No Norte ‘morreu muita gente sem assistência’, afirma pesquisador da Fiocruz

Infectologia explica por que a região tem maior concentração de casos e mortes da Covid-19, conforme aponta cruzamento de dados da Amazônia Real

Imagem do Cemitério Nossa Senhora Aparecida no Tarumã, em Manaus (Foto do ensaio Insulae de Raphael Alves)

Das cinco regiões brasileiras, a Norte lidera em número de casos e mortalidade do novo coronavírus. Se fosse um país, estaria em quinto lugar nas mortes a cada cem mil habitantes, atrás de San Marino, Bélgica, Andorra e Reino Unido. Roraima e Amapá têm a maior incidência da Covid-19 na proporção para cada cem mil habitantes: 4.852 e 4.157 casos. Todos os Estados do Norte estão à frente da média nacional, que no dia 25 contabilizava 1.139,4 casos a cada cem mil habitantes. Por que a pandemia atingiu de maneira tão dramática a região onde está localizada a Amazônia, a maior floresta tropical do planeta? Os especialistas ainda procuram respostas.

A agência Amazônia Real cruzou os dados da Covid-19 divulgados pelo Ministério da Saúde para tentar encontrar explicações. Padronizou os dados para cada cem mil habitantes, uma forma estatística que permite comparar regiões e municípios tão distintos em termos populacionais. Por Estados, o Ceará é o que apresenta a maior mortalidade, de 81,9 a cada cem mil habitantes. Mas Roraima, com 78,1 mortes, e Amazonas, com 77,5 mortes, e, vêm logo em seguida. Pará (66,1), Amapá (65,5), Acre (54,8) e Rondônia (45,6) têm uma proporção de mortes pelo novo coronavírus maior que a média brasileira, de 40,0 mortes por cem mil habitantes.

O Norte, no conjunto dos sete estados, contabilizava, em 25 de julho, 62,7 mortes a cada cem mil habitantes, a maior proporção do país. Ela é mais do que o dobro da apresentada no Centro-Oeste, atualmente em 27,7 mortes por cem mil habitantes. Com estratégias equivocadas por partes dos governantes, como a não adoção de medidas rígidas de isolamento ou liberação precoce das atividades econômicas, além da histórica desigualdade regional, o Norte paga um preço alto nesta pandemia. São 2.081,9 casos de Covid-19 a cada cem mil habitantes, o que representa 83% maior do que a média nacional e 225% do que a da região Sul. E é mais do que o dobro do Sudeste, a mais populosa do País.

Das 100 cidades brasileiras de maior mortalidade pela Covid-19, 25 são da região Norte. E as em pior situação estão localizadas no interior dos Estados, mostrando a proliferação da pandemia para locais, historicamente, desassistidos de cuidados médicos. Guajará-Mirim (RO) tem o pior índice, com 145,1 mortes a cada cem mil habitantes. Nesta cidade, que tem mortalidade 3,6 vezes do que a média brasileira, havia três respiradores em uso em abril deste ano, última informação disponível no Tabnet do Datasus, do Ministério da Saúde. Manacapuru (AM), Pimenteiras (RO), Belém e Tefé (AM) completam os cinco municípios que lideram esse ranking das 100 cidades. As capitais Porto Velho (RO), Boa Vista (RR) e Manaus (AM) também entram na lista. Um total de 760 cidades possui mortalidade a cada cem mil habitantes maior do que a média nacional, que subiu para 41,1 mortes no dia 25 de julho. Destas, 145 pertencem à região Norte.

Ao se observar a evolução dos últimos três meses, precisamente na comparação dos dias 25 de abril ante 25 de julho, o que se verifica é que a pandemia também teve avanços maiores em alguns Estados da região Norte. Rondônia saltou de 18,5 casos a cada cem mil habitantes para 2.001,6 casos entre essas duas datas. Ou seja, a incidência foi multiplicada 109 vezes. Pará, que tem 147.923 infectados (o Estado da região com maior registro de casos), possui uma proporção de 1.719,5 casos a cada cem mil habitantes, 86 vezes mais do que três meses atrás. O estado Tocantins, que apresenta a menor proporção da região de casos e mortes pela Covid-19, teve, por outro lado, o maior crescimento de incidência do país em três meses, saltando de 50 para 20.920 casos totais, indicando que a curva da doença chegou mais tarde, porém de forma avassaladora.

