‘É nosso direito enterrá-los’, diz o povo Wai Wai sobre corpos de lideranças vítimas da Covid-19

Na imagem, a equipe do Conselho Indígena de Roraima (CIR) faz visita à aldeia Xaary em 7 de julho (Foto: Ascom/CIR)

Num gesto extremo, os indígenas Wai Wai apreenderam durante 32 dias uma caminhonete alugada pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, na comunidade Xaary, no município de São João da Baliza, no Sul de Roraima. Para liberar o veículo, os indígenas exigiam que os corpos das lideranças Fernando Makari Wai Wai, 58 anos, e Sergio Xexewa Wai Wai, 80 anos, que morreram entre os dias 4 e 5 de julho no Hospital Geral de Roraima, em Boa Vista, fossem liberados para os sepultamentos na aldeia. “É nosso direito enterrá-los”, disse Zacarias Wai Wai, tuxaua da comunidade Xaary.

O protesto na aldeia Xaary acabou na última sexta-feira (7), sem uma solução para a reivindicação dos Wai Wai, após a mediação do Ministério Público Federal. A caminhonete é usada pelo Distrito Sanitário Especial Indígena Leste (Dsei-Leste) como ambulância para atender pacientes indígenas. Durante o período em que ela esteve apreendida, comunidades vizinhas ficaram sem atendimento, o que causou desentendimento entre os indígenas.

Os corpos de Fernando e Sergio permanecem distantes a 300 quilômetros da comunidade, no Parque Cemitério Campo da Saudade, na capital roraimense, contrariando a cultura tradicional. Os sepultamentos foram providenciados pela Sesai, assim como os de quatro Yanomami também vítimas da Covid-19. As duas etnias, no entanto, afirmam que não autorizaram os enterros na cidade.

“A gente cavou para enterrar aqui [na comunidade], mas enterraram lá [no cemitério]. Não pediram permissão para enterrar longe daqui, mentiram para a gente”, afirma Sílvio Wai Wai, um dos cinco filhos de Fernando Makari.

A reportagem da agência Amazônia Real falou com ele pelo telefone do tuxaua Zacarias Wai Wai. Segundo Sílvio, a família está sofrendo. Ele explicou que o enterro, para os Wai Wai, deve ocorrer na própria comunidade. “Queremos enterrar aqui. É só isso. A nossa cultura é assim, não queremos perder a nossa cultura. A gente não vai abrir o caixão. Por que estão demorando tanto?”, questionou Sílvio Wai Wai. 

Reginaldo Wai Wai é filho de Sergio Wai Wai. Ele disse à reportagem que a família também exige o corpo do pai para fazer o sepultamento na comunidade Xaary. “Meu pai era liderança. Tem que ser enterrado aqui”, disse Reginaldo Wai Wai. 

De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a Portaria Conjunta Nº 1, de 30 de março de 2020, estabeleceu procedimentos excepcionais para sepultamento e cremação de corpos durante a situação de pandemia do coronavírus em razão de exigência de saúde pública. A portaria considerou “a necessidade de providenciar o sepultamento em razão dos cuidados de biossegurança, a manutenção da saúde pública e respeito aos legítimos direitos dos familiares do obituado providenciado a inumação (enterramento)”.

No entanto, já houve sepultamento nas aldeias de indígenas que morreram de coronavírus. A Associação Wai Wai diz em carta aberta que Renato Poriciwi Wai Wai, o pai de Fernando Wai Wai, que também foi vítima da doença, foi sepultado na própria comunidade, localizada no Pará. O documento foi divulgado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e também pelo Conselho Indígena de Roraima (Cir). 

Segundo a carta, Renato morreu no dia 5 de junho, sendo a primeira vítima da Covid-19 entre esse povo. “A família, que já estava sofrendo com a primeira morte trágica de um ancião e importante líder do povo Wai Wai, agora se vê diante da perda de mais um ente querido e de não poder enterrá-lo de modo digno, de acordo com a nossa cultura. No Pará isso foi respeitado! Nosso direito foi respeitado. As normas sanitárias para o enterro foram respeitadas! Por que não aceitam em Roraima? ”, questionou a associação. 

No Amazonas, em 21 de maio foi transladado de avião o corpo da liderança Higino Pimentel Tenório, do povo Tuyuka,  de Manaus para São Gabriel da Cachoeira. Ele morreu de Covid-19 no dia 18 de junho. O translado foi realizado pelo Greenpeace e foi autorizado pelo Dsei Alto Rio Negro.

Indígenas querem ritos funerários tradicionais

Líder Valdecir Wai Wai mostra a carta enviada ao Ministério Público pedindo o corpo de seus parentes (Foto: Ascom/CIR)

Os indígenas Wai Wai ingressaram com uma ação na Justiça cobrando o direito dos sepultamento de Fernando e Sérgio. Segundo o tuxaua Zacarias Wai Wai ainda não houve uma decisão definitiva. “Nossa luta vai até o fim. A gente não vai desistir”, disse ele.

Zacarias, que é cunhado de Fernando, cobra o traslado dos corpos à comunidade. Ele diz que os sepultamentos serão feitos com cuidado para evitar a propagação da doença. Disse que o enterro poderia ser acompanhado pela própria Sesai para garantir que não haveria abertura dos caixões. “Não vamos queimar os corpos, não vamos abrir os caixões. É nosso direito enterrar nossos parentes”, disse o tuxaua Zacarias. “Nós sabemos que a doença é contagiosa, nós somos seres humanos, nós entendemos isso”.

Os Yanomami também já ingressaram com uma ação no MPF pedindo o direito da realização dos rituais funerários. Em junho, as mães de três bebês chegaram a acreditar que os filhos estavam desaparecidos porque, segundo elas, não foram informadas dos sepultamentos no cemitério de Boa Vista. 

