Extrativistas da Terra do Meio distribuem 9,6 t de produtos da floresta a estudantes no PA

Prefeitura de Vitória do Xingu recebeu doação de castanhas-do-Pará, farinha do coco babaçu e misturas para bolo para alimentar os 4,5 mil alunos e seus familiares no município durante a pandemia

Debora Rodrigues de Melo prepara embalagens de Mistura para Bolo com Farinha de Babaçu|Lilo Clareto-ISA

Um esforço coletivo que uniu beiradeiros, agricultores familiares, nutricionistas, agentes públicos e organizações da sociedade civil levou, em tempos de pandemia da Covid-19, alimento da floresta para 4.500 estudantes e seus familiares do município de Vitória do Xingu, no sudoeste do Pará.

Um total de 9,6 toneladas de produtos como castanha-do-Pará e farinha do coco babaçu produzidos pela Rede de Cantinas da Terra do Meio, entraram nas cestas distribuídas no município, que está com suas 24 escolas fechadas desde o dia 18 de março.

Vitória do Xingu compra produtos das comunidades da região da Terra do Meio desde 2017 por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), do governo federal. Em junho, por um problema no pregão, as compras de alimentos dos ribeirinhos e agricultura familiar não ocorreu.

Para contornar a situação e manter a entrega de cestas para alunos e familiares, a Rede de Cantinas da Terra do Meio realizou a doação dos alimentos. Os produtos fazem parte da Rede Origens Brasil® (saiba mais), iniciativa que garante relações comerciais éticas e transparentes entre empresas e comunidades.

Entrega da Aldeia Boa Vista, Terra Indígena Paquiçamba (PA)|Prefeitura de Vitória do Xingu

“Durante a pandemia, às vezes ficamos sem saber se nossos alunos estão se alimentando bem, ou até mesmo se têm o que comer”, afirmou Danielle Damasceno, nutricionista do município. “Essa é uma história linda, de cada um segurando a mão do outro, com uma cesta rica de alimento e conhecimento. Estamos felizes porque vamos atender todos os nossos alunos.”

A entrega inclui quatro escolas indígenas nas aldeias Mïratu, Paquiçamba, Furo Seco e Boa Vista, do povo Juruna, na Terra Indígena Paquiçamba (PA), e as três escolas ribeirinhas que compõem a rede municipal. É alimento tradicional, rico em nutrientes, para mais saúde e segurança alimentar durante a pandemia.

Além da distribuição de alimentos para os estudantes de Vitória do Xingu, a Rede de Cantinas da Terra do Meio promoveu uma doação de 450 kg de castanhas e farinha de babaçu para o Movimento dos Atingidos por Barragens, que atende famílias que estão em área de risco na região da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e para os Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs) no município de Altamira.

“Sem a renda gerada com uma entrega como essa e sem uma estrutura mínima de saúde, dificilmente a gente conseguiria sensibilizar as comunidades a permanecer nos territórios. Mas estamos conseguindo fazer. A maioria está levando à risca e não tem nenhum caso confirmado de Covid-19 nas reservas extrativistas até o momento”, explicou Naldo Lima, assessor das associações de ribeirinhos da Terra do Meio.

Enquanto isso, a luta contra a Covid-19 nos territórios continua. As associações ribeirinhas instalaram pontos de internet nas comunidades e foi criado o áudio do beiradão, produzido pela Rede Xingu+ e enviado por Whatsapp.

“Vamos continuar levando essas informações sobre a Covid-19 e recursos para promover a produção lá na base. Não dá para desanimar. Assim o produtor permanece remunerado”, disse Lima.

A doação de alimentos foi realizada com recursos da Rainforest Foundation Norway e apoio da União Europeia.

Pedro Nogueira costura sacos de castanha no galpão da Rede de Cantinas da Terra do Meio|Lilo Clareto-ISA

História de luta pela economia da floresta
O município de Vitória do Xingu, que conta com cerca de 15 mil habitantes, promoveu no ano passado um concurso de receitas com as merendeiras para estimular o uso do farinha do coco babaçu, rica em fibras e ferro, livre de agrotóxicos e não-transgênico, que substitui o amido de milho nas receitas do dia a dia para as crianças.

Assista ao vídeo e relembre essa história:

As receitas vencedoras, incluíram estrogonofe, torta e rocambole. “A doação estimula o município e reforça essa parceria. Todo mundo ficou encantado de receber essa essas cestas tão importantes”, afirmou Danielle Damasceno.

Outros dois municípios paraenses – Altamira e Brasil Novo – também fizeram aquisições da farinha para alimentação escolar. A expectativa é que no futuro mais prefeituras acessem o produto, que tem uma capacidade instalada de produção nas comunidades de cerca de 60 toneladas por ano.

Da Floresta para a Merenda

Os bons resultados da valorização e comercialização da farinha do coco babaçu teve impulso com a campanha Da Floresta para a Merenda!, que recebeu apoio do co-fundador do Instituto ATÁ, Alex Atala, da cozinheira Bela Gil e da nutricionista Neide Rigo.

Alex, Bela e Neide elaboraram um livreto de receitas para estimular o uso da farinha do coco babaçu. Clique para baixar!

A farinha do coco babaçu leva a marca “Vem do Xingu”, que representa o trabalho das comunidades. Ela é beneficiada nas miniusinas de multiprodutos da Rede de Cantinas da Terra do Meio, e é fruto do trabalho das comunidades ribeirinhas das Reservas Extrativistas Rio Iriri, Riozinho do Anfrísio e Xingu, dos agricultores do Projeto Sementes da Floresta e do povo Arara da Terra Indígena Cachoeira Seca, no Pará.

Por: Roberto Almeida
Fonte: ISA

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