Para analisar a realidade da pandemia na região Norte, a Amazônia Real entrevistou o médico infectologista e pesquisador da Fiocruz do Mato Grosso do Sul, Júlio Croda. Ele foi diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde durante a gestão de Luiz Henrique Mandetta. O especialista deixou o governo de Jair Bolsonaro com a demissão do então ministro e voltou à pesquisa. Nesta entrevista, afirmou com assertividade que Manaus desfruta de relativa calmaria “porque muita gente morreu” e a população adquiriu da “imunidade de rebanho”, ou imunidade coletiva. “Manaus chegou a 800, 900 mortes por milhão, isso está entre os piores indicadores do mundo”, diz. 

Amazônia Real – Por que a região Norte tem a maior taxa de mortalidade por cem mil habitantes do Brasil? São números graves ou já eram esperados?

Júlio Croda – São números graves, sim, e indicam o desastre e a tragédia que ocorreu na região Norte. Esse é o principal indicador: mortalidade por cem mil habitantes. Ele indica que, provavelmente, morreu muita gente sem assistência, sem leitos de terapia intensiva, muitos óbitos em casa. Por isso a letalidade foi tão grande. É um bom indicador para comparar a assistência em saúde entre as diferentes regiões e diferentes estados. Ele mostra que o Amazonas é um dos estados que têm a maior mortalidade por cem mil habitantes.

Amazônia Real – Quais medidas poderiam ter sido adotadas para salvar mais vidas?

Croda – Os gestores poderiam ter adotado medidas mais severas para evitar esse cenário. Nós sabemos que existe um dado histórico importante que mostra a distribuição desigual de leitos de terapia intensiva quando a gente compara as regiões Norte e Nordeste com as regiões Sul e Sudeste. Tem uma distância enorme, de duas ou três vezes mais leitos de UTI nas regiões Sul e Sudeste, do que na região Norte. Portanto já é uma distribuição desigual no Brasil no que diz respeito à assistência. No momento da pandemia, mesmo com a ampliação do número de leitos, medidas mais rigorosas de distanciamento deveriam ser adotadas. Lógico que foram instituídos vários decretos, mas esses decretos não foram cumpridos. 

Amazônia Real – E por que não foram cumpridos se todos sabiam da gravidade da pandemia? 

Croda – Porque não teve fiscalização, multa, fechamento de estabelecimento, não teve o poder público intervindo para garantir, realmente, que as pessoas ficassem em casa. Programas sociais para a população carente são super necessários para que essa população não tenha necessidade de sair de domicílio. O que a gente viu nas cidades foi uma tragédia, um genocídio e sem nenhum apoio também do governo federal, o que intensifica essa tragédia. No momento em que uma cidade e um Estado já têm carências históricas em termos de leitos de UTI e não consegue lidar adequadamente com o aumento do número de casos, é necessário que o governo federal tenha uma atenção diferenciada e um apoio político, logístico e financeiro para que possa realmente aumentar o distanciamento social, diminuir contato e reduzir o número de casos. Por exemplo, poderia ter o apoio do Exército para controlar o fluxo de pessoas nas ruas, para realmente instituir um lockdown efetivo em Manaus, que reduzisse a necessidade de admissões em leitos de UTI.

Amazônia Real – O que explica agora a queda de mortes por Covid-19 em Manaus, um dos primeiros epicentros da epidemia?

