Os indígenas do Brasil pedem socorro contra a Covid-19

Indígenas Yanomami nas ruas de Boa Vista, em abril (Foto: Emíly Costa/Amazônia Real)

Existem hoje no Brasil 305 etnias com 896.900 mil indígenas. A pandemia do covid-19 atingiu muitos dos seus povos. Segundo a Articulação dos Povos Indígenas no Brasil (APIB) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), até o dia 9 de maio haviam 223 indígenas infectados, em 30 povos diferentes. Eram então, 55 mortos.

O centro da epidemia está no Amazonas com 42 mortes. Na cidade de Manaus morreram 21 indígenas e 17 no Alto Solimões. O primeiro caso de Covid-19 foi o de uma agente de saúde indígena no Amazonas do povo Kokama contaminada por um médico do Distrito de Saúde Indígena do Alto Solimões, que atende 236 aldeias na fronteira entre Colômbia e Peru. Depois disso, mais 20 pessoas do povo Kokama já morreram, incluindo o agente de saneamento básico, Alberto Párcia Felix, Ticuna, de 55 anos. Foram realizados exames nas equipes da Secretaria de Saúde Indígena (SESAI) do Alto Solimões e 12 agentes de saúde estavam contaminados pela Covid-19.

Funcionárias do DSEI Alto Rio Solimões do Pólo Base de Feijoal (Foto: Reprodução Facebook/DSEI ARS)

Em Manaus, o caos é total. O Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) confirmou, em matéria do Instituto Socioambiental (ISA), que os pacientes indígenas com outras doenças se contaminaram em Manaus, na Casa de Saúde Indígena, hospitais estaduais e municipais e depois voltaram para suas aldeias.

Há um mês os poucos hospitais que de Manaus já estavam com capacidade máxima nas UTIS. O professor Tikuna, Aldenor Basques Félix Gutchicü, vice-cacique e um dos precursores do curso de Pedagogia Intercultural da Universidade do Estado do Amazonas, morreu na cidade. O médico indígena Cleubir Tikuna também é uma das vítimas da capital.

Em abril morreu em Roraima um rapaz Yanomami de 15 anos e existem até agora mais 5 outros casos de contaminação entre os Yanomami. Em maio saiu a confirmação de que 16 profissionais de saúde indígena do Distrito Especial Indígena Yanomami estão com covid-19. Este Distrito de Saúde abrange Roraima e Amazonas que tem 366 aldeias indígenas.

Fila para sacar auxílio-emergencial na loteria em São Gabriel da Cachoeira (Foto: Paulo Desana/Dabakuri/Amazônia Real/24/04/2020)

Como está acontecendo no Brasil inteiro, os números sobre Covid- 19 estão subnotificados. Sonia Guajajara, presidente da Apib, revela que “os números apurados pelo movimento indígena, quando comparados aos da Sesai, revelam uma discrepância absurda. Além da negligência do Estado brasileiro, há um racismo institucionalizado“. A vice-presidente da Federação Indígena do Povo Kokama pede socorro e explica que estão tentando remover um indígena mas a Sesai diz que eles moram em contexto urbano e tem que ser atendidos pelo SUS. Eles estão colocando nos atestados de óbito que os indígenas são pardos

Em entrevista a Amazônia Real, o secretário Especial de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde, Robson Santos da Silva . Afirmou que o órgão não contabiliza casos de indígenas com Covid-19 que moram em contexto urbano, só em terras indígenas. Santos da Silva afirma que índios residentes nas cidades devem ser atendidos pelo SUS – Serviço Único de Saúde. Entretanto, organizações indígenas e o Ministério Público defendem que indígenas que moram nas cidades deveriam, sim, ser atendidos pela Secretaria de Saúde Indígena, dedicada especialmente a essa população. O Brasil tem 34 Distritos Especiais de Saúde Indígena, responsáveis pelo atendimento de quase 800 mil indígenas aldeados.

De acordo com o IBGE, 36% dos indígenas do Brasil vivem em área urbana – Censo de 2010. Pela constituição brasileira não há diferença entre “aldeados“ e “não aldeados“.

Após a reunião entre aldeias Yanomami com a Hutukara Associação Yanomami, muitos indígenas decidiram entrar na mata profunda para fugir da contaminação, como faziam seus ancestrais quando as aldeias enfrentaram os surtos de sarampo e coqueluche, na época da ditadura militar. Além disso, terras Yanomami estão invadidas por mais de 20 mil garimpeiros de ouro e as três Bases de Proteção Etnoambiental voltadas para etnias de pouco contato e isoladas foram fechadas pela Funai.

Operação contra o garimpeiro na TI Yanomami em 2018 (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Um grupo de 40 Yanomami da aldeia Xexena que estavam em Boa Vista, Roraima, retornou à comunidade sem fazer teste. Agora, 19 deles estão na quarentena cidade. As informações são da Sesai / Ministério da Saúde. No município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas – com 45.565 habitantes onde 90% são indígenas – o aumento de casos de Covid-19 foi de 583% do dia 1 a 9 de maio (fonte ISA). Cinco pessoas já morreram e 79 casos estão confirmados. O hospital está em colapso com sua capacidade máxima, não haviam mais respiradores e faltavam cilindros de oxigênio até sábado dia 9 de maio. Em Alter do Chão, no Pará, uma senhora da etnia Borari de 87 anos morreu de Covid-19. Também morreu o Tuxaua Otávio dos Santos Sateré Mawé – o povo Sateré Mawé vive na divisa entre Amazonas e Pará e tem 15.776 indígenas. Até o momento o Dsei de Parintins tinha 18 indígenas contaminados.