As sepulturas dos bebês foram encontradas pela reportagem da Amazônia Real nos dias 26 e 28 de junho no mesmo cemitério onde estão os Wai Wai. As mães já regressaram às aldeias e aguardam uma solução “É difícil demais para mim. Eu cheguei aqui com o meu bebê, preciso que você me ajude a levar de volta”, disse uma das mães que pedia ajuda para levar o corpo do filho à região de Awaris, na Terra Indígena Yanomami. 

Os Yanomami têm um modo diferente de enfrentar o luto. Eles não enterram seus mortos. Os corpos devem ser cremados e depois as cinzas são misturadas a um mingau de banana que é ingerido pela comunidade.

Para o antropólogo francês Bruce Albert, sepultar vítima Yanomami sem o consentimento de seus familiares “demonstra uma grave falta de ética e uma total ausência de empatia das autoridades sanitárias com o desamparo deste povo face à pandemia de Covid-19”. “Além do mais, dispor de um defunto sem rituais funerários tradicionais constitui, para os Yanomami, como para qualquer outro povo, um ato inumano e, portanto, infame”.

O que dizem as autoridades

Túmulo de Fernando Makari Wai Wai no cemitério Parque da Saudade, em Boa Vista (Foto: Emily Costa/Amazônia Real)

A agência Amazônia Real procurou a Secretaria Especial de Saúde Indígena sobre o sepultamento dos Wai Wai, mas ainda não obteve retorno.

Procurada pela reportagem, a Fundação Nacional do Índio (Funai) informou que “a autoridade sanitária que responde pela saúde indígena no país é a Sesai”.

O Ministério Público Federal em Roraima informou que acompanha o caso dos indígenas Wai Wai. “Houve várias reuniões, fizemos recomendações ao Dsei-Leste e vamos nos manifestar no processo”, informou a assessoria.

Já a Anvisa, que emitiu orientações no Brasil em relação à manipulação de corpos de vítimas da Covid-19, afirmou que a execução dos enterros compete aos serviços de saúde. “As nossas orientações foram dadas no sentido de prevenir a contaminação de pessoas no momento do preparo e transporte dos corpos dos pacientes que vieram a óbito. Porém não tratamos dos procedimentos funerários”. 

O avanço da pandemia no Leste de Roraima

Enock Taurepang, coordenador do CIR, diz que os Wai Wai devem ser escutados (Foto: Yolanda Mêne/Amazônia Real)

O povo Wai Wai está entre os 51 mil indígenas de Roraima atendidos pelo Distrito Sanitário Especial Leste (Dsei-Leste), da Sesai. Até 6 de agosto o órgão registrou 31 mortes e 1.673 casos confirmados da Covid-19 em comunidades indígenas da região, o pior índice de contaminação entre os 34 Dseis do país. 

Somando os óbitos de indígenas em aldeias e zonas urbanas de Roraima, segundo a Apib, são 69 indígenas mortos pela Covid-19 no estado desde o registro do primeiro caso, em 8 de abril. Os mortos são dos povos Macuxi (18), Wapichana (6), Yanomami (5), Wai Wai (2) e Taurepang (2). 

O tuxaua Zacarias Wai Wai relatou que os primeiros casos da doença na comunidade Xaary, que tem 140 moradores, foram registrados no início de junho e se espalharam rapidamente. A poucos metros da Xaary, fica outra comunidade, a Anauá, onde vivem cerca de 300 Wai Wai. No Brasil, o povo Wai Wai se divide entre os estados de Roraima, Amazonas e Pará. O Dsei-Leste de Roraima atende nove comunidades Wai Wai com um total de 865 pessoas, conforme censo de 2019.

“O vírus chegou aqui pelos caminhoneiros do Amazonas. Eles compram as bananas das nossas roças e trouxeram a doença. Foi assim que ela veio”, disse o tuxaua Zacarias sobre o começo da pandemia entre os Wai Wai no início de junho. “Quase todo mundo teve sintomas. Aqui no Xaary e no Anauá também. Era febre, dor de cabeça, tosse. Ainda há muitos casos”, descreveu. 

Para Enock Taurepang, coordenador do CIR, o pedido do povo Wai Wai precisa ser escutado pelas autoridades. Segundo ele, o protocolo de sepultamentos de vítimas da Covid-19 não foi comunicado às comunidades de Roraima. Ele também questiona a falta de consulta aos povos indígenas no momento da construção desse protocolo. 

“O modo de vida indígena, nossa cultura e organização são reconhecidos e protegidos pela Constituição Federal, mas nós não fomos consultados e nem avisados sobre esse protocolo. Quando ficamos sabendo já tinham vários parentes enterrados em Boa Vista, mas em nenhum momento o Conselho Indígena de Roraima e nem as lideranças comunitárias foram consultadas se concordavam com os enterros dos parentes em Boa Vista”, disse.

Para ele, os familiares têm o direito de pedir os corpos de seus parentes que morreram longe de casa, e os sepultamentos poderiam ocorrer nas comunidades seguindo as orientações Organização Mundial da Saúde (OMS). 

“O povo Taurepang, por exemplo, ‘planta’ os parentes que morrem dentro do seu território, para que a força dele continue ali, perto da gente. Isso faz parte da nossa cosmologia. Não é apenas um enterro qualquer. Não é só isso, vai muito além disse. Será que nem na hora de descansar, a gente vai ter esse direito? ”, questionou Enock Taurepang. “Então estamos somando força com todas as comunidades e povos indígenas na luta pelo direito de enterrar os parentes, sempre respeitando, é claro todos as orientações da OMS, tendo os cuidados necessários, tendo instituições e pessoas que podem nos dar esse amparo”. 

Por: Emily Costa
Fonte: Amazônia Real

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