Madeira certificada da Amazônia gera renda para ribeirinhos do Tapajós

  • Cravada no Pará, estado que está no topo do ranking do desmatamento, a Floresta Nacional do Tapajós abriga há 15 anos um dos mais bem-sucedidos projetos de manejo de madeira nativa.
  • Das 24 comunidades existentes na unidade de conservação, 18 fazem parte do projeto, com uma média de 130 pessoas envolvidas nas atividades. O manejo florestal é hoje a grande fonte de renda na região.
  • Em 2013, a madeira extraída pelas comunidades obteve o selo de certificação FSC. E parcerias com designers renomados renderam móveis e objetos que conquistaram o mercado brasileiro.

Fazer da venda da madeira um negócio rentável e sustentável para as comunidades e famílias que habitam a Floresta Amazônica parecia ser um sonho impossível pelos moradores da Floresta Nacional do Tapajós.

Cravada no Pará, estado que está no topo do ranking do desmatamento, uma das mais visitadas unidades de conservação do Brasil não só faz do manejo da madeira uma forma de sustento há 15 anos como garantiu o selo FSC (Forest Stewardship Council), o que comprova sua origem legal e a torna referência em manejo dentro do país e fora dele. Uma movelaria para reutilizar os galhos que sobram também foi criada.

Por meio de manejo florestal, é possível imaginar que espécies cobiçadas como o ipê, a maçaranduba, o jatobá, o cumaru, o cedro e a itaúba possam sair da Amazônia e se transformar no móvel da casa de alguém sem carregar o peso da culpa, da destruição e da ilegalidade.

Isso porque a extração predatória da madeira na Amazônia é um dos principais vetores do desmatamento da floresta, responsável por quase 20% das derrubadas registradas este ano, de acordo com dados do sistema Deter de monitoramento por satélite, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). No primeiro trimestre de 2020, foram 1.204 quilômetros quadrados de áreas desmatadas.

Aluisio Patrocínio de Sousa, engenheiro florestal que faz parte da Coomflona (Cooperativa Mista da Flona do Tapajós), conta que a diferença entre o manejo florestal da madeira e a exploração ilegal é que o primeiro envolve regras a serem seguidas com respeito à área a ser trabalhada e a quantidade de árvores que podem ser derrubadas, tudo realizado por meio de um inventário prévio.

Já na segunda maneira não há nenhum tipo de avaliação e derruba-se o que há de melhor, deixando para trás um rastro de destruição. “É tudo no grito. Um grita para o outro: aqui tem uma árvore boa, aí vão lá e derrubam”, conta Aluisio.

Árvore dentro da área de manejo da Floresta Nacional do Tapajós, que ocupa 80 mil hectares, ou 15% da unidade de conservação. Foto: Coomflona/divulgação.

Aline Tristão, diretora-executiva da FSC Brasil, reforça que o manejo é uma alternativa importante para a exploração dos recursos naturais da Amazônia de forma não predatória. O que não exclui alguns desafios, segundo ela: “Todo produto que vem da floresta pode ser certificado, mas a madeira da floresta tropical é o mais desafiador porque é preciso escala para competir com a madeira ilegal. A madeira certificada precisa ser valorizada, pois não é fácil se manter certificado. O maior desafio que temos é desassociar manejo florestal de desmatamento.”

Uma das regras do manejo florestal é que não se pode ultrapassar o volume de 30 metros cúbicos por hectare de madeira, em ciclos de corte que vão de 25 anos a 35 anos. Os troncos só podem ser cortados se tiverem um diâmetro mínimo de 50 centímetros e é preciso deixar na mata uma proporção das árvores maduras de cada espécie, para que elas sirvam de matrizes para a regeneração da floresta.

O manejo pelos comunitários dentro da Flona do Tapajós existe desde 2005 e atualmente – depois de algumas revisões no plano – abrange uma área de 80 mil hectares, o correspondente a 15% do total da Unidade de Conservação. A certificação FSC veio em 2013, o que não gerou necessariamente mais renda aos comunitários, mas trouxe empoderamento e reconhecimento pelo trabalho realizado. Das 24 comunidades existentes na Flona, 18 fazem parte do projeto, com uma média de 130 manejadores envolvidos nas atividades, que recebem um salário mínimo por mês.

Geração de renda

O manejo começou e foi aceito pela comunidade por uma necessidade de gerar renda. Segundo o manejador Arimar Feitosa Rodrigues, antes da madeira os moradores trabalhavam com agricultura familiar, pesca de subsistência, produção de farinha, coleta de sementes, extração da borracha e como guias de turismo de base comunitária – o local é conhecido pelas suas praias de rio exuberantes e trilhas pela floresta. Rodrigues conta que as discussões para o manejo começaram ainda na década de 1990.

“A gente ficava frustrado e teve momentos que pensamos que não iríamos conseguir, mas não arredamos o pé e hoje existe esse projeto, que é visto como uma grande coisa para o Brasil e para o mundo”, afirma Rodrigues. Ele, que nunca antes tinha trabalhado com a madeira, conta que o coração doeu na primeira vez que viu as árvores caindo. “A floresta vai se acabar, pensei, mas depois eu entendi que, se a gente não fizesse, viria uma empresa de fora para explorar. Hoje vivemos melhor do que antes e fazemos tudo de maneira legalizada.”