Descaso do governo

A jovem liderança Vanda Ortega Witoto, do Parque das Tribos, em Manaus
A auxiliar de enfermagem Vanda Ortega Witoto no Parque das Tribos em Manaus (Foto de arquivo pessoal/03/05/ 2020)

A falta de uma ação nacional no combate à pandemia do novo coronavírus pelo presidente Jair Bolsonaro atingiu os povos indígenas em todas as regiões, de norte a sul, agravando a dramática situação já existente. Neste último ano, 150 terras na Amazônia sofreram invasões de grileiros, madeireiros e garimpeiros, instigados pelo governo federal. Estão queimando florestas e assassinando lideranças. Além disso, missionários evangélicos querem a qualquer custo catequizar os indígenas, não respeitando suas crenças.

A Funai não está fazendo direito o seu trabalho. O órgão é atualmente chefiado pelo delegado Marcelo Xavier, conhecido por ser uma pessoa excessivamente agressiva e impulsiva. Em janeiro deste ano ele deu um soco no rosto do pai, de 71 anos, segundo ele próprio registrou em boletim de ocorrência. Muitos funcionários com experiência na Funai foram dispensados depois que Xavier entrou na direção e foram contratados pessoas sem formação acadêmica em Antropologia e Ciências Sociais.

Quando Xavier era delegado na Polícia Federal, foi afastado de uma operação de expulsão de invasores de uma terra indígena, por suspeitas de estar colaborando com os invasores. Ele também já trabalhou como assessor dos ruralistas na CPI do Incra e da Funai.

A maior crítica da população indígena e antropólogos contra Marcelo Xavier foi a contratação de Ricardo Lopes Dias para a coordenação dos índios isolados. Lopes Dias trabalhou cerca de dez anos com o grupo evangélico Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB), que se dedica à conversão de indígenas à fé cristã na Amazônia.

Organização Indígena

Mulheres indígenas no ATL de 2019 em Brasíla (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Apesar de tudo isso, os indígenas brasileiros nunca estiveram tão organizados. Acostumados a lutar pelos seus direitos há 520 anos, estão se unindo para encontrar novos caminhos e exigir melhores condições de assistência à saúde, defesa de suas terras e do meio ambiente onde vivem. Estão se organizando com a Apib para combater mais esse inimigo, a Covid-19.

Dias 8 e 9 de maio eles realizaram uma grande Assembleia Nacional de Resistência Indígena para tratar de assuntos como os diagnósticos regionais sobre o Covid-19 nas aldeias e o impacto sobre os povos indígenas, criando redes de informação, logística e apoio de combate à doença. Conversaram também sobre as medidas jurídicas e legislativas para garantia de direitos dos povos indígenas no enfrentamento à pandemia, medidas de emergência para o enfrentamento da doença, com reuniões dos presidentes dos Conselhos Distritais de Saúde Indígena (CONDISI) que dispõe sobre o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena do SUS.

Numa carta ao presidente da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, os indígenas, apoiados pela deputada Federal indígena Joênia Wapichana, pediram ajuda para a criação de um fundo de combate ao covid-19. Em apoio à causa indígena o fotógrafo Sebastião Salgado fez uma campanha contra o genocídio com apelo aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário brasileiros. Várias personalidades do mundo participaram. Em resposta à campanha, a Funai devolveu 15 fotos de indígenas doadas por Salgado à entidade, com o recado malcriado para ele vender as fotos em um leilão e doar o dinheiro para essa causa.

Mortes também em outras regiões

Jovens Guarani na TI do Jaraguá em São Paulo (Foto: @piravilela @midianinja /2020)

No Sudeste do Brasil, na terra Indígena Guarani M’byá, no município de São Paulo, morreu uma criança de 1 ano no dia 21 de março. O resultado positivo para covid-19 saiu só um mês após a morte. De acordo com a Comissão Guarani Yvyrupa (CGY) outras crianças tiveram síndrome respiratória aguda grave. Algumas foram internadas em UTI e uma mulher testou positivo até agora. Um casal do povo Kaigang da Terra Indígena Serrinha no Rio Grande do Sul testou positivo. Segundo a Frente de Controle e Combate ao Coronavírus na Região Sul existem outros casos suspeitos que não estão sendo diagnosticados pela falta de testes, o que aumenta o risco de contaminação.

No Nordeste, um bebê do povo Pipipã, com 3 dias de vida, morreu no município de Floresta, Pernambuco. Existem agora 12 casos de coronavírus entre os indígenas do estado. Duas pessoas do povo Fulniô morreram em Águas Belas. Eles vivem em um território com adensamento populacional, escassez de água e falta de saneamento básico – problema geral nas aldeias indígenas em todo o Brasil.

Por: Rosa Gauditano
Fonte: Amazônia Real

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