e não no caixão”, recorda a estudante. Ela disse que o médico relatou que o técnico de enfermagem teve três paradas cardiorrespiratórias.

“Fiquei aterrorizada por um instante. Entrei usando a minha máscara e a minha touca. Ele estava do outro lado da sala em um leito do lado esquerdo. A enfermeira disse que eu não podia chorar, senão ela ia me tirar de lá, porque eu estaria fazendo escândalo. Eu disse que ele era meu pai ela simplesmente me tirou de lá”, recordou Arissa Costa.

O técnico de enfermagem foi um dos 12 profissionais de saúde vítimas da pandemia do novo coronavírus, em Manaus. O corpo do enfermeiro foi sepultado no Cemitério Nossa Senhora Aparecida, no bairro Tarumã, na zona oeste da cidade.

De acordo com informações da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam), também morreram infectados pelo vírus quatro médicos, cinco técnicos de enfermagem e os demais são de outras categorias do segmento.

A capital do Amazonas tem 1.279 profissionais de saúde confirmados com a doença Covid-19. O número representa 5,5% dos 23.176 profissionais de saúde da capital na rede pública e privada.

Em nível nacional, são 108 mortes e 4.128 profissionais de saúde confirmados com Covid-19 no país, segundo o Conselho Nacional de Enfermagem (Cofem). Nesta terça-feira (12), Dia Internacional da Enfermagem, o conselho anunciou que 273 profissionais estão internados em tratamento da doença no país.

Dos profissionais contaminados pelo vírus no Amazonas, 193 estão em isolamento domiciliar, 272 estão fora do período de transmissão, 25 internados – 19 em leitos clínicos e 06 em Unidade de Terapia Intensiva, diz a Susam.

Pegou o vírus no hospital

Hospital 28 de Agosto (Foto do Ensaio Insulae de Raphael Alves)

Arissa Raquel Pinto da Costa disse à Amazônia Real, que após a morte de Fredson Silva Pinto, foi morar com os avós. Ela contou que o pai passou por duas internações e teve um primeiro diagnóstico de H1N1 e um segundo de Covid-19. Mesmo doente, segundo ela, o técnico de enfermagem não foi dispensado do trabalho no Hospital 28 de Agosto. “Ele continuou trabalhando até não ter mais condições de sair de casa”, disse.

Para ela, Fredson não contraiu o novo coronavírus trabalhando, mas sim na Sala Rosa do hospital, onde esteve internado pela primeira vez, de 25 a 28 de março. “Como não havia melhorado após a primeira consulta médica, ele foi ao hospital novamente. Depois me ligou e pediu que levasse roupa de cama e objetos pessoais, pois ficaria internado”, conta Arissa.

Ela disse que, enquanto estava na Sala Rosa, Fredson contou que no local havia outras duas pessoas diagnosticadas com Covid-19. “No período em que ele esteve no hospital, fez a coleta de teste para Covid-19, mas foi liberado antes de o resultado sair. Tudo o que os médicos disseram para ele é que ele estava com H1N1 e um princípio de pneumonia”, conta Arissa.

A estudante relatou que Fredson Silva Pinto encontrou dificuldade para obter o resultado do teste para Covid-19. “Ele fez duas tentativas, mas o resultado do exame não foi revelado. Um tempo depois eu recebi uma ligação de uma mulher que disse ser da Susam. Me identifiquei e ela resolveu me falar: ‘o resultado do exame do seu pai deu positivo para Covid-19’. Ela também me explicou todos os cuidados que deveríamos tomar como e me orientou a chamar o Samu caso ele piorasse”, contou Arissa Costa, que não foi contaminada pelo vírus.

O técnico em enfermagem Mauro Bastos trabalhava com Fredson Silva Pinto no Hospital de Pronto Socorro 28 de Agosto. Ele disse que a situação na Sala Rosa é caótica. “Falta equipamentos de proteção. Além disso, estão misturando pacientes curados de Covid-19, com pacientes ortopédicos e com suspeita de Covid-19 na mesma enfermaria, pessoas diabéticas e etc. Quando a imprensa chega aqui, dizem que está tudo certo, mas porque eles colocam tudo no lugar e fica tudo bonitinho”, afirmou Bastos.

De 13 de março até essa terça-feira (12 de maio), a Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) do Amazonas registrou 14.168 casos confirmados de Covid-19 no estado e 1.098 mortes.

O isolamento social é a estratégia recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e adotada por diversos países como China, Itália, Espanha, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos para que os sistemas de saúde possam se preparam para atender e tratar casos graves da doença.

No Brasil, estados com alto índice de mortes por Covid-19 como Pará e Maranhão decidiram pelo bloqueio total, o lockdown. A medida de restrição é para conter a pandemia e aumentar a capacidade dos hospitais no atendimento da população.

Wilson Lima volta atrás

Hospital 28 de Agosto (Foto do Ensaio Insulae de Raphael Alves)

O governador Wilson Lima (PSC) anunciou, na semana passada, um plano de flexibilização do isolamento social com a reabertura do comércio e indústria a partir desta quinta-feira (14). O plano foi elaborado por uma equipe coordenada pelo economista e comentarista Samy Dana. No entanto, antes mesmo de iniciar a flexibilização, indústrias da Zona Franca de Manaus retomaram as atividades e a população voltou com mais intensidade às ruas da capital.

O Ministério Público do Estado ingressou com uma ação civil pública na Justiça pedindo o lockdown em Manaus e nos 61 municípios do Amazonas. A medida é para diminuir o avanço da pandemia do novo coronavírus no estado e aumentar a capacidade de atendimento da população na rede de saúde pública e privada. Nos hospitais, a unidades de terapia intensiva estão em colapso.

No dia 6, o juiz Ronnie Frank Torres Stone, da Vara da Fazendo Pública, indeferiu o pedido do MP. O órgão recorreu ao Tribunal de Justiça do Amazonas, que não julgou o recurso até o momento.

Em entrevista à Amazônia Real, o presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Hélio Leitão, classificou como um crime contra a humanidade ou “lesa-humanidade” a falta de ações mais rígidas por parte do governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), no combate à pandemia do novo coronavírus em Manaus e no interior do estado.

Diante da repercussão negativa da flexibilização do isolamento social no Amazonas, o governador Wilson Lima voltou atrás e hoje (12) prorrogou o decreto até dia 31 de maio, mantendo apenas os serviços essenciais, mas não decretou o lockdown, o que permitiria a restrição da circulação da população nas ruas. Com a decisão, está suspensa as atividades de recreação e lazer; comércio, bares, restaurantes e afins, além das igrejas.

Bolsonarista, Wilson Lima não liberou o funcionamento de academias de ginástica, salões de beleza e barbearias, que foram consideradas “serviços essenciais” em decreto baixado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na segunda-feira (11).

O decreto do governador do Amazonas trouxe o uso obrigatório de máscaras de proteção em locais abertos e de uso público, medida que já tinha sido anunciada na semana passada pela Prefeitura de Manaus. O governo decidiu aplicar multa de até R$ 50 mil para as pessoas jurídicas que descumprirem o decreto.

Em nota à imprensa, Wilson Lima disse que a prorrogação do decreto de suspensão de atividades não essenciais foi discutida com representantes de setores da indústria, do comércio e dos três poderes, inclusive na esfera municipal. Leia a íntegra da decisão que prorrogou o isolamento social no Amazonas.

Hospital 28 de Agosto (Foto Ensaio Insulae de Raphael Alves)

Por: Izabel Santos
Fonte: Amazônia Real

Deixe um comentário