No manejo florestal são várias as diretrizes a serem seguidas e elas estão relacionadas com o tempo do manejo escolhido. No caso da Flona do Tapajós, o ciclo de corte são 35 anos e é permitido explorar até 2 mil hectares por ano. As espécies precisam medir pelo menos 50 centímetros de diâmetro para serem derrubadas e a partir dessa identificação – por meio de um inventário – é que serão escolhidas as que serão derrubadas. O critério envolve desde possíveis defeitos até o que está sendo demandado pelo mercado.

Essa área, correspondente a 2 mil campos de futebol, é dividida em 20 Unidades de Trabalho (UT) de 100 hectares cada, onde é permitido explorar em cada uma 3 mil metros cúbicos de madeira — o correspondente, mais ou menos, a derrubada de quatro árvores, o que vai depender da espécie. A estimativa é que haja 4.500 metros cúbicos de madeira em cada Unidade de Trabalho. Ou seja, permanecem em pé 30 mil metros cúbicos de madeira anualmente na área com permissão para ser explorada.

Graças a parcerias com designers, moradores da comunidade foram capacitados na confecção de móveis e obtiveram uma fonte de renda. Na imagem, Valdirene Cardoso dos Santos. Foto: BVRio/divulgação.

Móveis da floresta para o mundo

Com o objetivo de reaproveitar as sobras dos galhos das árvores derrubadas no manejo, surgiu a movelaria Anambé. E uma parceria com designers renomados de São Paulo e Rio de Janeiro não só capacitou os marceneiros locais como jogou luz na origem dos produtos florestais mundo afora.

O projeto desenvolvido pela organização não-governamental BVRio, em parceria com a Coomflona e a FSC Brasil, tem como ideia central fomentar o uso e o consumo de madeira nativa certificada por meio da troca de experiências e conhecimento entre o urbano e o tradicional. Os cooperados participam de workshops para aprimorar suas técnicas de produção de móveis e objetos de decoração e os designers aprendem sobre manejo responsável e as espécies de madeiras.

Um dos primeiros a participar do intercâmbio foi o designer Carlos Motta, que constrói móveis em madeira há quatro décadas. “É uma troca muito forte e ficamos todos com os olhos brilhando com as trocas de conhecimento. Essa aproximação catalisa algo muito brasileiro.”

Como resultado do workshop desenvolvido por Motta, as tradicionais cumbucas, muito utilizadas na Amazônia pelos ribeirinhos e povos indígenas, ganharam novos acabamentos e foram padronizadas de modo a se encaixar uma nas outras para que possam ser embaladas e enviadas a outros países, como Estados Unidos e Inglaterra.

“O que acontece é uma otimização industrial e o que está dentro dessas caixas é um pedaço torneado de um resíduo florestal, que não deixa de ser uma cumbuca. Essas experiências são enriquecedoras e é algo que nos pertence no afeto, na história, no produto, na madeira, nos hábitos. É um produto 100% brasileiro, no sentido de representatividade”, afirma Motta.

Jorge Luis, nascido e criado dentro da comunidade, é marceneiro há 30 anos e trabalha na movelaria desde o início. “Sou o marceneiro mais experiente da Anambé”, afirma com orgulho. Ele conta que toda sua produção sai da movelaria praticamente pronta e chega em São Paulo precisando apenas de pequenos ajustes para ser vendida. Um vaso manufaturado por ele foi parar em Milão, na Itália. “Quando começou a movelaria a gente estava meio sem rumo, sem destino e surgiu a oportunidade de capacitação, que trouxe os designers com novas ideias e começamos a acreditar em nós mesmos”, acrescenta.

Para Valdirene Cardoso dos Santos, a movelaria trouxe, além de aprendizado nas técnicas de marcenaria, a possibilidade de conseguir poupar dinheiro e ajudar a família. “Vários comunitários estão empregados e eu sou uma delas. E o encontro com os designers me ensinou a produzir móveis, dando a importância desde a derrubada das árvores até o acabamento dos móveis, dando valor àquela árvore retirada da floresta.”

O designer Carlos Motta em São Paulo, com uma das cumbucas produzidas pelos comunitários da Floresta Nacional do Tapajós. Foto: BVRio/divulgação.

Reconhecimento da legalidade

A certificação FSC chegou à Flona do Tapajós em 2013. Para os manejadores, é o reconhecimento da legalidade da madeira e o que influencia os compradores, mas ainda é difícil competir com a clandestinidade, não só em relação aos valores comerciais como também no entendimento sobre a importância de um produto que respeite a floresta, do começo ao fim.

“O FSC é o reconhecimento da legalidade da madeira e mostra que é possível ser diferente, pois a gente cumpre os processos. Uma atividade legal, de tirar a matéria-prima, cumprir as diretrizes e subsidiar os moradores que ali estão”, afirma Aluisio.

E também amplia mercado, afirma Angelo Ricardo Sousa, engenheiro ambiental e o responsável técnico pela certificação florestal. Segundo ele, a grande sacada do projeto de manejo foi a criação da Coomflona com viés comercial e caráter empreendedor, pois os cooperados puderam se dedicar à atividade com foco na produtividade.

Para Sousa, a certificação é um processo de aperfeiçoamento, que, apesar de gerar certas burocracias e cobranças, tem também a questão social envolvida, pois a distribuição de renda é feita dentro da própria comunidade. “A certificação da Coomflona é um exemplo e que faz com que as pessoas nos vejam com outros olhos. É o empoderamento da própria comunidade e uma mudança de visão de que é possível fazer diferente.”

Por: Maria Fernanda Ribeiro
Fonte: Mongabay

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