Temor de crime por omissão na luta contra incêndios reforça embate de Salles com ala militar do Governo

Ministro protagoniza episódios seguidos de interrupção no combate aos incêndios e encara bate-boca público com seus pares. Falta de verbas é a alegação oficial para o vai e vem

Jair Bolsonaro e Ricardo Salles em evento no dia do aviador, nesta sexta-feira.
Jair Bolsonaro e Ricardo Salles em evento no dia do aviador, nesta sexta-feira.
ERALDO PERES / AP

Em um dia, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, manda paralisar todos os trabalhos de combate aos incêndios no país, que estão sendo desenvolvidos por cerca de 1.400 funcionários do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama). Alega falta de recursos. 24 horas depois, o serviço é restabelecido após o Ministério da Economia liberar 60 milhões de reais para o órgão pagar dívidas básicas, como diárias para os brigadistas que estão em campo, faturas de consumo de água e energia elétrica, além de combustível para os veículos que estão sendo usados no combate ao fogo. Mais do que um vai e vem, é o repeteco de um episódio idêntico, registrado em agosto.

As reclamações de Salles e suas ações para interromper os trabalhos dos brigadistas como forma de pressionar por mais verbas reforçam um embate que ele vem tendo na Esplanada dos Ministérios com a ala militar do Governo Jair Bolsonaro desde que o vice-presidente, o general Hamilton Mourão, assumiu o comando do Conselho da Amazônia – e que ganhou contornos públicos essa semana, com direito a bate-boca via redes sociais.

Além disso, conforme fontes do Ibama e do MMA, o ministro também está preocupado em ter de responder a um crime de responsabilidade por eventual omissão no combate aos incêndios no Pantanal e na Amazônia. Juntos, esses dois biomas tinham nesta sexta-feira 21.785 focos de incêndio ativos, conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Se culpado por crime de responsabilidade, o ministro pode perder o cargo e ser proibido de exercer qualquer função pública por até cinco anos. A falta de verbas poderia ser a alternativa para justificar os resultados do Ministério na luta contra as queimadas.

Essa foi a segunda vez que o Ministério da Economia se viu obrigado a liberar recursos para o Meio Ambiente em meio à ameaça de interrupção dos trabalhos da pasta. A outra ocorreu em agosto e teve o mesmo enredo. Salles determinou a paralisação dos trabalhos, Mourão entrou na jogada e 96 milhões de reais foram liberados pelo Ministério da Economia. “Tudo parece um jogo de cena. Parece que querem deixar o ministro como uma espécie de herói, que ele não é”, afirmou um servidor que há quase duas décadas atua no Ibama.

Para 2020, orçamento previsto para o Meio Ambiente foi de R$ 563 milhões. Para fazer caixa, o Ministério da Economia segurou 230 milhões desses recursos. Desde julho, Salles se queixa internamente pela liberação de parte desses recursos. Cerca de 96 milhões de reais foram liberados após a crise de agosto. Agora, a promessa é que os outros 134 milhões cheguem ao ministério. A primeira parcela é de 60 milhões de reais. A decisão de reduzir o orçamento do MMA ao longo do ano veio após um acerto entre a Junta de Execução Orçamentária, formada pelos ministros da Economia, Paulo Guedes, da Casa Civil, o general Walter Braga Netto, e da Secretaria de Governo, o general Luiz Eduardo Ramos.

Um contrassenso nesta questão é que, no início do ano passado, a gestão Bolsonaro abriu mão do Fundo Amazônia, que tem paralisado cerca de 1,5 bilhão de reais retidos por não concordar com a forma que os recursos eram distribuídos. Boa parte desses recursos, doados pelos governos alemão e norueguês, era usada no combate aos incêndios.

No meio diplomático, representantes de outros países e entidades internacionais têm reclamado da atuação de Salles. Preferem conversar com Mourão do que com o ministro. A disputa de egos gerou embate entre os militares, que estão ao lado do vice-presidente, e Salles e outros representantes da ala ideológica do Governo.

#mariafofoca

Na noite de quinta-feira, ao comentar em seu perfil no Twitter uma reportagem do jornal O Globo que mostrava esse embate entre os dois grupos, Salles chamou o ministro da secretaria de Governo, o general Luiz Eduardo Ramos, de fofoqueiro. “@MinLuizRamos não estiquei a corda com ninguém. Tenho enorme respeito e apreço pela instituição militar. Atuo da forma que entendo correto. Chega dessa postura de #mariafofoca” afirmou.

Indagado sobre o comentário de Salles, Mourão disse que ele foi “péssimo”. “Muitas vezes a pessoa reage no calor dos acontecimentos e termina tomando uma linha de ação que é péssima”, afirmou a jornalistas. Mais tarde, disse que a “crise” havia sido superada. “Ficou naquele vai pra lá e vai pra cá e agora ficou acertado, decidido. Ontem, nós conversamos, conversei com o Braga Netto e vai ser liberado os 134 milhões dele (Meio Ambiente)”.

Hoje, a briga ganhou novos integrantes. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), criticou Salles nas redes sociais. “O ministro Ricardo Salles, não satisfeito em destruir o meio ambiente do Brasil, agora resolveu destruir o próprio governo”, escreveu o deputado no Twitter. Na mesmo linha, Davi Alcolumbre, presidente do Senado, disse que “sem entrar no mérito da questão, faço duas ressalvas. 1 – Como chefe do Legislativo, registro a importância do ministro Ramos na relação institucional com o Congresso. 2 – Não é saudável que um ministro ofenda publicamente outro ministro. Isto só apequena o governo e faz mal ao Brasil”, afirmou, também no Twitter.

Segundo relatou uma fonte do Palácio do Planalto, Bolsonaro tem resistido em demitir o ministro por entender que teria dificuldade em encontrar um substituto que tope agir da mesma maneira que ele, afrouxando as fiscalizações, afrontando as organizações internacionais e protegendo produtores e mineradores, ainda que eles não estejam legalizados. Também não quer demonstrar que estaria sendo tutelado pela ala militar, que defende o desligamento de Salles do cargo.

Por: Afonso Benites
Fonte: El País

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