O contraste entre Terras Pretas no Médio Xingu

Projeto “Terra Treta?” conta histórias de vida das comunidades no Médio Xingu

©MiguelPinheiro

Em meio ao recorde de queimadas que aconteceram na região amazônica em 2019, o documentarista e fotógrafo português, Miguel Pinheiro, desenvolveu um projeto chamado “Terra Preta?”, para contar histórias sobre os povos tradicionais que vivem na região do Médio-Xingu, no Pará, coração da Amazônia brasileira.

A escolha do nome contrasta entre duas terras pretas: uma catástrofe e um ritual antigo. “Foi muito marcante pra mim assistir a floresta arder em 2019. O cenário se pintava de preto sob o pincel das chamas e uma sensação de perda me inundou por dentro. Semanas depois visitei algumas aldeias indígenas, foi então que pela primeira vez toquei a terra preta de índio”, explica Miguel.

A Terra Preta de Índio (TPI), são manchas de solo escuro encontradas na Bacia Amazônica, cujo os nutrientes como cálcio, magnésio, zinco, manganês, fósforo e carbono, aumentam exponencialmente a fertilidade do solo.

O primeiro vídeo do projeto conta a história de Juma Xipaya, a primeira mulher cacique do Médio-Xingu. Juma se tornou sinônimo de luta e resistência, atualmente saiu da sua aldeia para enfrentar novos desafios: a Universidade de Medicina.

Miguel Pinheiro é um premiado criativo português. Formado em Neurociência em Portugal, e mestre em Teatro / Comunicação pela St. Mary’s University, Londres – UK. Suas histórias foram publicadas por PUBLICO (Portugal), O GLOBO (Brasil), JN (Portugal), CIFOR (Indonésia). Trabalhos recentes incluem uma colaboração com o artista chinês Wei Wei para seu próximo longa-metragem.

Confira a entrevista concedida ao site Amazônia.org

Como surgiu a iniciativa de desenvolver o projeto “Terra Preta?”

Há vários anos tenho registrado as rotinas e as percepções do mundo a partir da perspectiva dos povos tradicionais. Aqui no Brasil, tenho encontrado as mais sofisticadas e surpreendentes visões entre estes povos, que normalmente vivem em lugares bem remotos. Isso me levou a vários quilombos no país e também junto das populações ribeirinhas e indígenas na Amazônia.

Em 2019 após um projeto de documentário para o artista chinês Ai Wei Wei, aproveitei a presença na Amazônia Brasileira para conhecer mais a fundo a região do Médio-Xingu e as várias nações indígenas no entorno. Ao mergulho nas vidas e nos sonhos destes povos, eu dei o nome de “Terra Preta?”.

Porque a escolha do nome “Terra Preta?”?

Foi muito marcante pra mim assistir a floresta arder em 2019. Ao longe era o cheiro da madeira queimada, pontuado por uns flocos de cinza que viajavam quilômetros e quilômetros na paisagem,se acumulavam no topo dos carros e das casas e entravam pela janela do quarto de hotel. De perto era ainda pior. Tinha de prender a respiração para segurar a câmera e filmar no meio de um inferno que transformava o sol numa bola vermelha espreitando entre cortinas de fumo espesso. À volta, o cenário se pintava de preto sob o pincel das chamas, e uma sensação de perda me inundou por dentro. Semanas depois visitei algumas aldeias indígenas e percebi a relação umbilical destes povos com a floresta. Foi então que pela primeira vez toquei a “terra preta de índio”, uma mistura particular usada há milhares de anos pelos povos da floresta, e cujas propriedades aumentam exponencialmente a fertilidade dos solos. Estas duas terras pretas, cada uma à sua maneira, norteiam este projeto.

©MiguelPinheiro

Qual momento mais marcante que presenciou durante o período que passou na Amazônia desenvolvendo o projeto?

Quando eu visitei o Brasil pela primeira vez, ainda antes de me mudar para cá, eu fiquei encantado por pisar um país imenso em que a língua portuguesa era cantada com tantos sons diferentes. Na época atravessei o lindo Ceará, e dei um pulo no Rio e em S. Paulo, e que celebração esta mistura de sotaques, me senti num universo paralelo.

Minha experiência mais recente na Amazônia alterou esta perspetiva. De repente eu estava sentado numa aldeia em que todos falavam Kayapó, que pertence à família linguística Jê, e eu era o único que não entendia nada da conversa. Só quando se dirigiam a mim usavam o português, e apenas se realmente estivessem interessados na minha opinião. Ali eu entendi pela primeira vez o mosaico original do Brasil, a quimera de povos que partilhava este território e que a língua portuguesa uniu, e que a língua portuguesa também destruiu. Meu olhar mudou. A deslumbrante língua de Camões e de Machado de Assis, que nos anima a todos desde o berço, tem também uma história de sombras. É uma língua de invasão. E se por vezes conseguiu a proeza de ser uma entre outras línguas, muitas outras silenciou culturas. Por isso eu defendo com este “Terra Preta?”, que “em pleno Antropoceno começa a ser óbvio que a maior de todas as extinções é a do próprio ser humano.” Estamos a aniquilar a nossa diversidade, e pomos em causa a nossa existência.

Você acompanhou uma região que foi afetada pela construção do projeto da usina hidrelétrica Belo Monte. Diante dos relatos e vivência, como acha que a usina afetou os indígenas?

A situação é muito complexa, a próxima história que vou liberar será sobre a Volta Grande do Xingu, tudo o que sei é o que me disseram e o que me mostraram, depois da chegada de Belo Monte, o rio Xingu sofre. Tem menos peixe, menos água, menos floresta em volta, menos caça, menos comida disponível na natureza, cresceram as invasões dentro do território indígena, aumentaram as disputas por terras, e a corrupção permeou de tal maneira o cotidiano que hoje Altamira é dos municípios mais violentos em todo o Brasil. Depois da chegada de Belo Monte, paira no ar uma inexperiente sensação de fim.

©MiguelPinheiro

Diante do cenário atual, considera que as comunidades que visitou estão em situação ainda mais vulneráveis neste cenário de pandemia?

É dever do Brasil perante o mundo proteger a diversidade dos seus povos. São estes povos que permitem que o Brasil seja não só um país de primeiro mundo, como também um dos lugares mais ricos no planeta. É de imensurável importância o convívio dos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, junto com a sociedade urbana do nosso dia-a-dia. A história nos relata como epidemias de sarampo, varíola, ou gripe dizimaram povos e extinguiram nações na Amazônia. Somos do século XXI. Temos de fazer mais. Temos de fazer melhor. Os invasores têm de ser expulsos de todas as terras indígenas, e às populações nativas se devem assegurar cuidados de saúde e de sustento.

Conheça o projeto: http://www.miguelpinheiro.com/trabalhos/terra-preta/
Leia aqui o artigo publicado

Por: Nicole Matos
Fonte: Amazônia.org.br

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