Croda – Houve poucas medidas efetivas de distanciamento, muita circulação do vírus, muitas pessoas perdendo as vidas nas filas das unidades de pronto atendimento e em domicílio, aquelas cenas lamentáveis de pessoas sendo enterradas em covas comuns. Isso permaneceu por muitos dias e foi uma tragédia com excesso de óbitos que girou em torno de 400% a 500%. Então devido a essa circulação importante do vírus, e a história natural da doenças sem as medidas de distanciamento, pode ter ocorrido a imunidade coletiva. Você não tem um aumento importante de casos, uma segunda onda, porque a maioria das pessoas suscetíveis já adquiriram a doença no passado.

Amazônia Real – Chegamos à tão comentada imunidade coletiva?

Croda – Pelos dados, essa é a principal hipótese, pois vivemos um aumento importante de flexibilização das atividades não essenciais, com aumento de contato entre as pessoas, com uma adesão relativamente regular às recomendações de distanciamento, com uso de máscara, protetor facial, lavagem de mãos, e não observamos, até o momento, mais de 45 dias depois da retomada das atividades não essenciais, um aumento importante do número de casos, de internações e da utilização dos leitos de UTI. 

Amazônia Real – Como isso foi possível?

Croda – Porque muita gente morreu. Isso não é objetivo de nenhum gestor, deixar pessoas que poderiam ser salvas, ter um leito de UTI, sem assistência. Manaus chegou a 800, 900 mortes por milhão, isso está entre os piores indicadores do mundo. A Bélgica, como país, atingiu números similares. É uma tragédia, um genocídio, que se deu pela circulação intensa do vírus, que ceifou muitas vidas e que agora temos essa configuração de imunidade coletiva com queda bastante importante. A grande questão é: por quanto tempo isso vai durar? Será que dura bastante tempo, o resto da vida, e não vamos ter uma nova circulação importante em Manaus? Ou no ano que vem, no inverno amazônico, entre março e abril, a gente vai ter uma outra circulação importante por causa da queda da imunidade coletiva?

Júlio Croda (Foto de Erasmo Salomão/MS)

Amazônia Real – Agora a pandemia parece estabilizar nas capitais, mas os municípios do interior continuam registrando um número alto de casos, mais de mil por dia. 

Croda – Isso é normal, pois as capitais concentram a maior parte da população dos estados, onde se está a maior densidade populacional. A doença vai se interiorizando em todos os estados brasileiros, mas aí as carências de infraestrutura hospitalar são maiores, principalmente de leitos de UTI e gente espera um aumento da letalidade. Em Santarém, houve um aumento importante de casos lá e gente observa sempre um aumento para o interior, primeiro a capital e depois o interior.

Amazônia Real – Mas os estados e municípios da região Norte ainda continuam com dados elevados.

Croda – Essa percepção acontece porque os dados são cumulativos. Por enquanto, só é possível fazer a comparação entre ascensão e queda dos números em cidades e estados do Norte e do Nordeste como em Manaus, na capital do Pará, Belém, na capital do Maranhão, São Luís, e no Ceará, que já estão com números em queda e têm números importantes. No entanto, a pandemia está em fases diferentes em cada região do Brasil, por isso é importante fazer a comparação entre os iguais, capitais com capitais e interior com interior. No Sul, no Sudeste e nas cidades do interior, os casos estão aumentando.

Amazônia Real – Os municípios do interior registram poucas mortes (oficiais) por Covid-19. Por que isso acontece? 

Croda – Esse aumento de casos no interior aconteceu porque foi ampliada a testagem com teste rápido que detecta os pacientes com formas leves da doença, diferente do RT-PCR, que só diagnostica os pacientes mais agudamente. Provavelmente, essa diferença em relação ao número de casos e óbitos se deu por ampliação de testagem.

Amazônia Real – Quais medidas as autoridades em saúde deveriam adotar daqui para frente até a chegada da vacina?

Croda – As autoridades em saúde devem ficar atentas em diferentes regiões para o aumento do número de casos e, principalmente, para o aumento da demanda do número de leitos de terapia intensiva. Se identificarem esgotamento do serviço de saúde, devem aprender com o passado e agir mais precocemente no sentido de garantir o distanciamento social e evitar mortes por falta de leitos de UTI.

Por: Eduardo Nunomura e Izabel Santos
Fonte: Amazônia Real

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